Vinte e sete

break free

The story of a loneliness binge — Prefácio

O prefácio já tinha uma marcação de vinte e seis como seguinte capítulo, mas demorei um ano entre o prefácio e o capítulo segundo. Como podem supor (26+1) os próximos dedilhar de teclas são sobre o vinte e sete, não vinte e seis, apesar do vinte e seis ser um capítulo importante.


Teoricamente partes do que eu vou dizer estarão no capítulo 23, porque foi quando ganhei uma tatuagem que dizia break free.

“I want to break free” foi escrita pelo baixista do Queen — John Deacon. Sua primeira banda foi a The Oposition, que fundou quando tinha 14 anos. Ele participou da composição da última música lançada pelo Queen — “Let me in your heart again”.

Quando o álbum com “I want to break free” foi lançado (1984), a Apple lançava o primeiro Macintosh, Caio Fernando de Abreu lança o conto “Além do ponto”, no Brasil surge o movimento “Diretas Já” (…); 1984 é o nome do livro em que o superestado atua na figura do Big Brother e sua Polícia do Pensamento.

Uma das minhas almas gêmeas me disse um dia, a 3.500 quilometros de distância, que

quando você movimenta energia, a energia do ambiente ao seu redor também se movimenta.

O que me faz lembrar de um quadro que havia na parede do lugar onde fiz a minha despedida do Brasil.

only those that really love me will ever know me

milagres acontecem quando você vai à luta

O que são mais ou menos a mesma coisa. Sendo que o segundo é mais representativo da realidade: em geral pensamos que são milagres, e em geral pensando que é uma luta.

Então, voltando ao break free — que tem tudo a ver com o resto do que eu falei, já já vai fazer sentido.

[As pessoas que conheço na minha vida são tão fantásticas e eu sou tão agradecida de tudo o que já me ensinaram e continuam me ensinando e que me enchem de pontos que aos poucos vão se conectando e que às vezes culminam quase como em uma epifania.]

Um amigo quase milagre uma vez me ensinou o conceito (creio que poderia chamar de conceito) de pêndulo. De que às vezes parece que há uma força que nos mantêm dentro de um raio e que é muito difícil quebrar essa força que nos puxa cada vez mais para o centro. Sendo o raio mais ou menos a área em que você costuma circular normalmente.

E não é isso mesmo? O pedêndulo, a energia que você não movimenta. A dificuldade de romper a inércia em cada mínimo aspecto da nossa vida, uma aplicação microscópica do pêndulo.

E essas coisas que estavam acontecendo em 1984. Um foco de energia que provavelmente movimentou o foco de outra energia vizinha e assim por diante.

O vinte e sete deve ter mais ou menos essa representação — romper a inércia, a força centrífuga, mover minha energia.

No Chile, no Brasil, nos Estados Unidos, praticamente uma pessoa que tem, em diversas medidas, todas as características que queremos abolir da sociedade para alcançar um convívio saudável está no poder.

Como nos tornamos assim? O que aconteceu para que o individualismo superasse tanto o coletivismo? Será que a “luta” começou a parecer cada vez mais muito difícil e as pessoas começaram a desacreditar em milagres? Como nosso Big Brother é tudo o que não queremos ver na sociedade?

Sempre me dou conta da força centrífuga que nos puxa com toda a sua força a desviarnos de bons princípios e valores. Quando seu cachorro faz cocô na rua e acabaram as sacolas e seria muito fácil deixar o cocô lá, porque várias pessoas fazem isso mesmo, só seria um cocô a mais. Eu sinto essa força nesse momento tão idiota, mas luto contra essa força e faço o impossível para tirar esse cocô da calçada. Às vezes sujo minha mão de cocô.

Somos feitos vazios, limpos, leves, e ao passar do tempo nos enchemos de coisas que alimentam o pêndulo. Mas a força contra isso vem do centro — do seu centro.

A constante luta em força contrária torna o trabalho menos custoso com o tempo.

You just need to break free.