RESENHA: Queens of the Stone Age - Villains (2017)

Ao escutar este novo álbum do QOTSA só consigo pensar em uma coisa:
…Like Clockwork Parte 2.
Estabelecida a frase polêmica, vamos à resenha…
Ao ver a divulgação envolvendo este novo álbum me enchi de esperanças. No site havia um projeto gráfico ainda do artista BONEFACE que fez a arte do álbum passado, porém, com o foco em televisores e imagens de “road trips” algo cheirava àquela viagem do Songs for the Deaf (2002) e trazia um certo ar de nostalgia. Mas tive uma leve decepção ao ouvir o primeiro single “The Way You Used To Do”, que apesar de ter toda a identidade da banda - aquele algo de burlesco e desajeitado nas guitarras - parecia mais um Lado-B de um Single de verdade que ainda estaria por vir, algo como um “The Fun Machine Took a Shit and Died” do Era Vulgaris (2007). O segundo single “The Evil Has Landed” melhorava um pouco a baixa expectativa que surgiu após o primeiro, mas ainda não criava uma empolgação tão grande em relação ao novo trabalho de Josh Homme e cia, embora soasse bem melhor ao vivo do que em sua versão oficial.
Tive uma boa surpresa ao ter contato com o álbum completo e me sinto até mal por duvidar do Elvis Ruivo. A faixa de abertura me colocou num clima nostálgico e inquieto que tive a última vez ao ouvir “Turnin’ on the Screw” do álbum de 2007. Um ritmo pesadamente marcado que me colocou de volta no “trem do hype”, o primeiro single que é a faixa seguinte pareceu até mais palatável do que foi à primeira audição - que ainda não desce muito bem mas cumpre sua função dentro da obra.
Minhas comparações iniciais com Era Vulgaris se dão por este álbum abusar de sons e melodias estranhas, de guitarras que parecem desafinadas e coros ao redor das melodias, porém, o que no álbum de 2007 se convertia em algo mais sombrio e agitado aqui aparece de forma dançante e divertida. O último álbum “…Like Clockwork” (2013) foi o primeiro de um longo período sem composições novas da banda e carregava um ar de mistério que se manteve por suas letras mais sombrias e introspectivas, como no caso de “I Sat By The Ocean” que é uma música dançante com dizeres totalmente opostos a isso.
Villains (2017) é um álbum energético e bom para dançar. Isso se reforça pelo álbum ter bastante ritmos repetitivos e marcados, o que talvez após um tempo possa causar um desgaste nas canções. “Dangerous Animals”, a terceira faixa do disco, consta como um bom exemplo desta formula com sua linha de guitarra que lembra o riff principal de “I’m Designer”, que curiosamente também é a terceira faixa do álbum de 2007. A faixa seguinte “Fortress” poderia ser perfeitamente um single deste novo album, um rock simples para se ouvir no carro em rumo ao pôr do sol. Seu ritmo mais calmo abre um momento de fôlego para “Head Like a Haunted House” que nos joga direto no num ritmo frenético de dança, a cozinha comandada por Michael e Jon nos ordena mexer os pés aos seus comandos. “Un-Reborn” já nos convida a uma dança mais lenta, com sintetizadores bem explícitos, algo que só lembro de ter visto em “Sick Sick Sick” de 2007. “Hideway” tenta dar um certo folego entre uma música e outra mas acaba sendo repetitiva e bem enjoativa. “The Evil Has Landed” segue num ritmo bem tradicional da banda, uma faixa mediana que ao vivo, pelas poucas apresentações que a banda tem feito, se mostrou muito mais enérgica, principalmente em seu breakdown. Por fim, a última faixa “Villains of Circunstance” — que já estava sendo apresentada por Josh Homme em alguns shows em versão acústica — possui um clima que rima exatamente com a faixa “…Like Clockwork” do álbum homônimo: o clima noturno dos vocais em ambas as faixas e as letras que demonstram um personagem mergulhado em angústias torna essa proximidade mais factível.
A afirmação de que este último disco é um “…Like Clockwork Parte 2” se dá de diferentes maneiras. O projeto gráfico a cargo do mesmo artista colabora a uma associação com o álbum antecessor em um primeiro momento. A sonoridade continua bem semelhante, embora conte com a produção de Mark Ronson (Amy Winehouse, Bruno Mars) ao invés dos membros da banda, e tendo isso em mente pode-se dizer que ele não teve grande influência, apesar deste ser um álbum mais dançante, me parece muito mais uma coincidência do que uma influência de fato. O clima dançante deste álbum segue na linha de “Smooth Sailin’”, como se ela tivesse se expandido em sua empolgação e ritmo para um álbum todo. Isto acaba sendo uma contraparte do álbum de 2013, onde havia um QOTSA mais pesado e introspectivo para um estado atual mais dançante e expansivo, disto surge a impressão de um álbum duplo. Sem contar que, escutando os dois em seguida, há uma curiosa conexão entre a forma como ambos encerram, gerando uma circularidade entre os dois trabalhos.
Parte desta impressão também se dá pelo fato de entre o último álbum e este haver um menor tempo de espera e por conta da imagem de seus membros não ter sumido tanto da mídia, como nos álbuns anteriores. Josh Homme gravou álbum com Iggy Pop e com sua outra banda Eagles Of Death Metal; Dean Fertita gravou álbum com o Dead Weather; Michael Shuman lançou material novo do Mini Mansions; e Troy Van Leeuwen lançou dois álbuns no supergrupo Gone Is Gone, além de se aproximar musicalmente da sombria Chelsea Wolfe. Em resumo, apesar de ter sido uma espera de 4 anos por um novo álbum, dado a constante atividade dos membros da banda sinto que este álbum novo veio até cedo demais.
A sonoridade ainda é similar ao álbum antigo e cada álbum do QOTSA é radicalmente diferente do outro. Compreender o som desta banda é entender que ela não tem uma linearidade em discografia e a cada álbum e projeto parecem desafiar ainda mais os fãs com sonoridades diferentes. Por isso, mesmo que temporalmente não sejam tão distantes, cada álbum tem sua identidade musical. Alguns fãs querem constantemente que surja um novo “Songs For The Deaf” (2002) outros que hajam riffs pesados estilo Kyuss novamente. Considero um erro.
Se há uma banda capaz de se reinventar sem soar forçado é a Queens of the Stone Age.
Nota: 3/5
Leo Tolosa. Formado em Filosofia, constantemente em busca de bandas novas pra conhecer e entusiasta de guitarras com microfonia e reverb.
Revisão: Isaac Magalhães
