A Montanha

O muro era como eu a conhecia desde pequena. Hoje sei que na verdade é um platô, tipo de formação rochosa que se ergue reta como um muro mas muito mais larga, por vezes abrigando uma cidade inteira no seu topo. Eu não sabia de nada disso com 6 anos, pra mim ela era o maior muro do mundo! Um muro onde cabia árvores e que se pintava de roxo quando o sol se punha.

Tudo isso foi a muito tempo, foi na época que a lagoa ainda existia e não era possível ver as ruínas da velha igreja. Também me lembro quando vi as ruínas pela primeira vez, eu já tinha um pouco mais do que 6 anos, e já sabia o que era um platô. Ainda assim aqueles topos de paredes e a velha torre com a cruz no alto me assustaram como o diabo!

Me lembrei de uma história que meu velho pai costumava contar sobre um padre que pedia carona nas estradas da cidade. Ele entrava no carro e começava a contar sobre como a vila tinha sido inundada para criarem a lagoa e como ele tinha se agarrado ao altar da igreja tentando impedir que inundassem tudo. E quando o motorista perguntava como tinham tirado ele de lá ele respondia que nunca tinham conseguido tirar ele de lá.

Isso pode ter alguma coisa a ver com meu pé atrás com igrejas e padres. Ou talvez seja só cisma mesmo.

Mas era do muro que eu falava. Sempre entendi aquela parede enorme de pedra que sombreava a cidade toda como uma proteção. Diziam que a chuva nunca vinha forte do leste porque a montanha (meu muro) nos protegia. Era ela também que nos separava da cidade vizinha, mais velha e mais movimentada. Nós estávamos isolados do mundo e protegidos por aquele paredão roxo cheio de árvores. E eu imaginava o dia em que um gigante passaria sobre ela e os contos de fada virariam realidade.

Eu cresci e, além de aprender o que é um platô, conheci as cidades vizinhas, aquelas para oeste que se afastavam ainda mais da montanha. Percebi que não estávamos isolados do resto do mundo. Também percebi que as vezes as chuvas que vinham do oeste podiam ser muito fortes, pelo menos fortes o bastante pra fazer estrago. E entendi que não importava quão fortes fossem as chuvas, a lagoa estava secando. A cada ano era possível ver mais fundo na parede da velha igreja.

A principal coisa que aprendi foi que muros servem tanto para proteger quanto para aprisionar. Eu queria ser livre, e assim virei as costas para minha montanha e fui conhecer o mundo. E virei gente grande, dessas cheias de ideias e de problemas pra resolver. E alguns eu consegui resolver, e outros não. E algumas vezes escorreguei e consegui levantar de novo, e outras não.

E quando cansei de ser gente grande, quando os problemas adultos perderam toda a graça foi quando voltei a acreditar em contos de fada. E aí lembrei que muros, como as neblinas, também servem pra proteger. E então eu voltei.

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Primeira experiência em ficção. Caso tenha curtido é só clicar no coração ali embaixo ó. (Pidona fellings)

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