Ela e os números

Tinha essa coisa com números. Contava tudo. E colocava metas. Lembra de quando teve o avc. Daqui dois anos estarei boa. Dois anos de recuperação.

E depois de dois anos não é que estivesse voltado a estaca zero. Mas estava bem melhor. Isso é preciso dizer.

Quando tiver quarenta vou fazer faculdade. Aos trinta ter filho. Antes disso casar. Casar é importante. E aos sessenta aposentar. Trabalho de mais não faz bem. Ah! Aos setenta dar aulas para analfabetos. Usar a faculdade, finalmente, para alguma coisa. E por aí também podia ter netos. Ter netos é uma coisa importante.

Importante pra quem? As vezes pra ela, as vezes para os outros. Pensava nas metas como se fossem premonições. E não errou muito nos números. Foi acertando um por um, isso precisamos dizer. Milagrosamente foi acertando um por um. Mas nunca se realizou. Assim que uma meta era alcançada, já tinha outra logo em frente.

Daqui três meses, quando acabar de pagar o cartão, vou comprar a geladeira. E depois o fogão. Estão muito velhos, pensava. Ela não parava. Tinha mil afazeres. Mil coisas pra pensar. Dificilmente parava pra pensar no que sentia. Tentava não sentir.

É que olhar pra dentro é difícil. E é mais fácil colocar metas para que se atinja a felicidade instantanea. Mas aquela felicidade plena, de quem não precisa de nada mais pra ser feliz. Esta não conhecia.

É que se fosse olhar pra dentro iria encontrar verdadeiros horizontes de tristeza. Tanta tristeza que era ver seu pai olhando para os irmãos com um jeito mais amoroso. E ver que ele achava que era filha de outro homem. Tudo por causa de sua cor morena. Essa não é minha filha. Não é.

Sua mãe, de origem indigena e pele também bem escura nunca a defendeu. Tinha pena da filha. Mas só conseguia agredi-la. Essa coisa de amor não era bem vista naquela casa. E daí surgiu a primeira meta. Sair de casa. A qualquer custo, do jeito que fosse. Ontem.

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