Folhinhas Laranjas no Quintal

Eu realmente queria entender o porquê das pessoas aparecerem em nossas vidas. E o porquê delas chegarem de mansinho e conseguirem adquirir um grande espaço dentro de nós para depois irem embora, com uma parte da gente nelas.
Procurei afundar as mágoas e obter as respostas em livros de autoajuda, em músicas. Ouvi o repertório completo da Maria Gadú, Los Hermanos e Nando Reis. Tudo resume-se a uma simples palavra chamada: amor.
Só que hoje, meu amor pegou a primeira condução e foi-se embora para longe.
Quando uma paixão vai embora, ela ainda leva um pedaço de nós. Ficamos com um vazio no peito que música nenhuma vai curar, ou quiçá livros de autoajuda. A dor precisa ser sentida.
Sabe quando a gente se machuca no parquinho brincando quando é criança e fica aquele machucado ardendo? É exatamente assim. A alegria, por descuido, caiu, e nos machucamos. Nada consegue aliviar aquela dor. A não ser o “deixa a mamãe dar um beijinho que sara”. Só que agora não há como dar um beijinho no coração e sarar. A dor veio de um beijo.
E tenha certeza que não vai ser de uma hora para outra que o tal beijo vai sair da sua mente como se nunca tivesse acontecido. A cada música romântica, a cada beijo de novela e só de ver um casal de velhinhos andando pela rua de mãos dadas já será motivo para o clichê pensamento do: “Por que não nós?”
Eu não sei responder essa pergunta, caro leitor. E se escrevo-te isto é porque não sei nada sobre como curar uma dor de amor. Achei que sabia até a vida conseguir esfregar na minha cara que sou só mais uma. Colocou uma placa em meu caminho que dizia: “Você não sabe o que eu sou.” E eu, convencida, disse: “Sei.” E bom, agora estou aqui, ao som de Tiê, com os olhos inchados e escrevendo um texto para alguém que também está sofrendo por um outro alguém que a vida fez questão de levar embora.
Caro leitor, sinto-lhe dizer, mas virão novos amores, novos beijos e com toda a certeza do mundo, novas dores, choros, repertórios musicais e livros de autoajuda. Leremos esse texto juntos e pensaremos: “De novo?” Ah, se eu soubesse a fórmula da cura para um amor que foi-se embora… já teria criado um remédio e distribuído livremente. Acredito que formaria uma fila bem grande. Mas, eu não sei. E tenho a certeza que você também não sabe.
A única coisa que lhe digo, meu caro, é que assim como nenhuma tempestade dura pra sempre, nenhuma dor dura. Mas no período que ela estiver dentro de você: SINTA-A. Dói. Arde. Esmaga. Mas, cura-se sozinha. É como uma tempestade de verão. Chega, escurece tudo, e cai com raios, relâmpagos e trovejos. Só que em pouco tempo já esvai-se. E quando olhamos novamente para o céu, está tudo tão limpo, igual antes, e até mais bonito, pois agora há um arco-íris estampado no céu azulado.
Não querendo estragar a poesia, mas sinto a obrigação de lembrar-te: quando olhamos para baixo depois da tempestade, há árvores no chão, casas sem luz, e várias folhas que foram jogadas em nosso quintal pelo vento impetuoso. A tempestade não perdoa.
E agora, o que nos resta é arrumar tudo que nos foi deixado. É hora de retirar os galhos do caminho; hora de plantar outras árvores. É hora de acendermos as luzes das nossas vidas; recuperarmos a beleza de antes, com tudo mais claro. Hora de acender a chama para uma nova paixão. E as folhas? Recolha-as uma por uma, como cada fiapo de dor que sentira; no final, verás que tudo era passageiro e que seu quintal, chamado caminho da vida, estará muito mais limpo. Até que depois de tudo, suas perspectivas mudarão e diremos a nós mesmos: “ E até que tinha ficado uma gracinha com aquelas folhinhas laranjas, rs.”
Agora é hora de permitir-se. Estender um tapete de “boas-vindas” no seu novo caminho da vida e deixar que venham novos amores e junto deles, novas dores. Quem sabe da próxima vez as folhinhas do quintal não sejam vermelhas? E será que são elas que curam a dor? Acho que o remédio é deixar que folhinhas laranjas, amarelas, vermelhas, azuis e rosas adentrem em nosso quintal. Ah, quer saber? Que venha um arco-íris.