O chiclete
1.
Seus pés tocaram a água gelada e em pouco segundos via-se no meio do oceano, com seu corpo banhado num azul marinho, boiando e seus pensamentos longe. Não sabe quanto tempo ficou nesse aconchego, à deriva, tentando se desvencilhar das lembranças ruins.
Quando voltou à terra firme, notou que seus dedos estavam enrugados e o sol se pondo. Tomou uma ducha e foi comprar água na barraca. Estava com sede, seu estômago doía, não sabia se era fome ou um início de gastrite. Em muitos momentos, não sabia o que sentia. Ela, que sempre teve controle sobre sua vida, se sentia como um plâncton, definição usada pelos organismos marinhos que não conseguem nadar contra a corrente. Existem os bentos, néctons e plânctons. Era assim que biólogos marinhos classificam os seres marinhos. Divagava. Melhor que as lembranças das coisas que se arrependia de ter feito ou falado há 10 anos, o dia anterior, não importa: esses pensamentos vinham sempre como uma lança no coração.
A água caía devagar em seu corpo, o ar estava quente e sem vento, tampouco brisa. Foi à barraca mais próxima comprar água. Água dos chuveiros na praia têm coliformes fecais; não é bom beber — tinha visto na tv. TV só mostra o óbvio. Tinha desistido de TV anos atrás; por uma vida mais de paz, sem dramas que não conseguia controlar.
Ao chegar na barraca, pediu “uma água gelada, por favor”. O vendedor falava devagar. Devagar demais. “uuuuummmmm reeeeeaaaal, maaaaadaaaaameeee”. Achou estranho, riu, mas se arrependeu “será um derrame?”. Tinha lido em algum lugar que pessoas com derrame ficam com a fala arrastada. Mas aí percebeu que ele se movimentava devagar, como nos filmes. Achou estranho, mas pagou.
Quando foi se vestir e pegar suas coisas, percebeu que as crianças corriam devagar também. A mulher ao seu lado ria e seu cuspe voava como que com receio de tocar a mesa.
2.
Sua vida parecia um filme ruim, um Além da Imaginação com roteiro preguiçoso. Literalmente. As noites demoravam a passar e o que restava a fazer era rolar na cama, pensar no futuro, no presente e, principalmente, no passado. Quando tinha vontade, lia livros, via filmes, limpava a casa. Mas quase nunca acontecia isso. Suas noites eram fritadas na cama.
Quando a água demorava uma eternidade para ferver, olhava a paisagem da sua janela. Paisagem era forma de dizer; era mais uma coleção de telhados nada coloridos, mas com diferentes tons de desgaste. Tentava estabelecer uma sequência cronológica de construção das casas, correlacionando a arquitetura, possíveis reformas, desgaste do telhado…. O que mais tinha pra se fazer?
O tempo estava contra e a seu favor. Tomava café devagar, comia devagar, no ritmo do mundo. Tentava sincronizar sua mente com o mundo, mas não rolava. Simplesmente não conseguia. Banho, se arrumou e preparou para ir ao trampo. Enquanto esperava o ônibus, mais uma vez pessoas, falando devagar, rindo com preguiça, cansadas de um dia que mal começou. No ônibus, a música animada dos Rolling Stones no fone de ouvido soava melancólica; percebeu que conseguia entender melhor as palavras em inglês assim e prestou atenção na letra. Amor desiludido, blah. afff… O mundo ao seu redor, além de estar estranho, estava repetitivo. Realmente, um filme ruim.
3.
Sentou na cadeira e encarou o computador. Mais uma vez, planilhas intermináveis. Montou uma playlist com músicas animadas e barulhentas e começou a arrumar planilha. Não fazia sentido aquilo, mas era o que fazia o mundo girar. Por que? Ninguém sabia explicar. Dia após dia, o que a satisfazia no passado com o passar do tempo fazia menos sentido. Era como um chiclete que, ao ser mastigado, perde o sabor, aí fica duro e cinza e amargo. Mas vc continua mastigando porque não tem onde jogar fora. Não sabe odiar aquilo que amou no passado, mas o tesão pelo trabalho, pelas pessoas e pela vida simplesmente sumiram.
Tentava interagir o mínimo com as pessoas no trabalho. Naqueles dias estranhos, isolou-se ainda mais. Falava o mínimo, só quando era questionada. Quando perguntava se estava tudo bem (por educação), ela respondia que “na mesma”. Sua condição afastava as pessoas. Entendia, mas, ao mesmo tempo, não conseguia compreender as pessoas. Por que tanta falta de empatia nas pessoas? Se alguém ao menos perguntasse com sinceridade, contaria tudo, choraria, se abriria. Mas não, tudo continuava numa rotina dolorida, devagar e sem graça. Os dias se arrastavam assim e sem saída.
4.
No final de semana, depois de muitos dias, fez sol. Quando o filme no computador terminou, resolveu sair de casa, ver o rio, peixes, a grama crescer. Pensar nessa piada boba a fez rir. Peixes nadavam devagar, sempre nadaram desde que evoluíram sei lá há quantos anos. Continuariam a nadar devagar. A evolução como processo contínuo e devagar a fazia pensar que, talvez, tivesse um lugar no mundo. Arrumou-se com uma roupa velha (pra que se importar?), pôs a chinela (como sua avó dizia) e foi ao parque. Lá viu um cachorro de rua, pulguento, sujo, gordo, língua de fora. Ele abanava o rabo pra ela.
E abanava numa velocidade impressionante!