Nós.

O despertador toca. Estica o braço, desliga o celular. Procura o corpo do outro. Com a voz embargada de sono diz “Vem cá, me abraça”. Os corpos se encaixam naquela curvatura do outro que sem sombras de dúvidas foi feita sobre medida para ficarem juntos.

Um levanta, coloca água no fogo para o chá e entra no banho. volta, desliga a água e tenta despertar aquele que foi vencido pelo sono. Dormiu bem? aqui, pega a toalha. Seu chá está pronto. Eu te amo.

As caixas da mudança amontoadas pelo quarto, a cama ainda de solteiro. Os sonhos, tristezas, alegrias, conquistas e derrotas espalhadas pelas paredes do pequeno comodo. O mesmo guarda roupa, a mesma sapateira, os mesmos desejos.

Dois inteiros que seguiram o fio vermelho do destino até se enlaçarem. Dois que são um.

Em um tempo de amores líquidos ser “um” é, talvez, ultrapassado e perigoso. É olhar para o outro e se dar conta que a única coisa que importa ali é que ele seja feliz. É querer que o outro se veja, ao menos uma vez, com seus olhos para que perceba o quão incrível é. É viver na incongruência que o mundo perceba o quanto o outro é bom, e temer que por esse motivo, a vida o leve para longe de você.

Se doar gera medo. Há quem diga que é também prejudicial se doar. Que devemos preservar nossa racionalidade. Que devemos ter um lugar nosso, em nós para que possamos pousar no outro. Que não devemos ter ninho, apenas pouso. Que amores são passageiros.

Um dia me perguntaram: Você tem um plano B? caso tudo dê errado?

Eu ponderei dias sobre aquela pergunta. cheguei até esboçar um plano B. Até chegar a conclusão que não tinha um plano B porque simplesmente não era certo fazê-lo.

A pessoa me olhou intrigada, e com certa incredulidade estampada na face me questionou o porquê.

Veja, um relacionamento, ele é um acordo diário. Não gosto da palavra “esforço” porque soa negativo. Como se aquilo que fazemos pelo outro fosse, de alguma forma ruim.

Ambas as partes envolvidas celebram um acordo tácito: fazer dar certo. Fazer dar certo sem diminuir, sem machucar, sem anular. Porque amor é isso: é se doar por confiar e saber que o outro te enxerga com os mesmos olhos. Quando você escolhe caminhar lado a lado e se sente feliz por isso. Estar feliz e consciente das suas escolhas é o mais importante item desse acordo.

Fechei meus olhos. Respirei fundo. Consegui visualizar o exato tom de verde dos olhos e suas nuances. O sorriso. O som da gargalhada explodindo pelo quarto e me fazendo rir junto. Eu conseguiria morar no desenho daquela barba. Desenhar um tratado inteiro naqueles ombros e suas sardas.

Abri os olhos. Suspirei.

Eu não preciso de um plano B. Temos o melhor plano que poderíamos desejar. Porque temos um ao outro.

Eu te amo.