
É mais do que pelo látex
Em novembro do ano passado tomei a minha última cartela de pílula anticoncepcional. Há 9 meses limpo 14 anos de hormônios. Tenho 30 anos, o que significa: uma puberdade inteira regulada artificialmente, início da fase adulta sem conhecimento dos meus ciclos menstruais, tpms forjadas e sangramentos placebos. Tirando alguns curtos períodos de esquecimento ou de tentativas pouco entusiasmadas de pará-la, praticamente metade da minha vida lidei com essa condição de maneira automatizada, certa de não haver outra escolha mais natural para uma mulher cis, hétero, sexualmente ativa e precavida. Tendemos mesmo a naturalizar o que nos é artificialmente imposto, é curioso isso.
Ao contrário do que ouvi de grande parte das mulheres do meu entorno que decidiram parar, não tomei essa decisão, a priori, porque queria me conectar com minha natureza e conhecer melhor meu corpo. Juntamente ao desprazer da obrigação pela disciplina diária medicamentosa, o extensivo tempo solteira (o que reconhecidamente facilita um desprendimento menos amedrontado) e os relatos crescentes de incidentes graves de saúde associados ao uso de AC, veio também o impulso de chegada a esse 1/3 de vida (oremos) que tem definido algumas escolhas minhas. Na verdade, que tem me impulsionado a escolhas conscientes. Hábitos costumeiros, coisas que me configuraram até então sem que eu tenha de fato escolhido com minha alma, tornando-me dependente, viraram um certo estorvo aqui em minha consciência.
Foi assim com a pílula. Me incomodou profundamente a ideia de consumir algo sem desejo, apenas por dependência. As desistências das remotas tentativas anteriores de suspendê-la, foram tornando-se marcas simbólicas de uma prisão hormonal. E, diante da profusão assustadora de espinhas, da queda de cabelo também assustadora e da alteração brusca de humor durante os meses conseguintes à decisão firmada em novembro de 2016, percebi que essa parada pra mim ia ser mesmo uma batalha. Um ato político com os contornos desse corpo, que é meu. Eu sentia zero desconforto tomando pílula, ao contrário de algumas mulheres que de fato sentiram-se melhores após a retirada. Fisicamente, eu estava me sentindo bem pior e peitar isso, entendi que devolveria a mim o controle das escolhas pelo meu corpo e meus limites. Devolveria parte da minha liberdade.
Não foi um processo prazeroso e ainda não tem sido. Entretanto, esse percurso se apresentou como uma irrevogável alavanca de reflexão crítica e política de como eu quero jogar meu corpo no mundo e de como esse mesmo mundo vê o meu corpo.
“Que parada louca essa de hormônio”; “Eu tenho que saber lidar com isso e resolver sem que seja de maneira aprisionada.”; “Mas por que fazemos essa merda com a gente, afinal?”: foram os pensamentos que me irromperam nas vezes que não reconhecia minha pele diante do espelho.
Mas por que fazemos essa merda com a gente, afinal?
Elocubrando sobre minha trajetória e da maioria das mulheres, em ordem de pânico familiar patriarcal, nota-se, que o mais naturalizado e temido socialmente em relação a uma mulher cis hétero que inicia sua sexualidade ainda bastante jovem, é que ela engravide. Depois vem as dsts até, mas, o papo sobre cuidados, geralmente cumpre um protocolo caricaturizado, bem a cara daquelas ações de escola com fotos de sífilis e gonorréia como se fossem personagens de um filme de ficção. Aquilo tudo bem en passant, bem cartaz de mensagem simples, dando logo lugar ao pânico top 1, que é o que mais interessa a uma família tradicional. Consequência: introduz a pílula logo nessa menina. Assim mesmo, como se a responsa maior fosse dela. Uma espécie de punição, já que é ela quem ovula; já que é ela quem estragará sua vida; já que os homens tem carta branca simbólica para não se responsabilizarem por nada disso, nem com a gravidez indesejada de uma mina, nem com o cuidado de prevenção que eles devem a qualquer uma delas. Consolidei a existência desse pensamento coletivo, quando, ao engravidar e abortar, ouvi do cara, responsável biológico dessa gravidez junto comigo, que o que eu estava passando era triste, mas que eu, como mulher e detentora do poder de tomar pílula, deveria ter me preocupado muito mais com isso do que ele era capaz de se preocupar. Afinal, era o meu corpo, disse ele, que pelo visto, acreditava saber mais sobre o meu corpo que eu. Mais até que sobre o seu próprio corpo.
Eu só sei, que a sociedade cria macho fazendo-o acreditar que nasce com o pau blindado, tanto para doenças, quanto pra fazer filhx, já que estão pra nascer aqueles que superarão essa média (otimista) de 10% que não pede pra “botar pelo menos um pouquinho” sem camisinha. E nós recebemos isso como? Tomando pílula, né. Porque afinal, nós, mulheres cis, hétero ou bi, somos criadas por essa mesma sociedade para aceitarmos que isso vale, se no entanto, estivermos garantidas com a pílula antes.
Se analisarmos a própria história da pílula, criada na década de 60 após uma ostensiva militância feminina pelo direito de não querer engravidar, a gente já entende o raciocínio bizarro oriundo do patriarcado que permeia a questão. O qual, qualificou o papel da mulher apenas para a procriação, tanto que, o que conseguimos conquistar como forma de cuidado, foi: interrompermos com a produção quase industrial de gerar filhxs por meio de um medicamento ingerido por nós. Apenas por nós. Isso foi importante pra caramba, foi foda. Marca uma ruptura necessária. Deixamos de ser uma máquina procriativa para passarmos a escolher quando procriar. Mas a consciência política da sexualidade feminina não se esgota aí. Não mesmo. Quando classificamos nossos limites sexuais consensuais a apenas negar o procriar, de alguma maneira, também nos afirmamos e nos resumimos a seres primordialmente procriadores. Somos mais que meros úteros procriadores.
O que eu quero dizer com isso? Que definitivamente precisamos ter mais carinho por nós e que esse cuidado seja responsabilidade dos dois: nosso (no caso de mulheres cis hétero ou bi) e dos caras. Eu estou falando sobre termos clareza política sobre nossos corpos dentro dessas relações; sobre também passar essa bola pra eles e não apenas dividindo o valor da pílula na farmácia, porque a bomba relógio de hormônio vai continuar aqui dentro da gente. Eu estou falando de camisinha mesmo - esse monstro terrível feito de látex.
Boa parte das vezes que falo sobre esse assunto com outras mulheres, emergem frases clássicas como “eu não deveria, mas é que camisinha é ruim” e “eu sei, eu penso nisso, mas é que quebra o clima”. Exatamente os argumentos que ouço dos homens. Vocês percebem? Acerca do cuidado com nosso corpo, mulheres, partilhamos do mesmo pensamento dos homens e tem alguma coisa bem errada nisso. Não que eu nunca tenha dado mole, já dei vários, mas é exatamente por isso que me bateu forte a hora de pensar melhor nas coisas.
Será mesmo que camisinha é tão ruim assim? Ruim não é viver a neura de ter contraído uma doença ou ter sido presenteada por uma gravidez fora de hora? Só nessa de coito interrompido eu devo ter pelo menos uma meia dúzia de crianças por perto e mais umas dezenas de diagnósticos de doenças venéreas espalhados entre amigas. Ruim não é hormônio, viver prisioneira de uma parada que te fode tanto durante o uso, quanto depois que decide parar? Ruim é o látex mesmo (já existe marca sem látex no mercado, inclusive), ou é a gente não ter afeto pelo nosso corpo, esse, que temos gritado que por ser nosso, fazemos nossas regras? Será que seria uma quebra de clima se, ao iniciarmos o ato, o cara, tão responsável pelos cuidados que o circundam quanto nós, sacassem suas boas camisinhas e as colocassem na hora devida, sem que precisássemos sinalizar? Te garanto que não. Vivemos a ilusão de romantizar o desuso da camisinha como uma demonstração de intimidade desejada. Como se ele, por não usar mais camisinha comigo, tivesse me elegido, me condecorado, mulher única e especial para ele. Isso é muita viagem e uma baita reprodução de uma idealização patriarcal.
Hoje, somos criadas mais para não engravidarmos fora de hora do que para nos apropriarmos de limites. Uma geração criada para a pílula, bem mais que para a camisinha. Acho que é hora de apertarmos um F5 na cabeça e todes criarmos nossas mulheres para cuidarem dos seus corpos, os homens dos seus e também dos nossos. Criarmos pessoas que naturalizem a camisinha assim como fizemos com a pílula nessas últimas décadas. A camisinha precisa ser um gozo conjunto. Um carinho, um prazer, como a exigência de um oral dedicado, uma demonstração de afeto diante de uma troca de intimidade.
É hora de sermos mulheres de nós mesmas, enfim, e exigir. É um ato de amor por nós.
Que o uso de anticoncepcional seja feito por necessidade ou, por escolha mesmo(se você entender que também é um exercício de sua liberdade), mas que não seja por alienação. Porque, definitivamente, não é pelo látex, é porque o machismo ainda mora até na satisfação dos nossos desejos.