O inimigo é sempre o outro

Sabrina Rolim
Sep 9, 2018 · 4 min read

“É que nem o *candidato* fala, tem que jogar esses comunista tudo pra debaixo do tapete.
É pegar esses professores comunistas, botar tudo dentro do saco e jogar no mar.”

É isso que eu ouço da boca de um pessoa que até já fez faculdade.

Assustador é ver como esse jogo político transformado em FLAxFLU cria animosidades, irracionalidades e desmantela o discernimento das pessoas. É angustiante ver como uma pessoa que defende a moral e os bons costumes cristãos se torna um trasgo venenoso e violento quando uma mídia controversa decide eleger inimigos e sustentar uma imagem que não existe do já tão malfadado e praticamente inexistente comunismo no Brasil.

É aterrorizante ouvir uma pessoa gritando essas palavras dentro de casa e saber que elas estão sendo direcionadas para você. Espuma e ódio cuspidos com toda energia existente da alma de alguém amedrontado e angustiado com o futuro. As pessoas sentem medo e isso pode cegá-las a ponto de ver chifre em cabeça de cavalo e comunistas comendo a mente de crianças e jovens do país. Elas estão em torpor agressivo e insano ativado pelos instintos animalescos e ancestrais do ser humano, dos tempos onde a besta que se espreita no escuro tem dentes afiados e rasga a carne da sua família e só se tem uma tocha nas mãos.

É o medo de perder os filhos para algo que não conhece, para algo que não existe, mas que acredita estar espreitando e planejando roubar os pescoços deles para longe de você. O indivíduo fica completamente transtornado porque sabe que não tem armas necessárias para lutar contra isso e tem a certeza de que vai perder a batalha. Isso ativa a adrenalina e ferve o sangue em suas veias, injeta a raiva nos olhos e aumenta a potência de seus músculos. Sua garganta não pode prender o grito angustiado que corrói a sua alma, então você dispara e, com uma força dantesca que não sabe de onde veio, pula pra cima da fera sombria, de berro empunhado.

Não pode deixar que os levem. É sua cria, é seu sangue, é o seu suor, é toda idealização de expectativas de algo que você não pôde ser. É tudo que você tem. Tudo.

De unha em riste, crava seus dentes no pescoço da fera. Os grunhidos de dor e raiva sobrepõem o ódio que emana de seu peito. É a besta! Sob seu domínio! Você pode sentir o gosto do sangue quente escorrendo pelo seu queixo. O espasmo dos músculos do bicho sob suas mãos te energizando a ponto de se sentir mais forte, mais poderoso, mais onipotente. Você está no controle. São seus braços que enlaçam o monstro e é o seu ímpeto que o sufoca até que deixe de existir. Você sente a vitória chegando cada vez que o pulso de sua presa demora mais a se repetir. O arfar cansado e esparso vai se desvanecendo junto com o líquido rubro pelo chão ao mesmo tempo que o sorriso vencedor vai se formando em sua boca, ainda presa à jugular do bicho.

Ele para. Sem batimentos, sem respiração.

Você conseguiu.

Sua boca se desprende do cadáver e você levanta, impetuoso, heróico. Você vê os outros pares de olhos nas sombras se afastarem vagarosamente, assustados. Agora eles sabem quem é que manda. Agora eles sabem que você não vai permitir que ameacem seus bens mais preciosos. Seu tesouro, seus pertences.

Você vira para trás, o rosto iluminado, buscando com seu sorriso os doces e inocentes rostos de sua prole. Então, você congela.

Não há nada atrás de você. Suas crias sumiram. Não pode ser, você destruiu a fera! Não podem ter carregado seus bebês! Não, não! Você venceu! Não é possível que eles tenham conseguido. Você acabou com a ameaça, não havia mais nada que pudesse atingir suas crianças.

Suas mãos em desespero se agarram à sua cabeça. Não. Deve haver algum engano, não pode ter perdido sua prole para aquilo. Você se volta novamente, ainda sem acreditar, procurando seu objeto de afeto. Seu pé esbarra no cadáver que você deixou ao chão. Você olha novamente para conferir se a fera realmente está morta e então sente seu estômago revirar.

Lentamente você se abaixa e pega a tocha caída. Sua respiração fica ofegante, seu corpo começa a tremer e suar frio. A chama se eleva acima de sua cabeça e você ouve um choro baixinho. Ao olhar para frente, onde antes você havia visto as outras feras se afastando, reconhece as faces doces de seus filhos. Mas não estão aliviados. A máscara de medo e confusão cobre seus rostos e você não consegue entender. Você se levanta para abraçá-los, acalentar seus bebês e dizer a eles que está tudo bem agora.

As pequenas bocas se escancaram de pavor. A menor grita, em choro, o medo na sua mais pura forma. Você não entende. Olha rápido para trás. Não há nada lá. Você estende os braços para eles e ouve novamente seus gritos de horror. Não faz sentido, não há mais nenhuma besta. Então, você percebe que eles olham diretamente para você. Sua prole maior chora incontrolavelmente e olha para baixo, diretamente à sua frente. Você não entende nada.

Você olha para baixo. Aos seus pés, estendido ao chão em meio à poça do próprio sangue, o corpo de seu primogênito ainda te encara com os olhos vidrados. No último suspiro, uma palavra engasgada e nunca ouvida.

Você continua sem entender nada.

22, quase-jornalista, quase-artista

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