Perdão, mas preciso renunciar

Hoje é Yom Kipur, o Dia do Perdão no judaísmo. É um dia de privação e afastamento de Deus, em que o Homem é deixado só para aflorar sua humanidade visceral e expiar os seus pecados — e paradoxalmente é o dia com mais presença de Deus. Mais que um dia de expiação dos pecados, é uma época para se refletir sobre o perdão e de uma aproximação de si.

Há alguns anos que Yom Kipur representa para mim um momento para eu perdoar a mim mesma. Entretanto este ano esse perdão representa algo ainda mais profundo: me dei conta de que perdoar significa renunciar; renunciar não os pecados, mas os nossos medos, as nossas angústias, a nossa solidão, o que nos faz mal. (Note que “renunciar” é um verbo transitivo direto, um verbo de ação muito forte e difícil). E renunciar significa desapegar, desprender; ou melhor, desapegar-se e desprender-se de si mesmo, como a flecha que se desprende do arqueiro, surpreendendo-o.

E resolvi fazer um exercício de desapego: anote numa folha 70 coisas que você não gosta em você e na sua vida, desde características físicas, passando pela tua casa, tua relação com pessoas e com você mesmo. A primeira surpresa foi perceber que eu não cheguei nem perto dessas 70 coisas e que a minha vida talvez não seja tão miserável quanto às vezes parece ser (já sei, classe média sofre muito!). O segundo passo é o mais difícil: em outra folha, escreva para cada um dos itens da lista anterior a seguinte frase: “Eu, Fulano, renuncio tal e tal coisa”. Segunda surpresa chocante: resisti em escrever certas frases e percebi que há coisas negativas na minha vida que por algum motivo eu não estou disposta a renunciar — e aí mora o primeiro obstáculo para a mudança. Segundo um texto do rabino Nilton Bonder sobre Yom Kipur, “o mais doloroso do perdão é que este exige uma redefinição de nós mesmos”. E a mudança dói. Mas é necessária; e não porque temos que mudar, sair da zona de conforto por sair da zona de conforto, mas porque tudo passa e tudo muda, quer a gente queira ou não. E insistir nessas coisas negativas, nos nossos erros e pecados é enganar-se a si mesmo — e isso é o pior mal que podemos fazer a nós mesmos. “O mal do mundo não é a infidelidade a Deus, mas a infidelidade ao humano e à vida”, segundo o rebe.

Tudo no mundo está perfeitamente sincronizado e isso é Belo. Deus é a Beleza e onde há Beleza há ordem — porque o Belo é difícil. Não se pode controlar o Belo, assim como o arqueiro não pode decidir o momento de atirar a flecha (ela o surpreende!) — e tampouco há necessidade!

Qual foi a última vez que você renunciou algo?

Chatimá Tová a todxs!

Nilton Bonder — Paz sem perdão: http://www.cjb.org.br/netsach/festas/kipur/pazperdao.htm

Nilton Bonder — O imperdoável: http://www.niltonbonder.com.br/port/artigos/2004_09.htm

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