Ela e a ponte

Ela morava embaixo da ponte da avenida mais importante da cidade. E isso, acredite, era lugar de luxo. Tinha cachorro e até casinha de cachorro. Tinha um colchão que servia de cama e um lençol que servia de parede.

Tinha marido. Que desaparecia de vez em quando. Mas que defendia a casa muito bem. Por estar ali podia até acumular objetos. Diferente do tempo em que carregava a vida em uma mochila.

É possível viver de mochila. E pensava porque ter tanta coisa. Pagar aluguel. Ter casa própria. Se era possível viver com uma mochila. Nada era indispensável. Nem comer. Nem tomar banho. Nada que não pudesse ficar para depois.

A não ser as palavras. Essas ela não guardava. Falava e repetia aos quatro ventos seus pensamentos. E pros cachorros também. Falava de como foi perseguida e teve que fugir da cidade natal. Como tudo seria tão perigoso se descobrissem seu nome verdadeiro. Tentou ir morar na Russia. Pedir exílio. Mas lhe faltou tempo.

Acabou indo parar ali. E montou abrigo de um jeito bem profissional. Tudo que fazia, fazia bem. E como não podia contar com a família, amigos, ninguém. Todos em complo contra ela. Então contava com o cachorro. Apesar que as vezes pensava que ele estava programado também. Cachorro é inteligente. Muito mais do que se imagina. Não dá pra dar mole.

No abrigo não tinham espelhos. E os carros que passavam ela conhecia bem. Controlava as placas. Os horários. Sabia a rotina de todos. Era capaz de falar o número de carros passando se perguntassem. E vivia assim, nesse jogo. Nessa trama. No seu filme pessoal de perseguição.

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