Notas sobre depressão e culpabilização

A depressão é uma doença do corpo e da alma e é incompreendida em ambos aspectos. Como doença do corpo, é vista de forma farmacológica pela sociedade que prega a tarja preta como solução. Como doença da alma, é vista de forma egoísta e culpabilizadora, como se as pessoas deprimidas tivessem escolha sobre seu estado físico e emocional, e como se, sozinha, fossem capazes de mudar essa condição. Se não mudam é porque não querem. Basta querer.

Querer faz sim a diferença. Querer melhorar, querer viver. Mas a construção do querer não é algo imediato, nem depende apenas da força de vontade de alguém que não tem mais forças. Colocamos muita pressão em cima de nossas pessoas deprimidas por não saber ajudar, ou ajudar pelas metades.

A pessoa oprimida é afligida por diversas formas de opressão, perseguição, desespero, e medo, muito medo. Isso transforma pensamentos e sentimentos, além de contribuir para uma reação em cadeia que parece ser sem fim. É por isso que uma característica forte das pessoas deprimidas é a obsessão. Obsessão com o que lhe dá medo, com o presente, com o passado, com o futuro, e com a maneira como as pessoas ao seu redor lhe enxergam. Esse ultimo fator talvez seja o mais marcante para a recuperação ou não de uma pessoa deprimida, pois o pouco que as seguram aqui depende do carinho, compreensão, paciência e solidariedade das pessoas que as amam e são amadas por ela.

O fato é que não é fácil ser a pessoa que ama e a pessoa amada por alguém com depressão. Assim como não é fácil acompanhar casos de doença degenerativos e terminais como câncer, estados em coma e degenerativos, etc. Porém, por alguma razão (talvez a psicofobia e a incapacidade social de reconhecer a depressão como patologia complexa), a pessoa com depressão é cobrada por aqueles ao seu redor com mais vigor e intolerância que em outras doenças terminais. A diferença fatal que pode até quebrar amigos e entes queridos é aquela percepção que a pessoa com câncer terminal vai lutar até o fim contra a possível morte, já a pessoa deprimida não. Consiste de um enorme equívoco julgar que a pessoa com ideação suicida não luta contra a morte. Querer morrer, querer pôr um fim à dor não significa se entregar para a morte. Caso fosse assim, não teríamos tantas tentativas falidas de suicídio, sobreviventes de depressão grave, e pessoa que vivem por anos com essa ideação mas se seguram a ideia de vida com o pouco de força que lhe resta.

Passei a entender que um dos problemas vitais dessa relação entre a pessoa com depressão e as pessoas ao seu redor é a noção de culpa. A pessoa deprimida é constantemente culpada pela sua própria situação. Se nem pacientes de câncer de pulmão com 40 anos de cigarro são culpados à nível similar, por que é esse o caso com as 350 milhões de pessoas que se estima são afetadas por depressão no mundo? Por que falta a combinação necessária de carinho, compreensão, paciência e solidariedade com elas?

A psicofobia não é algo individualizado. Ela permeia diversos setores da nossa sociedade: desde a medicina ocidental até a maneira como pessoas deprimidas são retratadas na mídia e na cultura popular. A pessoa deprimida é enxergada de maneira ambígua pelos olhos da psicofobia: ela é fraca por se entregar à tristeza, mas essa fraqueza não pode justificar toda a ajuda que diz precisar; ela é covarde se considera o suicídio, mas também é covarde se tenta ou indica tentativas sem resultado (“quem você quer manipular com essas ameaças, então?”); ela sofre, mas também faz os outros sofrerem (seguindo a lógica perversa que a pessoa deprimida quer atingir as pessoas ao seu redor). Toda essa ambiguidade é cruel e demonstra a incapacidade social de compreender a complexidade da depressão.

O mesmo se aplica a sobreviventes: pessoas que estiveram seriamente debilitadas pela depressão e ideação suicida e que hoje se encontram temporariamente fora da estatística de 800 mil pessoas que morrem de suicídio por ano. Digo temporariamente porque, mesmo que não se reconheça, a depressão é uma condição crônica que pode entrar em remissão, ser controlada, mas também pode voltar. Essa vulnerabilidade em relação ao estado depressivo torna imprescindível uma abordagem completa de tratamento: remédios, acompanhamento médico, apoio familiar, e integração social são fundamentais nesse processo. Infelizmente, menos da metade das pessoas com depressão tem a sorte de acessar um tratamento completo e eficaz. E daquelas que tem, nem todas se beneficiam dos aspectos subjetivos da solidariedade daqueles ao seu redor.

Não é incomum que uma pessoa em remissão seja confrontada sobre as coisas que disse, pensou, e fez durante atos de desespero nos dias mais sombrios. Por alguma razão, julgam que uma vez que o risco direto de suicídio e incapacitação não está mais por perto, é possível forçar uma racionalização e até culpar a pessoa pelas acomodações que foram necessárias durante seu tratamento. Quando há altos custos financeiros envolvidos, como em países com falha assistência médica na área de saúde mental, e isso afeta de forma mais permanente os recursos familiares, o ressentimento pelos custos é utilizado como ferramenta de cobrança, esquecendo, mais uma vez, que a pessoa não pediu a depressão. Por isso não surpreende o fato de muitas pessoas com depressão sobreviventes se sentirem envergonhadas pela sua situação, inclusive ao serem cobradas por ações tomadas para garantir seu bem-estar mas que nunca exigiram (e se exigiram num momento incapaz de desespero, e daí?). Você pode ser responsabilizado pelo que faz sob a influência de uma doença, afinal a responsabilidade não exclui ninguém, mas a culpabilização é um processo injusto que nega a condição de incapaz e vulnerável da pessoa durante crises depressivas, de ansiedade, e de pânico. Já basta a culpabilização própria que marca a sina de muitas pessoas deprimidas, as quais reconhecem a dificuldade imposta pelos seus gatilhos e que gostariam de eliminá-los, se pudessem.

Parece também injusto cobrar que aqueles de nós que nos encontramos ao redor de uma pessoa deprimida demonstremos a maior compreensão do mundo. Mas a verdade é que não é necessário ter a maior compreensão do mundo, apenas compreensão daquele tamanho razoável mesmo. A pessoa deprimida costuma ter uma visão mais estreita de seus prantos, o que também estreita sua visão. Enquanto o acompanhamento terapêutico constante pode ajuda-la a enxergar suas dores de forma mais racional e holística, as pessoas ao seu redor precisam compreender como qualquer situação, por menor que seja, pode se tornar um monstro debaixo das garras da depressão, a ponto de criar gatilhos em situações que em outrora não seriam nocivas. O que fazer nesses casos? Ceder? É aqui que a coordenação entre familiares, amigos, e a equipe médica da pessoa faz toda a diferença. Juntos poderão chegar a pontos de acordo que acomodam a pessoa deprimida sem expô-la a maiores riscos, mas de forma razoável para todos os outros. Não é a toa que clínicas mais especializadas insistem na necessidade de terapia familiar para pacientes em quadros mais severos, e até grupos de terapia familiar compostos somente dos familiares que também precisam desabafar e buscar ajuda para não adoecerem também. O pai de um paciente de câncer pode não desenvolver câncer ao acompanhar a luta de seu filho, mas pode sim acabar desenvolvendo algum grau de depressão. Familiares e pessoas queridas sofrem em casos de doenças graves por conta do cansaço, desespero e até culpabilização própria. É exatamente o mesmo para pacientes deprimidos. O auto-cuidado familiar se torna mais que necessário nessas horas, até porque a culpa continua nos seguindo aonde vamos. Se a depressão vence, os familiares podem acabar se culpando. Se a pessoa sobrevive a depressão, os familiares podem gerar questionamentos indesejáveis e acabar culpando-a pelos tempos difíceis que passaram juntos, colocando o ressentimento acima da saúde mental de todos. Não existem vitórias totais em casos de depressão, mas bem que podemos nos esforçar para reconhecer a vitória mais importante e não cometer descuidos e deslizes que tragam mais fracassos.

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