As premissas falsas da Apropriação Cultural

Ah, a era das problematizações. Nos traz tantos avanços, acende tantas discussões relevantes, chama a atenção para tantos problemas reais. Mas tudo tem que ter um lado negativo, não é mesmo? O equilíbrio do universo precisa ser mantido, não pode ser tudo legal, tudo bacana. A problematização que nos fez abrir os olhos para a homofobia, para direitos básicos negados a não héteros, também deu brecha para tolices como a teoria queer. E agora, a problematização que nos faz pensar sobre os males do racismo e da segregação racial, também nos traz a infrutífera discussão sobre apropriação cultural.

-Ora, mas por que essa discussão é infrutífera, meu caro?

Bom, qualquer um sabe que para uma boa construção ser feita, é necessário um alicerce firme, com bases consistentes. E é tudo que essa discussão não tem. A problematização sobre apropriação cultural, como é feita hoje, parte de várias premissas falsas, desde meros enganos ou erros de interpretação, até a mais pura manipulação de fatos. E não há discussão que consiga ser relevante com tantos furos assim.

  • A premissa da pureza

Para reclamar posse de uma prática cultural é preciso partir da premissa de pureza, partir da premissa de que um, e apenas um, povo é responsável pela criação de um ou objeto/prática. Como fazer isso em um mundo onde não há mais quase nenhum povo livre de interação com outro? Se duas culturas entraram em contato e trocaram informações, tudo que surge após esse fato não pode ser creditado a só uma delas.

  • A premissa do pioneirismo

Vivemos em um mundo onde vários povos tiveram a mesma ideia sem que precisassem ter interagido entre si. Isso é um fato. A música, o dinheiro e até mesmo o turbante, um dos motores da polêmica, surgiram em vários lugares do mundo, criado por povos que nunca se viram. Há registros de uso de turbantes em ancestrais africanos, europeus, asiáticos e até americanos. Já encontraram dreadlocks em múmias no Peru e também em povos antigos na Etiópia e de outras tribos africanas. Para afirmar que brancos de turbante ou dreadlocks “ofendem a cultura africana”, assume-se que estes são os pioneiros e proprietários da prática/objeto, mas isso não pode ser comprovado por ninguém.

  • A premissa da relação entre cultura e cor de pele

A discussão sobre apropriação cultural no momento é baseada na dicotomia brancos-negros, mas a composição étnica brasileira ainda inclui pardos, indígenas e amarelos. Segundo o IBGE, pardos são pessoas que se declaram mulatas, caboclas, cafuzas, mamelucas ou mestiças de negro com pessoa de outra raça, e essas representam mais de 40% da população nacional. E aí, um pardo pode usar turbante? A miscigenação fez com que a maioria da população tenha influência genética dos três grandes grupos que habitaram por aqui, ameríndios, negros e europeus. Em termos estatísticos você pode ter herança genética dos três, e por mais que um influencie mais em suas características físicas do que outro, não é suficiente para definir em que grupo cultural você deve se encaixar. É só olhar a quantidade de pardos e brancos que existem nas religiões de matriz africana.

  • A premissa da origem e do significado de uma prática

A expressão homofobia é um neologismo formado por dois radicais gregos, são eles homo, que significa igual e phobia, que significa medo. A palavra tem um significado etimológico completamente oposto ao seu significado usual, como você deve perceber. O que isso tem a ver com a assunto? É um exemplo de uma constante, que se aplica não só a linguagem, mas a praticamente todo o conjunto de ações humanas: o significado de algo não se dá em sua origem e sim em seu uso. Você não estende a mão para cumprimentar alguém para demonstrar que está desarmado e que vem em paz, como supostamente faziam os primeiros homo sapiens, você faz como uma saudação simples. Ninguém para pra refletir sobre a origem de qualquer prática que realizamos em nosso dia-a-dia, por que o significado original só é válido como curiosidade, não tem relevância real.

  • A premissa da “mercadorização”

Quer dizer que apropriação cultural é quando grupos dominantes se apropriam de símbolos de grupos oprimidos, retiram seu significado e os transformam em mercadorias? Ah, por favor. Estamos no mundo capitalista, tudo é mercadoria. Ninguém compra algo para apagar o significado de cultura x ou y, compra por que está a venda e alguém o convenceu de aquilo é bonito e/ou útil. A indústria como máquina, já tirou qualquer essência transcendental sobre esses símbolos e práticas. Tudo é mercadoria. Ou você realmente acredita que o aumento da representatividade no mundo pop, como no cinema, na música ou em qualquer lugar que seja é por que a indústria teve uma epifania moral? Não, meu caro. É por que isso vende. Tem gente querendo comprar diversidade, vamos vendê-la, então. E essa é a motivação principal das reclamações sobre apropriação cultural, criar uma reserva de mercado, separar os consumidores em nichos para melhor fisgá-los.

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Enfim, a apropriação cultural existe sim, há muito tempo. Usamos durante todo o tempo itens que não são originários de nossa cultura. Reproduzimos práticas que não são “nossas”. Nosso alfabeto tem origens gregas, nossos numerais tem origens arábicas. E está, ou deveria estar tudo bem com isso, afinal, é muito estranho ver aqueles que prezam pelas liberdades individuais, aqueles que se dizem progressistas e defendem o “meu corpo, minhas regras”, querendo decidir o que as outras pessoas devem ou não vestir. Reprovando atos que nem deveriam ser de seu interesse. Querendo censurar comportamentos que não causam nenhum mal real a ninguém.

Mas é como disse Bill Maher, enquanto a direita conservadora se preocupa em vencer eleições e dominar os cargos de relevância, a esquerda progressista se preocupa em não deixar as pessoas ficarem magoadinhas. Não é difícil prever quem tem mais chances de fazer valer seus ideais.