Fracassados

Rapaz do interior na cidade grande. Acha tudo aquilo pequeno demais e vem pra Capital apostando em seu talento. Você conhece o clichê. Este sou eu, com a exceção de que não um talento. Não mais. Todas essas garrafas em frente a mim, a fumaça do cigarro pelo ambiente, os fracassados ao meu redor. Eu poderia ser mais um deles, fracassar como eles, mas meu fracasso é verdadeiro. Eles estão nas bordas do mundo a que pertencem, mas ainda dentro dele. Eu saí do meu apostando em algo diferente. Não estou lá e nem aqui. Não, não sou como eles. Nem mesmo um fracassado sou. Nem mesmo o álcool pode me salvar. Não bebo. Os cigarros não são meus. Estou limpo e bem arrumado. Tenho um emprego. O clichê não se aplica. Houve um tempo em que poderia extrair algum prazer em ser diferente, coisa antiga. Recurso ainda usado pelo meu inconsciente vez ou outra. Hoje me pergunto o que poderia me dar prazer. Uma xícara de café, uma boa passagem e um dia agradável, talvez. Verdadeiramente só o turbilhão interno e a produtividade de dias antigos poderiam me reacender a esperança.

Não, não sou como estes fracassados de sexta à noite em um bar pobre bebendo, fumando e tendo diversão com mulheres também fracassadas ou apenas confusas. Há pra eles uma tal paixão em estar aqui, um alivio, um sentido real, uma razão, tiram daqui algo para atravessar os dias e o fim de semana. Não há nada aqui pra mim.

Aí vem ele. Rei entre os fracassados. É difícil chamar-lhe meu semelhante. Quase um insulto saber-me da mesma espécie. Careca, com cabelos bagunçados e alguns fios grisalhos na lateral, barrigudo, baixo e com uma camisa de time cavada e suada. Quer acolher-me e usar sua influência sobre mim. Mostrar quem manda, certificar que seu posto de macho alfa dos fracassados não está ameaçado. Pra diminuir minha aparência se aproxima com uma morena de roupas curtas e pernas grossas, uma mão a enlaça pela cintura e a outra carrega uma cerveja. Estando eu em seu ambiente, projeta-me no seu nível, tudo o encoraja, se aproxima demais. Fede a cerveja e cigarro, assim como a mulher. Que põe a mão em meu ombro. “O bonitinho está triste, fica assim não boneca. Ele volta” _ e ri. A mulher o segue. Dirige sua atenção para Solano, o senhor também fracassado que está na mesa comigo. Não é meu amigo. Nem o garçom é. Sou um estranho, não só aqui. Em toda parte na verdade. “Vejo que fez um amiguinho novo. Cuidado que ele é malandro” diz olhando pra mim desta vez. A morena aperta meu ombro com as unhas longas pintadas de um vermelho barato. Solano pergunta se ele terminou a construção certamente tentando mudar de assunto, ele diz: que construção que nada, não quero saber disso. Felizmente alguém o chama e ele volta à sua mesa. Ainda tento recapitular e entender como cheguei aqui. Ah... sim. Meu amigo, também do interior. Fracassado, como eu, mas à moda dos outros. Se eu tivesse que descrever sua vida começaria pelo violão e de como o instrumento o destruíra. Não o violão, mas a música. Se destacar entre medíocres, mudar-se para a capital e descobrir-se inapto para o que ali se joga. Culpar os outros, culpar a sociedade, culpar o trabalho, as parceiras e por fim, aproximar-se da verdade e culpar a si mesmo. O culpado é senão o sonhador. Dar-se conta do seu tamanho e de sua pequenez dentro do mundo. Enlouquecer seria fácil, mas a consciência não se entrega tão facilmente. Se destruir também requer tempo, tem todo um ritual e pode-se escapar para qualquer dos estágios anteriores e recomeçar qualquer momento. Culpará muitos empregos, amigos e mulheres até beber tudo que pode e finalmente apontar o dedo para si mesmo. Recomeçar culpando a nova mulher em sua vida, o novo trabalho, ou mesmo os próprios vícios. É difícil escapar do ciclo. Sonhos são nada mais que a origem de nossas desgraças.

Aqui está outro clichê. Sai do interior, vem pra cidade, fracassa, sofre e no sofrimento encontra algo e finalmente vence, alcança sucesso e mais importante que isso, alcança reconhecimento. Volta pra casa e vira cidadão emérito e é enterrado com honras. Meu sofrimento é de outra natureza, nem mesmo isso quero. Não acredito no mundo, ainda que possa por vezes me achar melhor de um modo ou outro, hoje nada me pressiona a isso. Deixarei que tal verdade cresça em mim e ganhe força.

Sim, as pessoas podem ser felizes. Eu sei. Eu sou. Sim, eu sou. Sou, mas não estou. Não agora. Hoje dei me conta de uma verdade. Ainda agora meus lábios tremem. O fato é estou desgraçadamente no meio. Condenado a não tocar os extremos. O Justo meio ganhou-me Aristóteles, esteja Feliz. Eu não estou. Desde o primeiro desgraçado que me apontou o dedo dizendo que eu tinha talento, que eu faria algo grande, essa inquietação me persegue, um dever dos outros, imposto a mim. Mas quem sou eu para me fazer de vítima? Não sou nenhuma vítima. Consigo discernir muito bem as coisas. A verdade é que o arrebatamento não me toca. Nunca me tocou. Nunca decidiu por mim, em meio ao calor da batalha eu sempre tive que pensar e decidir. É verdade que uma época e ainda hoje eu exigia isso das pessoas, mas isso cansa. Não o suficiente para me exaurir, no entanto, pois mesmo em energia sou acima da média. Quase lá. O corcunda do livro de .... Tinha um bom apelido para si, zombava de sua própria deformação dizendo que seu nome significava: Quase pronto. Pois bem meu nome deveria significar quase lá. A promessa nunca cumprida, nunca recusada. Suficiente para alimentar a esperança, mas não para cumpri-la.

Eu li e convivi com fracassados, até temos semelhança, mas leves. Minha crise é mais profunda, não me falta sexo nem reconhecimento. As mulheres me procuram, minha aparência chama certa atenção. Acima da média, mais uma vez. Infelizmente ela não foi grande o suficiente para inflar meu ego, nem pequena o bastante para destruir minha autoestima. Tenho a experiência do sexo e do amor. Estive casado por um longo tempo. E não tenho problemas com dinheiro. Não estou em necessidade. Estou acima da média mais uma vez. Quando me separei vaguei por muitas casas, até finalmente construir a minha. Motivado por Dom Casmurro me lembrou construir a casa em que morava quando casado, cômodo por cômodo, exatamente igual. É claro que não tem a agitação daquela outra, esta em todo está cheia de livros e modos meus. Mas não imagine cômodos vazios e sombras, não sou saudosista e nem estou aqui para lamentar o passado. Um amigo arquiteto chamou a planta de grosseira, poder ser que seja, mas gosto dela assim. Seria isso de certo modo uma confissão secreta de um amor ainda latente? Não, saiba estimado leitor que não é o caso. Algo daquele amor ainda queima aqui de vez em quando, assumo isso, mas não é o suficiente para querer reconstruí-lo. Em tudo ainda a acho uma chata e posso dizer que eu a deixei, não o contrário. Não crítico suas suspeitas estimado leitor, alguém que enxergue mais do que eu de repente possa compreender a lógica que me escapa. Mas não a amo.

Ah o drama... Que ser sem essência e sem peso. Temes com razão este mundo, que com um simples sopro poderia atirá-la ao nada. Presa num paradoxo incurável, procura em vão algo neste pequeno espaço em que habita. Somente o rompimento da abóboda que a prende poderia lhe fornecer alguma pista. Mas te falta decisão. Tal ser incompleto jamais poderá ser feliz. Deleita-se na dor, chega mesmo a mostrar as mãos sujas de sangue com certo orgulho tolo. Veja como não me importo, diz seu sorriso torto. O suicida que dramatiza a própria morte ainda está preso aos valores mesquinhos deste mundo. Em verdade nenhum fato possui valor. Nem minha própria morte é digna de nota. Constatar isso nada implica. Ser atravessado por esta verdade é o começo da sabedoria, que você desdenha. Talvez não seja mesmo pra ti este caminho. Apodrece em meio as oferendas na encruzilhada, sem a coragem necessária para escolher. Apega-se à infância. Eras feliz por não saber que eras feliz. Fizestes da consciência um tormento. Que quadros escuros e dolorosos pintas. Há alguma beleza neles. Mas eles sangram. Dor, raiva, covardia e prepotência sublimados. Adora a pureza, mas nunca pensas em cultivá-la. O seu lamento é sem propósito e embora visceral e verdadeiro, aos espíritos esclarecidos pena é tudo que suscita com ele.

É claro que não disse nada disso a ela. Certamente estava presente, mas só agora posso por em palavras.

Rodeado de fracassados e de um senhor que quer beber as minhas custas, revejo o passado e faço sermões mentais. E agora, na crise que me atinge, sinto certo arrebatamento quando uma suspeita atinge minha mente. Talvez eu tenha lido demais, talvez a filosofia tenha me estragado. Deve ser isso! Meus conceitos se perderam em meio a tantas distinções. Uma ideia de correr e jogar fora todos os meus livros de filosofia me acomete. Penso em correr e destruí-los. Vingar-me deles, finjo enganar a razão que me diz não haver como apagar o efeito deles em mim que faz até mesmo com que tenha essas ideias tolas. Vou até a estante, contemplo os como se fosse a última vez, como se finalmente fosse fazer algo pelo arrebatamento, por impulso, relembro o conteúdo nas medida em que leio os títulos. Pego um volume e me engano o restante do dia lendo.

Quando irá a insensatez ou a genialidade me tocar? Estou cansado de ser a promessa. Meu passado se desvirtuou em algum momento. Eu não o vi acontecendo. É preciso recapitular. O jovem brilhante de outrora se foi. Esperam que eu seja o gênio que pareci ser um dia, mas não tenho obras primas para mostrar. Por outro lado minha vaidade sempre gostou disso. Não os culpo por demandarem algo relevante de mim, apenas me sinto indigno.
O senhor na mesa não parou de falar enquanto estava mergulhado em mim. Agora grita um nome, que não é o meu. Um tal de Lucas. Quem é Lucas? Deixo-o com a desculpa de que vou pegar uma cerveja. Dirijo me ao balcão. Meu amigo está atrasado. Mais de uma hora. Filho da mãe. Pego o telefone e ligo. Não virá. Houve um imprevisto. Uma ex ligou. Vai viajar pra vê-la com o dinheiro da rescisão. Ela tem contato com o chefe, vai lhe arrumar um trabalho no mesmo local. Ótimo salário e benefícios. Já está tudo combinado. Virá só para buscar as coisas. Breve comprará um carro. Já se iludiu e recriou sua vida uns 2 anos à frente . Estará de volta em breve. Não deve durar mais que uma semana. O garçom quer saber se serve mais uma cerveja pro meu amigo. Digo que sim. Pago e saio. Vou pra casa e sento-me diante do computador. Não quero mijar, já comi, meu café está ao lado, não preciso acordar cedo, há silêncio, meu gato dorme do meu lado... nada. O logos me abandonou. Vou pra cama, finjo dormir até que durmo. Mas o calafrio das 3h continuava. As 3h nem sempre em ponto, o barulho e o flash de uma luz piscando, embora estivesse apagada. Era sempre quando me preparava para dormir, estava prestes a me entregar e algo me chama de volta. O medo me faz proteger as costas. Suficiente para assustar-me, mas não para gritar. Um flash como que me chamando para alguma coisa. Não sei o que e nem se essa interpretação está correta.

Acordo. É cedo. Alguém bate na porta. Tenta derrubá-la descreve melhor. O senhor que me chama de Lucas. Quem é Lucas? Entra querendo comer. Não é meu amigo. Vai na geladeira e pega o necessário pra fazer um sanduíche. Diz que ando estranho e pergunta se tenho usado drogas, digo que não. Diz que pode conseguir caso eu queira, pelo valor certo, é claro. É uma das poucas manhãs em que não trabalho. Dou-lhe dinheiro e peço que vá ao mercado pra mim. Sai comendo. Volto ao computador, sento e escrevo:

Precoce demais pra ser feliz. Independente demais pra amar. Inteligente demais pra sonhar. Eis como vim ao mundo. Destituído da capacidade de me iludir e da falsa modéstia, não vi no álcool um salvador, é da natureza dos salvadores serem falsos. Um homem verdadeiramente sábio jamais se diria salvador. Fugir de si mesmo, que bem há nisso? Não carrego o otimismo de dizer que a verdade se encontra no interior, mas há algum valor em olhar para dentro. Mede-se a virtude pelo grau de abstenção de poder de que somos capazes. Há algo bonito em dizer não pra si mesmo.

Releio e me parece bom. Parecido demais comigo no entanto. O velho retorna. Como entrou na minha vida? Agora sim. Me lembro. O sol ardia, o mormaço dava a entender que dessa vez viera para consumir tudo. Os viventes buscavam a sombra, por mínima que fosse. As sorveterias estavam lotadas e abundavam vendedores ambulantes com sucos e sorvetes. Curiosamente foi neste dia que o vi. Sentado na praça, um sujeito de uns 50 anos, entradas proeminentes e fios grisalhos, os olhos vivos mirando as pessoas, por um instante pensei até que fosse um batedor de carteiras tal a firmeza com que mirava os transeuntes. Usava uma camisa clara de mangas curtas, jeans e botinas, guardava os pertences no bolso da frente da camisa de modo este projetava-se para frente revelando notas e documentos. Neste dia me olhava. Fixamente. Como eu atravessava a rua indo de encontro a calçada onde o banco ficava, não pude evitar olha-lo. Como eu busquei passar sem me deter, chamou-me e perguntou as horas. 09h40. O Banco já abriu essa hora? As 10h senhor. Pra onde vai? Só andando por aí. Vou contigo. Assim pôs-se a me acompanhar. Não tardou sugeriu-me que fossemos a um bar. Pensei que seria fácil me livrar dele lá de modo que entrei. Chamou o garçom pelo e pediu uma cerveja para seu amigo... Lucas eu disse. Ah claro, Lucas repetiu rindo, no que o garçom o acompanhou. Tão logo depositou a cerveja a mesa, serviu-me um copo. Ao contrário do que eu esperava não se serviu, quando o indaguei, disse não poder beber. Orientações médicas. Cruzas sempre a praça as terças e quintas perto das 14h. Pega o ônibus para Vila Marta. Que fazes lá? Ante minha expressão de surpresa. Pavor descrevia melhor disse: sou só um velho com tempo. Não me parecia tão velho assim. Na época eu dava aulas particulares e ensinava em um curso que ficava na Cidade vizinha de modo que terças e quintas viajava para lá. Ah um professor, muito bom, muito bom disse. Por isso sempre a mochila. Parece pesada. O bar vazio não me agradava em nada. Num segundo relance me pareceu mais pobre do que antes e perigoso. Por que me chamou? De vez em quando gosto de conversar com alguém. Sentar e conversar mesmo entende. Não falar sobre o tempo e política. Apenas conversar e me antenar de coisas diferentes. Me pareceu que você teria o contato com os novos tempos. Então conversamos, conversei. Falei-me da minha vida. Do que fazia. Há muito venho cultivando a sabedoria e as pequenas manifestações que dela encontro. Por mínimas que sejam.

Assim mantive contato com ele, mas há uma semana que não me deixa em paz. Digo que vou trabalhar. “Pensei que não trabalhava nas segundas de manhã” diz ele. Aluno novo. “Bom, mais dinheiro. Posso ficar aqui pra ver o jogo?” Claro que não, vamos.

Saio e me deparo com as pessoas novamente. Eu costumava olhar pra dentro e ignorar os transeuntes. O que foi feito da minha paz? Os odores e vozes me invadem. Há pessoas demais. Existe algo errado nas esquinas. O cheiro de cigarro sem dúvida me incomoda, mas há algo mais perturbador. Muito mais. Há nos corpos e olhos alheios um ar de fornicação que ofende meu olfato. Caminhando cruzamos por almas penadas, agarradas às fagulhas de felicidade e prazer. O horizonte é desolador, visto seja de qual ângulo for. Sentimentos e morais baixas é tudo que se percebe. Nenhuma alma inspira respeito. No mais, apesar do burburinho, compadecemos. Deve ser mesmo um tormento estar preso a esta vida. Encontro refúgio na ideia de que não estou preso. Na verdade estou, mas não estou. Ao menos não desde que despertei. Despertei? Sim, despertei. Olhando os olhos daquela criança, despertei. Não me senti triunfante, pelo contrário me sentia idiota. Ficamos algum momento nos encarando até que finalmente pude reagir. Quando o mestre antes me disse que podia despertar a qualquer momento, pensei ser algo daquelas coisas que os sábios ora dizem por benevolência. Mas aí estava meu momento. Não havia dúvidas, era cristalino. A partir de agora, embora humano era algo diferente. Padeceria das mesmas dores e destino, ainda assim eu era algo mais. Não teria palavras para descrever exatamente em que eu era diferente, mas havia atravessado umbrais de passagem suficientes para abrir-me para o mistério do mundo. Podia agora entender muitos dos mecanismos que regem a realidade. Os olhos que deitaria sobre as pessoas agora seriam radicalmente diferentes dos de outrora. Minha última vaidade acabara de ser destruída. Eis o homem, disse para mim mesmo em pensamento. A criança ainda me encarava. Queria saber as horas. Eu também, de modo que a respondi. Despertei as 3:15 da tarde de uma segunda feira fria de maio. A vontade de viver, quase em forma pura, nunca antes a vi tão forte assim. Muito menos esperava encontrá-la em uma criança.