Eu sempre disse que a depressão é a doença mais cruel porque quando você tem depressão você deixa de se reconhecer. É cruel com o depressivo. É por isso que o depressivo se vitimiza, porque perdemos nossa perspectiva de quem somos. Somos só doença. E a partir daí pensamos que só nós sofremos.

Mas só a vida pra ensinar o tão cruel também é amar quem não reconhece a si mesmo. Você é desafiado a amar ao mesmo tempo alguém que está ali e alguém que não está ali. Assistir o olhar perdido e o desespero sem cair na tentação de querer salvar a pessoa. Também nos desesperar na ideia que salvar o outro findará todo sofrimento, e a partir daí piorar o nosso sofrer.

O difícil é entender que por mais que seja claro que ninguém salva ninguém, essa coisa de amor bagunça a visão. E a gente vai e tenta mesmo assim. E ama. E sofre. E ama um pouco mais. E o sofrimento e o amor, que antes eram água e óleo, se misturam. Até o amor adoece.

Fica só a esperança de que com a melhora da depressão, o amor se cure também. Não há garantias sobre isso, mas bem que a gente gosta de acreditar que aquela máxima do poeta bíblico possa ser verdadeira: o amor tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.

Pode ser mesmo que você não consiga salvar aquela pessoa deprimida que você ama. A cura vem de dentro. Mas vou continuar achando que o amor, até mesmo o amor sofrido, pode ajudar.