Pastéis, escrita e recuperação

e minha dificuldade evidente em criar bons títulos…

Maldito, e delicioso, pastel

Quando estamos fazendo almoço minha mãe e eu costumamos ter alguma coisa para petiscar enquanto a comida não fica pronta. Em metade dos dias são pedacinhos do angu, fritos. Na outra metade pode ser o assado do fim de semana em cubinhos ou qualquer coisa parecida. Uma cerveja, um drink ou uma taça de vinho podem acompanhar esse petisco alguns dias. Outro costume aqui de casa é sempre experimentar as receitas novas que são feitas para o Cozinha Roman. Quando uma calha de se parecer com um petisco é ainda mais gostoso aproveita-la enquanto preparamos o almoço.

No dia 2 de junho, gravei o vídeo da receita de pastel de angu, que deveria entrar no youtube na segunda quinzena do mês. Montei meu estúdio na cozinha; preparei a massa e recheei a maioria dos pastéis com o molho de carne que já havia deixado pronto. Meu plano era começar a fritar os pastéis com um pouco de massa ainda por modelar, assim teria imagens de todo o processo junto. Consegui as imagens que queria com tempo de sobra então, antes de terminar os pastéis, desliguei e guardei a câmera. Desmontei o estúdio para liberar a cozinha para o almoço e ficamos por ali cozinhando. Demoraria 2 semanas para essa cena voltar a se repetir. Uma pequena taça de cerveja para cada uma, o resto do almoço do dia anterior esquentando e eu só precisava terminar de fritar alguns pastéis que comeríamos no mesmo dia — o restante já estava congelado — quando o recheio acabou.

É preciso dizer que normalmente você só encontra pastel de angu recheado com carne moída ou molho de algum tipo de carne. O único pastel de angu recheado com queijo leva queijo amarelo que puxa; leia mozzarella, prato ou meia cura. Também posso esclarecer que ninguém em sã consciência gosta de fritar nada relacionado a queijo minas tipo fresco. Esse é um queijo que solta água, destrói massas que o envolvem e normalmente se dá bem com uma fatia de pão ou uma colherada de doce. Acho, então, que já deu para adivinhar que foi justamente com queijo minas tipo fresco que eu decidi rechear os malditos últimos 3 pastéis de angu que faltavam fritar.

Eu me lembro perfeitamente do cheiro dos pastéis já prontos, e me lembro de me inclinar sobre a panela para conferir se já estavam dourados o suficiente. Estavam, e a próxima coisa que fiz foi pegar a escumadeira para tira-los da panela. Panela cheia de óleo quente. Óleo quente que espirrou em uma bolha enorme diretamente no meu rosto quando um dos malditos pastéis explodiu.

Eu nunca entendi quando, nos filmes, alguém com um osso saindo da perna ou um braço arrancado começava a gritar sem parar. Sempre me perguntei porque fazer os atores gritarem desse jeito e se alguém realmente gritava daquela forma quando se machucava muito seriamente. Não tinha nenhum osso aparecendo pra fora da minha pele, mas sei que guinchei feito um porco quando o óleo atingiu meu rosto. Eu gritava atingindo um nível de agudo que nunca mais consegui e, enquanto isso, tudo que pensava era eu não queria morrer de um jeito tão idiota.

Essa mensagem não é psicografada, então eu claramente não morri.

Meu próximo medo era meu rosto derretendo ou o calor do óleo queimando até meus ossos. Água gelada, era isso que o manual de primeiros socorros falava, certo? Gelo e água, isso também não funcionou para aliviar a dor e o calor no meu rosto, mas pelo visto pode ter ajudado a diminuir os danos posteriores. Eu não me lembro de ter desligado o fogo, provavelmente foi minha mãe quem o fez. Da mesma forma foi ela que conseguiu pegar o gelo e, depois, dirigir até o hospital. Pra quem não sabe, eu não dirijo e conseguir um ônibus, táxi, Uber, caralho a quatro, na minha cidade pode ser ligeiramente impossível numa emergência. O que talvez não importe muito já que tudo que eu conseguia fazer era apertar o rosto nas mãos e pressionar os olhos contra o crânio.

Isso me faria maquinar, nas semanas seguintes, um plano de ação para caso uma emergência ocorra quando eu estiver sozinha.

No hospital eu ignoro a fila da emergência e grito pra moça no guichê que me queimei com óleo quente. Assim que ela sinaliza que talvez eu possa, quem sabe, entrar ali, eu corro para a área de atendimento gritando o que aconteceu. Uma enfermeira me acolhe (mesmo), ela me abraça e quase me carrega até um quarto, e me deita na maca fazendo as perguntas de praxe. Pede para que eu pare de apertar o rosto mas, além de diminuir a dor, mexer o rosto com as mãos diminui o medo de perder os movimentos. Imagens do meu rosto paralisado e repuxado, incapaz de sorrir ou franzir a testa não saem da minha cabeça.

Eu ganho dois acessos, um em cada mão: soro na esquerda, um remédio para dor que nem registrei o nome na direita. E então meu maior presente naquele dia chega: gazes enormes encharcadas em soro fisiológico. Nas próximas 10h eu não conseguiria ficar mais do que 4minutos sem uma dessas cobrindo todo o meu rosto.

Entre uma gaze e outra começo a reparar numa grande parte da minha visão esquerda que está embaçada. Finalmente uma médica chega para me avaliar, e eu consigo avaliar muito bem a cara de preocupada dela quando falo da mancha no olho. Oftalmologista na hora, passando por dentro do hospital, de cadeira de rodas com direito a segurar o soro no colo e assustar as crianças que encontramos nos corredores.

O óleo penetrou nos meus olhos e eu não só consegui queimar as pálpebras por dentro, como ainda consegui queimar as duas córneas.

“Nada que a gente não possa resolver com um colírio analgésico e uma raspagem.”
“Pode doer um pouquinho daqui algumas horas.”

Nunca acredite quando um médico falar em doer um pouquinho, não importa o quão simpática e tranquila ela seja. Não vai ser um pouquinho. Vai ser a agulha de tricô da sua avó sendo enfiada no seu canal lacrimal! E cada vez que você piscar vai ser como se essa agulha estivesse pegando fogo!!

Cerca de 10 horas depois de dar entrada na emergência da Fundação Ouro Branco, 3 médicos e inúmeras enfermeiras; mais de 14 bolsas de soro gelado depois, eu fui liberada pra casa. Com um retorno marcado com o cirurgião plástico para a semana seguinte, uma receita de um creme hidratante e um outro que destruiria o colágeno do meu rosto e mais 2 colírios que me impediriam de ter uma infecção. Mas ainda assim eu voltava pra casa sem ter que passar a noite no hospital. Pra mim isso já foi uma vitória, isso e a cara de alívio do meu pai ao me ver voltar pra casa. Acho que nunca um cara comprou tanto soro fisiológico na vida. Até hoje ainda tem algumas garrafas guardadas pela casa.


Os dias seguintes se resumiram a ficar na cama com persiana fechadas, luzes apagadas e as benditas toalhas molhadas no rosto. Ouvir podcasts e cuidar do horário dos remédios, foram o resumo dos primeiros dias. As luzes da casa foram trocadas por outras com menor chance de manchar minha pele, e mais uma vez eu pude perceber o privilégio de ter meus pais por perto e tão disponíveis. O Cozinha entrou em licença médica e ligações foram feitas pra adiar trabalhos. Agora era me concentrar em fugir do sol, e não pirar por ficar dentro de casa. E haja toalhinha molhada com soro.

Foram 15 dias de colírios para que minha visão fosse garantida; hoje a minha pálpebra ainda repuxa ligeiramente no canto do olho direito mas enxergo tão bem quanto antes do acidente. A pele ainda mostra, e talvez mostre pra sempre, sinais da queimadura. Foram 3 semanas até o encaminhamento para a dermatologista. Ela não garante, e acho que ninguém o faria, que minha pele vai voltar a ser o que era; mas também não afirma que a mancha vai ser tão grande e pesada quanto é agora. Fui liberada para sair ao ar livre, desde que respeite os famosos horários até as 9h e depois das 16h, e nunca, jamais, abandone o chapelão e o filtro solar, FPS máximo já inventado, com cor. Ainda uso cremes especiais e tomo um suplemento para esse tipo de tratamento. Tudo isso pra tentar evitar que a mancha que ocupa 1/3 do meu rosto se torne permanente.

Ainda assim o que mais me incomoda é que eu ainda não consegui fritar nada sem cair no choro. O mero som de fritura ainda me deixa tensa. E eu mexo com cozinha! Fazer comida é minha vida e não quero ficar restrita nessa área por conta de um trauma.

Em Sobre a Escrita, Stephen King, aquele dos livros de terror que não me deixam dormir sem sonhar com palhaços dirigindo carros assassinos junto de seus cachorros maníacos, fala sobre seu atropelamento. Ele conta como voltar a escrever foi importante e como a escrita, se não salvou a sua vida, pelo menos a transformou em “um lugar mais luminoso e agradável”. Ele não é o primeiro, nem o último, a falar sobre como escrever pode não só ser catártico, mas também ajudar a superar dores e traumas. Em termos de escrita estou longe o suficiente de Stephen King para sequer ver a área onde ele está; mas em termos de acidente o meu também não foi tão grave. Minha vida não correu risco, e eu tive acesso a tratamento imediato, além de uma família que cuidou de mim e facilitou minha vida ao máximo, não deixando chance para sequelas.

Ainda assim, me parece fácil correlacionar a sensação de escrever sobre o que aconteceu. Poder sentar e escrever a história toda, sem nenhuma interrupção ou cara de dó do outro lado (você pode até ter feito, mas eu não vi não é mesmo?), parece realmente ajudar. Sim, aconteceu, e foi horrível. Mas passou. Ficaram marcas? Sim, mas a vida vai continuar com as adaptações necessárias. E isso, isso já é coisa pra caramba! Agora só falta voltar a fritar angu sem chorar!
 
 E acabar com todos aqueles pastéis no congelador…