A tragédia do Museu Nacional e como devemos olhar para o nosso passado

Em maio deste ano, realizei o meu sonho de fazer um mochilão pela Europa. Um dos meus maiores objetivos era ver a história de perto. Eu selecionei a dedo os lugares que queria visitar e assim foi, por 17 dias. Mas um lugar em especial me chamou a atenção: Berlim.
Berlim é encantadora, em tudo. É uma cidade grande, cheia de prédios envidraçados, mas que a cada 50m tem alguma coisa pra te contar.
Durante um walktour que fiz por lá, passei por diversos lugares, desde os mais conhecidos, até os menos badalados e o que mais me chamou a atenção foi a forma como eles olham e lidam com seu passado, para, assim, seguir com o futuro.
A primeira e a segunda foto são do memorial Topografia do Terror, local onde ficava a sede da Polícia Secreta dos nazistas. Ali foram planejados e gerenciados os crimes cometidos pelos nazistas. Mais adiante, tem um museu, onde são expostos os crimes e atrocidades cometidos pela Gestapo e pelas polícias nazistas.
Acima da Topografia do Terror, o Muro de Berlim, na terceira foto.



Abaixo é o antigo prédio do Ministério da Força Aérea nazista, que hoje é o Ministério das Finanças da Alemanha e nele tem um painel de azulejos de uma propaganda socialista absurdamente grande. Pois durante a Guerra Fria ele deixou a decoração nazi de lado para se tornar a “Casa dos Ministérios”, como se fosse uma central de Ministérios comunistas.


Nas duas ocasiões, os meus companheiros de tour perguntaram porque eles mantiveram aquilo ali. Afinal de contas, foram duas épocas sombrias para o povo alemão. A guia, uma imigrante israelense (que simboliza ainda mais tudo isso ai), simplesmente disse que os alemães faziam questão de deixar aquilo ali à mostra, pois assim as gerações veriam o que foi feito e como aquilo não poderia se repetir jamais.

E aí eu cheio no objetivo desse meu textão: Ontem milhares de peças do nosso acervo histórico foi reduzido às cinzas, virou pó, e tudo por uma péssima e deplorável administração de diversos governos, que a cada dia se importa menos com a nossa cultura.
E sabe o que mais? Já tem gente, político, empresa por aí loucos querendo revitalizar, trazer de volta, reconstruir e já vi até pingar uma ideia de refazer os artefatos numa impressora 3D. Isso mesmo. RECONSTRUIR UM MUSEU que perdeu um crânio de 13 mil anos em impressora. Claro, para selar de vez o caixão da cultura de um povo que vive uma eterna crise de identidade.

Esse museu deve e merece permanecer do jeito que está, com no máximo, um reforço estrutural vistoriado e todas as suas peças sobreviventes, mesmo as queimadas, dentro dele.
Desta forma, as próximas gerações poderão ver de perto como parte da história destruiu a própria história. O Museu Nacional, a partir de ontem, virou mais uma página nos livros de história. Fruto de um descaso da sociedade brasileira à memória de seu povo.
Quem sabe assim, os próximos olhem com mais carinho e saibam que, muitas vezes, olhar o passado, é uma boa forma de seguir frente com o futuro.
