Porque sim
Imagine você, são tantos “porquês” que surgem no decorrer dos nossos processos internos. Um bando de bicho gente pseudo racionais. Problematizadores. Talvez mais problemáticos até que racionais, mas uma dinastia de problematizações a cada fio de cabelo impera em nosso dia-a-dia bípede. Desde as mais intangíveis às interrogativas críticas, até às que perfuram as camadas mais profundas da nossa subjetividade. Nada do que fazemos ou deixamos de fazer atravessa imune aos porquês elencados pelos nossos cérebros humanos. Toda escolha é precedida de porquês. Ao menos um. Quando somos limitados de escolhas, limitamos a liberdade de nossos porquês, limitamos a nossa própria liberdade de existir. Talvez pela mesma razão, os desprovidos de escolhas estabeleçam essa relação kamikase com a vida.
Quando eu estava na escola, com 9 ou 10 anos, escrevi uma poesia para um trabalho em dupla de Língua Portuguesa, que, não sei porque — se por escolha da professora ou por não haver mais opções -, acabei formando-a com uma das alunas mais estudiosas da turma, com quem eu não me relacionava intimamente. O objetivo final era publicar um livreto de escritos selecionados e apresentar à comunidade escolar. Não tinha grandes ambições em participar do livreto, principalmente porque a condição “selecionados” nunca fluiu bem diante das minhas questões com autoconfiança, mas a escrevi. Sozinha. Em uma tarde em minha casa, em uma folha de caderno, com aquela minha letra cursiva infantil já cheia de vícios tortos. Transbordei inspiração em grafia e em um único fôlego, apresentei à minha dupla na manhã seguinte. Em suas mãos, nenhuma grande alteração. Escreveu uma linha e corrigiu minha ortografia, nada além. Do jeito que estava, estava bom pra ela. Não fiz mais do que minha obrigação, um cumprimento de demanda, apenas, eu pensava, mas fiz com prazer e senti orgulho contido.
Um tempo depois, sim, minha poesia foi uma das selecionadas para o livreto. Mas, embora inflada de adrenalina e gabo, não consegui libertar as borboletas da barriga, porque para todos (menos para mim) ela era a nossa poesia. Durante a exposição, diante dos elogios direcionados a minha dupla e da minha existência coadjuvante, senti um nó quente de ciúmes na garganta e o engoli a seco. Passei a criar mentalmente todos os méritos que ela tinha pelo feito -”ela era a mais inteligente, afinal”. Consegui lidar com o reconhecimento de seus méritos deleitando-me com minha própria glória silenciosa e encontrei merecimento em minha projeção semi-invisível.
Essa história me retorna toda vez que pessoas próximas me provocam, perguntando o porquê de eu não expor meus pensamentos de maneira intencionalmente pública, como estou fazendo agora. Um festival de inibições, então revelo aqui. De grandes exigências refletidas em congelamentos, como um estado permanente inconsciente de uma meritocracia auto punitiva cotidiana. Diante de um “se joga”, recorro ao“ mas há quem se jogue melhor que eu, então, melhor não. ”. Não sou jornalista, não sou escritora, não sou acadêmica. Concluí minha graduação em uma universidade pública, repleta de críticas ao elitismo acadêmico e uma consequente sensação de não pertencimento àquele chão e àquela forma de produzir conhecimento que também traz o ego como pauta. Reproduzo inadequações gramaticais ao longo da minha escrita, embora autênticas, pouco aceitáveis à norma culta da língua. Desde então, sigo apenas sendo. Escrever é um processo auto curativo pra mim. Mas direcionar nossa escrita a alguém, é escancarar as portas da vulnerabilidade. É também se olhar com os olhos alheios e aguardar um retrato de si, uma fotografia que pode ser revelada invertida. E é daí, que brotam os “porques nãos”.
Minha vaidade é sazonal. Tem época para colheita, depende dos limites da estação. Desconforta-me o lugar da altivez auto referente, a hierarquia dos holofotes, a verticalidade dos méritos públicos individualistas pela manutenção do status. Um virtuosismo coletivo sempre me soa mais acolhedor. Mas desde que, em abril desse ano, fiz 30, comecei a questionar se dentro dessa permanente visão também habita parte da minha instável e frágil autoconfiança dos 9 anos de idade de poesias secretas. Acho que os 30 tem disso: um clamor orgânico por romper, talvez, definitivamente, com a criança indefesa que nos acompanhou até aqui. Então, não sei se por decisão ou apenas por ser inevitável, rompi. Ainda trago comigo a preferência pelos pés sujos por andar descalça e uma maleta de arteirices inconsequentes dos meus 9 anos, mas o silêncio e o secreto, escolho que, a partir de agora, somente guardarão aquilo que não dê nó nem na garganta, nem no meu desabrochar.
A meritocracia é um sistema que aniquila a diversidade, que não inclui o afeto em seu processo. É o habitat da competição. Talvez por isso tantas crises em se fazer reconhecer, em se expor, em acreditar em si e gritar pro mundo que você também é foda. Porque esse mundo foi criado para que acreditemos que existam somente alguns fodas, ou, ao menos, poucas categorias deles. Assim mantemos a engrenagem da competição e não nos aceitamos todos, enfim, como grandes potências em nós e para nós. Uma distribuição afetiva entre todos dessa energia meritocrática que nos assola, seria a vitória de um socialismo intuitivo, porque na real, somos muita coisa em nossa trajetória humana de porquês, sim, e não existem títulos pra isso.
Por isso resolvi (ou deixei vir) romper. Por isso também querer escrever, me expor, tomar um pouco do seu tempo pra me desvelar. Porque eu sou qualquer uma. Eu sou você. Somos o que encontramos de nós em nós. Todes podemos. Não tem regra, tá liberado. Pode ser, pode transbordar, pode rasgar, pode expandir, pode desabrochar, pode transformar se for pro bem. E sabe porque? Porque sim. Apenas porque sim.
