Porque a instabilidade chinesa é excelente para o bitcoin

Na última semana, um dos temas que dominou o noticiário foram as quedas abruptas na bolsa de valores chinesa e o consequente contágio nos mercados ao redor do mundo. Muitos veículos de mídia foram taxativos: a China está em crise.

A partir de 2008, o gigante asiático despejou centenas de bilhões de dólares nas economias em desenvolvimento ao comprar matéria-prima para dar cabo a sua forte expansão industrial. Durante esse período, países emergentes viram suas combalidas economias receberem uma explosão de demanda por commodities como decorrência da expansão chinesa. Mas até na China o céu possui limite, que parece ter sido atingido.

O governo chinês sabe disso e há pelo menos dois anos vem promovendo uma mudança gradual de uma economia baseada no investimento em infraestrutura para um modelo centrado no consumo interno.

Diante do aumento do rendimento médio dos trabalhadores chineses, a proposta dos líderes em Pequim, explícita no último plano quinquenal, é a de aquecer a economia interna ao invés de focar em produção industrial para exportação.

Essa alteração de paradigma afeta diretamente as economias emergentes, que vêm sofrendo quadros preocupantes de desaceleração, e em casos como o Brasil, já em quadro de recessão, sem perspectivas de reversão no curto prazo.

A China é um mercado extremamente complexo e cheio de peculiaridades. A economia é dirigida centralmente, com políticas monetárias que têm tentado ditar regras ao mercado. Levando isso em consideração, é precipitado afirmar que a China está em crise.

Especialistas, como o professor do Insper Roberto Dumas, afirmam que “o que está acontecendo na China nada mais é do que o resultado de uma bem planejada política econômica de governo, produzindo os efeitos esperados”. Em entrevista ao portal Sputniks, Dumas afirmou:

“O Governo do Presidente Xi Jinping e do Primeiro-Ministro Li Kekiang decidiu que a China, neste momento, deve priorizar o consumo interno para escoar a sua enorme produção. Por isso, o Governo optou pela desvalorização do yuan e pela diminuição das atividades em suas Bolsas — e até mesmo pela redução do crescimento do PIB. Aquela fase do PIB crescendo a dois dígitos acabou”.

E engana-se quem pensa que existe uma crise de consumo na China. O que eles têm buscado, na verdade, é aumentar o consumo para que ele se aproxime dos níveis de produção, que são muito superiores aos de consumo. Para que isso aconteça, é importante que o PIB cresça menos afim de que em algum momento as curvas de consumo e produção se encontrem.

Acostumada a incrementar o PIB anualmente a uma taxa de dois dígitos, o novo cenário aponta para uma expansão entre 5% e 6%. E é por isso que os exportadores de commodities estão sofrendo e que muita gente pensa que existe uma crise na China.

Recentemente o governo impulsionou o mercado de capitais, incentivando o aumento da especulação financeiro entre os chineses, fazendo com que o índice da bolsa inflasse artificialmente em mais de 200%. Agora, o mercado reage negativamente às medidas do governo, como reduzir a taxa básica de juros de 6% para 4,35% e a última desvalorização de 0,5% do yuan.

E onde o bitcoin entra nessa história? Bem, com a desvalorização planejada da moeda chinesa, o yuan, muitos chineses têm preferido retirar dinheiro do país. A saída de capitais do país vem crescendo de forma acelerada. No segundo trimestre de 2015, US$ 766 bilhões foram enviados ao exterior. No primeiro trimestre, foram US$ 945 bilhões. Só nas últimas sete semanas, mais de US$ 190 bilhões saíram do país. Com as duas super quedas de 7% na bolsa chinesa, na última segunda e quarta-feira, 4 e 6 de janeiro, outros muitos bilhões também rumaram ao exterior.

Sendo o maior mercado mundial de bitcoins, investidores chineses aumentaram o interesse sobre a moeda digital, como forma de proteção contra a desvalorização do yuan e instrumento eficiente de escapar das normas de controle de capitais para escoar reservas financeiras para outros lugares do mundo.

Isso tem refletido claramente nos volumes e recente valorização do bitcoin, que desde novembro do ano passado vem performando sucessivas altas, com o mercado chinês respondendo por mais de 80% das transações.

Analisando a conjuntura do gigante asiático, esse movimento é provavelmente apenas o início de ondas mais fortes que estão por vir. Sem dúvida, a China deverá ser o grande impulsionador do preço do bitcoin em 2016.

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