Ela morreu

Ela morreu num dia como esse. Tava sol. E cada um levava sua vida. Não sei se te interessa saber, mas morreu num dia assim. Planejava sair pra procurar emprego. Já tinha arrumado o curriculo e tudo. Já tinha separado roupa boa. Foi tomar banho e levou um choque. Foi no chuveiro. Sim. Entrou em curto circuito. E não tinha mais ninguém em casa. Ainda bem. Porque talvez também tivesse levado um choque daqueles.

Ela morreu quando atravessava a rua conversando no celular. Bateu de frente com um ônibus. Foi morte feia. Do tipo que ninguém deseja. Ficou um tempo no chão ainda achando que estava viva. Mas, não, era só o tempo de morrer. O tempo de morrer.

Ela morreu na cama do hospital. Já estava em coma faziam dias. E desenganada. Todos sabiam de sua situação. Já choravam sua falta bem antes de partir. E morreu de tédio, de ficar ali deitada. O único jeito era ir embora.

Ela morreu no dia em que ele foi embora. Se matou depois, mas isso é só detalhe. Foi , na verdade, ele quem a matou. Foi ele. Com aquele olhar distante. Cruel.

Ela morreu de outro jeito na verdade, por saudades. Tanto tempo longe. Ele se foi de uma hora pra outra. E ela ficou ali sozinha. Morreu de saudades. Logo depois dele.

Ela morreu, morreu, morreu de todos os jeitos e em todos os lugares. Foi morrendo de tanto pensar e sonhar com a morte. Achava que ninguém pensava em cair da sacada de um prédio, de um avião ou do bondinho. Mas ela pensava sempre. Não era de ter pânico e não entrar. Entrava. No elevador, na moto, no ultraleve. Subia e até se divertia. Mas a cada passeio uma morte premeditada. E que nunca, nunca acontecia.

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