Malu Margot em Carro de Traidor

Um dia eu comprei um carro. Desses usados, 1.0, câmbio manual, vidros e travas elétricas, e um alarmezinho barulhento. Comprei em um daqueles sites de desapego. A moça foi muito simpática e fez um preço camarada, justificado pelo fato de que ela pegou o marido a traindo ali dentro, com a vizinha de cima. "Eu queria ganhar algum dinheiro me livrando do meu marido também, mas infelizmente não deu", ela desabafou.

O fato é que o automóvel estava conservado e me daria um pouco mais de conforto no transporte pela cidade. No primeiro dia após os trâmites legais de compra e venda lá fui eu, enferrujada depois de tanto tempo sem dirigir, mas não atrapalhada o bastante para aborrecer alguém.

Passei pelo ponto de ônibus onde costumava esperar a minha condução e vi as mesmas pessoas de todos os dias lá. O transporte público da minha cidade não é tão ruim - há piores - e eu sei que não estou fazendo minha parte na redução de poluentes no planeta, mas é confortável ir ouvindo a própria música em alto e bom som e não ter que lidar com as axilas mal cheirosas no fim do dia.

Estava tudo indo muito bem até o primeiro engarrafamento logo depois que dobrei a segunda esquina em direção à avenida. Quilométrico. Gigantesco. Colossal.

De dentro do ônibus nunca pareceu tão extenso.

A magia de dirigir o próprio carro foi se perdendo porque eu não estava dirigindo, estava parada ou, no máximo, engatando a primeira marcha para andar cinco metros. As buzinas incessantes começaram a incomodar. A espera, o tédio, o pé da embreagem dolorido.

Olhei para os lados e meus vizinhos de congestionamento pareciam bem. Bem acostumados.

De repente me deu vontade de voltar para o interior onde nasci e nunca mais ver carros na minha frente. De repente me perguntei porque não comprei uma bicicleta. Além de ser mais rápido e sustentável, me faria perder o status de sedentária.

Olhei para o relógio e já fazia mais ou menos 40 minutos que estava ali e sequer tinha saído do perímetro do meu bairro.

Talvez fosse a maldição do carro de marido traidor. Talvez aquela mulher tivesse rogado uma praga para que ninguém fosse feliz atrás daquele volante.

Quero meu dinheiro de volta!

E foi aí que eu tive uma ideia.

Vinte minutos depois um homem de macacão cinza me encontrou parada no acostamento da avenida, com o pisca alerta ligado. Ele foi gentil.

- O que houve com o carro, senhora?

- Como conseguiu chegar tão rápido? - não que eu estivesse achando ruim.

- Conhecemos os atalhos, sabe como é. Mas me diga, qual seu problema?

- Eu não quero mais dirigir.

- Quis dizer qual o problema mecânico do carro.

- Ah, nenhum. Ele está ótimo.

- Chamou o reboque com o carro em perfeito estado?

- Sim. Não podia simplesmente pegar um táxi e ir para o trabalho. Coloque nós dois aí em cima e vamos embora que eu estou atrasadíssima.

E foi assim que eu comprei e vendi um carro na mesma semana e descobri que não tem nada mais prazeroso do que ter alguém dirigindo para você. Ainda que seja um motorista de reboque ou de transporte público.


Malu Margot é uma personagem fictícia criada para viver histórias comuns e incomuns. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência. Ou não.

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