O dom de ferir com palavras

Não sei se ela se lembra disso, mas uma vez minha mãe me disse que eu tinha o dom da palavra. Eu achei a colocação engraçada, especialmente por pensar que minha mãe se referia às minhas notas na matéria de redação. Ter o dom é tirar 10. Tirar 10 é ter o dom.

Aí eu cresci mais alguns anos, e centímetros, e fui entender melhor o que ela quis dizer. Colocar palavras juntas nem é tão difícil, mas torná-las em argumentos exige dedicação. Exige paixão. Exige sacrifício.

Com esses anos no lombo, e os centímetros nas pernas, entrei pra academia. Pode nem ser o dom da palavra, essa coisa de dom parece tão exagerada, pra não dizer pretensiosa, mas que havia uma vocação da palavra, isso sim. Toda essa desenvoltura, combinada a muito trabalho duro, me trouxe onde cheguei.

Mas foi num solstício de inverno como hoje que percebi, após mais anos crescidos e centímetros por hora estáveis, que o tal dom do argumento pode ser muito bom na academia e na militância, mas (caramba!) como age feito faca de dois gumes nas relações!

Nesse processo contínuo de crítica e autocrítica em que me encontro – sempre mais relutante no último caso, admito, pois nunca deixei de ser nem de me ver humana – passei a perceber que o poder de argumentar de forma precisa e embasada pode ser definitivo em discussões, posicionando a razão ao meu lado, mas empurrando o afeto (meu, dele, dela, nosso, mútuo) pra longe.

O talento de um lado nem sempre serve à paz e à tranquilidade do outro lado.

Quantas vezes a gente briga não para resolver o dilema e eliminar o conflito, mas para demonstrar razão e inpenetrabilidade? Quantas vezes a gente vê a briga derrapar para momentos sem volta e insistimos mesmo assim porque podemos “ganhar”?

Mas ganhar o que? A batalha e perder a guerra?

Foi aí que eu aprendi que existem certas máximas que internalizamos errado ao longo da vida.

Uma delas é de que contra fatos não há argumentos.

Contra fatos não há opiniões. O bom argumento sempre tem o fato ao seu lado.

E isso é tudo bem na política e na filosofia, mas não no afeto.

No afeto, contra fatos (e seus argumentos) há sempre opiniões. Serão essas de culpas e desculpas, de medos e anseios, de escolhas e ausências, de eus, vocês, e os vários nós no meio do caminho.

E no bate-boca com opiniões, nossos belos argumentos citam tantos fatos que se tornam fatídicos. São rebaixados quando se perde o intuito de resolução e passa a se argumentar apenas para sair vitoriosa.

Mas vitoriosa como se quando machucamos com palavras, mesmo em defesa contra quem nos machuca com ações, caímos na equivalência do ferir um ao outro?

“Toma aqui meu argumento construído com evidências cabais sobre o seu comportamento lixo!”

Pronto, lacrei. Mas e agora? Onde fica a paz? Não era ela que eu queria no fim do caminho?

Quando o dom da palavra empodera o dom de ferir com palavras, o balanço final sugere que talvez melhor um dom domado do que domador.

Prefiro então a lição de que no campo afetivo contra argumentos sempre existem opiniões. E que contra opiniões, bom, contra opiniões pode existir o perdão.

Do perdão nasce a paz.

Quero muito ganhar a guerra.

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