Ensaio sobre sexualidade: De dois, um

Eliane K.
Eliane K.
Jul 24, 2017 · 3 min read

Definir o que é sexualidade mostrou-se uma das tarefas mais difíceis. Obviamente há o sexo biológico, mas seria ele um dos principais meios de caracterizar o que é ser homem e mulher, ou a construção cultural historicamente que é atribuída sobre estes dois seres é mais marcante para afirmar a sexualidade como construção do sujeito a ponto de considerarmos o envolto da sexualidade como uma das principais características do ser? Sempre houve diferenças significantes de tal modo a considerarmos gênero somente como dois pólos opostos?

A partir dos mitos gregos clássicos atenta-se que esse ponto sempre foi passível de explicação, tornando a sexualidade não um tema exclusivo contemporâneo, mas que silenciou-se em algumas eras da nossa história.

Ao retomar alguns desses mitos gregos é notável que não preocupavam-se em caracterizar diferenças significativas entre homens e mulheres, mas pode-se dizer que teriam diferenças sutis entre características de gênero feminino e masculino, como um conjunto entre vestimentas, genitálias, atitudes.

O que se predomina não é o sexo, mas sim o papel desempenhado pelos mesmos, que hoje debata-se sobre uma idealização construída do que uma pessoa de tal sexo pode exercer, e inclusive, é trazido em grande parte das falas de transexuais: o órgão sexual não é o mais relevante, mas sim o que ser de tal sexo representa.

Ao voltar-se para o mito do andrógino de Platão vê-se que já ali há uma justificativa muito utilizada atualmente em defesa da sexualidade binária, percebida no momento em que Zeus separou o andrógino de tal forma a ainda poderem procriar enquanto procuram pelo outro que foi perdido. Ainda atenta-se para que em ambos os mitos gregos, tanto de em “O banquete” de Platão, quanto de “Hermafrodito” por Ovídio, o andrógino e hermafrodita passam a ser algo não desejado quando perturbam uma certa ordem, uma partícula de caos. Pela função dos mitos serem criados por homens que tentavam explicar certo fenômeno, desde a Antiguidade a ambiguidade do gênero sexual como nestes dois mitos, realmente era vista como uma bagunça do usual?

Com o início das ciências médicas, reforça-se a ambiguidade dos papéis de gênero a partir da fisiologia, conjuntamente com o aspecto psicológico, em que, inclusive mais tarde, com a psicanálise, atribui-se certas características como exclusivas de tais gêneros, como Freud, que “tratava de mulheres histéricas”, reforçando ainda mais a idealização de papéis. Entretanto, sabe-se, com auxilio de estudos antropológicos, que algumas tribos invertem algumas funções do que identificamos na nossa cultura como sendo de homens e mulheres, permitindo o questionamento sobre a construção de papéis de gênero em uma cultura.

Mesmo que a ambiguidade do gênero sexual, que por sermos originalmente andróginos, portanto, carregamos características femininas e masculinas, foi explicado em aspectos espirituais, ainda podemos encontrar uma nova interpretação um tanto poética como a de Rubem Alves, o qual diz que a boca e as palavras que saem dela são partes masculinas que penetram em ouvidos femininos, assim todos somos homens e mulheres de alguma forma. Tido o hermafrodita, andrógino e seus derivados, as diferenças que consideramos entre os gêneros é o que mais os caracterizamos, contudo, atualmente, isto é feito não em um único ser como o era nos tempos gregos, mas sim em dois, sem espaço para as demais sexualidades, e as consequências resultantes disso são extremamente evidentes.

Em otimismo, por mais que consigamos abrir espaço para tantas sexualidades apresentadas atualmente, para a igualdade entre todos os gêneros, pelo menos no que diz respeito a direitos legais e, ainda se combata a discriminação dos mesmos, não seja possível falar em sexualidade sem contextualizar as diferenças que consideramos entre o masculino e o feminino - marcadas no decorrer de nossa história para melhor compreensão do presente, e como atribuímos tamanha relevância a isso que orientamos nosso desejo, nossa ética para com o outro, nosso comportamento e de modo geral, o que somos em uma vida toda a partir de tal.

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Eliane K.

alguma indefinição na tentativa de se materializar

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