abril

Alguém reparou que as personagens do Machado

leem quase sempre o mesmo livro que o Riobaldo

também leu: um tal de Sinclair das ilhas.

Sempre me esqueço de tudo, mas dessas coisas não

porque achei bonito alguns olhos se descobrirem

no que ninguém mais vê,

encontrarem pistas do que só existe

no momento de sua invenção.

Não sei bem o porquê, mas eu quis te escrever e não escrevi.


Você parece ser o tipo que acha graça nessas curiosidades.

É que ontem me dei conta de como o seu olhar puxou tudo ao redor

Parece que diz “vem comigo, vem?”,

Mas com um tom de “vem se quiser, que também não preciso disso”.

Não sei se acredito,

nunca fui boa com os detalhes

e com interpretação de corpos.

E eu sei tão pouco sempre

de mim — e de tudo.


Nunca dei atenção, por exemplo, ao livro que as personagens leem.

Algo me diz que você teria reparado.

Você parece ser o tipo que anotaria esse detalhe em seus cadernos.

Daí a vontade de sustentar essa história toda

num daqueles desafios de criança em que não se pode piscar.

Horas e horas.

Absorver sua segurança, suas certezas,

você.

Quase sempre em silêncios,

os rostos próximos

o movimento da luz, as cores

as entrelinhas que aparecem quando você sorri.

as mãos e os caminhos das mãos.

o pó que dança pelo ar e

que só dá para enxergar porque o sol está num certo ângulo.


Tenho poucas certezas,

mas uma delas é de que você também gosta de observar os efeitos dos ângulos da luz solar.

Você parece ser o tipo que sabe explicar e-xa-ta-men-te o porquê disso tudo.

E de todo o resto.


Naquele dia você usou a palavra “graça” e eu não sei gostei.

é que as vezes eu me prendo aos detalhes errados

e passo batido pelos nomes dos livros que as personagens leem.

E eu sei que isso não importa, mas quando chove eu sonho com você

e acordo conhecendo mais uma das setenta e sete mil possibilidades de encaixe

dos nossos corpos.