Salet em Retratos

Alegria, talento, humanidade e bom humor são adjetivos que representam a artista plástica.

Salet Linheira Carlos, com 80 anos de doçura, alegria e arte, é uma dessas pessoas que tornam o caminho de todos que a rodeiam mais especial e encantador. Além de ser vaidosa e adorar se cuidar, preza por tratar bem as pessoas e fazer com que sintam-se “em casa” ao estar próxima dela.

A arte sempre foi algo vivo em sua vida, desde cedo gostava de desenhar e foi quando o irmão comprou as tintas coloridas — assim que chegaram na cidade de Tubarão — que começou a utilizá-las, já que ele gostava mais de desenhar em preto e branco. Natural de Araranguá, Salet nasceu dentro de um vagão. Anos após, retornou a sua casa para pintá-la, mas deparou-se com uma surpresa: no local onde era a sua casa, agora havia uma igreja — Salet confessa que gostou da iniciativa, por ter a fé como um dos principais pilares de sua existência.

Uma das pessoas mais especiais de sua vida foi seu pai, sendo uma figura marcante e influenciadora quanto a sua assinatura nas obras: Liñera. Por ser espanhol, repassou para Salet ensinamentos culturais do local. Aliás, um dos grandes desejos da artista é conhecer a Espanha e pretende fazê-lo no ano que vem junto de sua neta.

Assinatura de Salet no livro Artes Plásticas Brasil de 1997

Salet têm dois filhos, Ronaldo e Eduardo. Ambos têm dons artísticos assim como o seu neto mais novo, chamado Henri. Por mais que tenha apenas seis anos, em trabalhos escolares com o auxílio da professora já faz “verdadeiras obras de arte”. Salet orgulha-se ao contar sobre o talento que seus familiares possuem quanto à arte. Não teria como ser diferente, afinal, a artista plástica é extremamente talentosa.

Uma das peculiaridades da pintora é de utilizar uma espátula para pintar as telas, ao menos que sejam retratos, pois necessitam de um acabando com pincéis de Salet. Dentro de seu ateliê há inúmeros resquícios da artista, como livros de Da Vinci, Michelangelo, tintas, pincéis, telas, retratos e tantos outros artigos que fazem parte de sua vivência. Falando nisso, Salet possui algumas de suas obras expostas em livros, enchendo-a de orgulho.

Entre as inúmeras exposições que já fez, lembra em especial sobre a Assembleia Legislativa de Santa Catarina, do Centro Municipal de Cultura de Tubarão, entre tantas outras que já fez pelas cidades do estado. Até hoje, há obras de Salet no Museu Willy Zumblick. Suas obras estão espalhadas em todos os cômodos de sua casa, em especial na grande sala. Cada qual com sua história, seus personagens, peculiaridades e encantos.

Dona Salet junto com uma de suas obras

Seu falecido esposo partiu antes de completar 60 anos — Salet tinha o dito que faria um retrato sobre ele assim que completasse os 60 anos de idade. Com sua partida, decidiu criar uma obra que retratasse quem foi esse grande homem em sua caminhada. Na tela, há um banco com um violão, flores e uma carta. “Cada pessoa ao observar essa pintura tira as suas próprias conclusões”, ressalta a artista.

Os dois juntos eram inseparáveis. Por anos, fizeram serenatas e alegraram quem os rodeava. Além de tocar violão, ele era um grande companheiro para Salet, a acompanhando em todas as cidades por onde levava a sua exposição de quadros. O esposo é uma das lembranças mais doces e nostálgicas de Salet.

As obras de Salet

Só se pode andar pela casa de Salet olhando para cima, devagarzinho para não tropeçar e ainda mais importante: apreciar com o cuidado merecido as pinturas da simpática senhora. As paredes altas de sua residência são todas destinadas aos trabalhos criados ao longo dos 80 anos. E ao virar a direita, o visitante ficará encantando quando encontrar os retratos das crianças.

Algumas das crianças retratadas pela artista

Professora por muitos anos, ela sempre conviveu rodeada de crianças e talvez, por isso, tenha a doçura de uma. Depois que aprendeu a pincelar e espatular qualquer coisa que seu coração desejasse, Salet começou a pintar algumas crianças carentes das escolas de Tubarão. Por ser conhecida entre o corpo docente da região, muitas vezes, quando outras professoras viam um aluno que estava passando por algum problema chamavam a pintora.

Para fazer o retrato, Salet ia conversando com quem estava pintando, perguntava sobre o que lhe fazia sorrir e chorar, seus sonhos e doces favoritos. Sua intenção era fazer aquele aluno se sentir valorizado, que importava e tinha um lugar especial no mundo. Hoje em dia muito desses retratos estão espalhados por aí e apenas alguns permanecem em sua residência, mas ainda assim Salet fala deles com muito orgulho e relembra cada rosto que viu crescer.

Os anjos

Um dos inúmeros quadros de anjos pintados por Salet

Além das crianças, um tema recorrente nas suas obras são os anjos espalhadas pela sua casa. Em todas elas há um anjo negro na sua composição. “Não se esqueça dos anjos negros, pois Deus los quiere juntos”, fala Salet para explicar os quadros misturando o português com o Espanhol herdado do pai. Contudo, a frase vem de uma música cantada por seu marido, que sempre disse a ela para não deixar de fora os anjos negros, já que eles eram esquecidos em muitas obras. Salet só começou a pincelar anjos depois que seu marido faleceu e sempre lembra com carinho e admiração das suas sábias palavras.

Neste quadro, os anjos jogam na terra esperança e boas novas aos seus residentes, não importa de onde venham ou quem são, seja no campo ou na cidade. Sempre muito religiosa e humana, a intenção de Salet é retratar que todos merecem alegrias e são iguais independente de suas origens.

As três esperas

Salet explica a história do quadro

Quando comparado com os demais, ‘As três esperas’ é um quadro pequeno e singelo. Quem olha ao longe não imaginaria o que o homem sentado no barco e mulher grávida olhando o horizonte significam. “Está vendo? São as três esperas”, fala Salet. O homem no barco está esperando o tempo melhorar para poder ir pescar, a mulher está esperando seu marido voltar do mar e o filho nascer. Assim como este quadro, todos as suas pinturas guardam uma história escondida em meio às cores.

Reminiscências da infância

Reminiscências da infância (1993)

Na obra em que seus filhos — Ronaldo e Eduardo — estão jogando bolinhas de gude quando criança, há uma casinha ao fundo. Nos olhos de qualquer outra pessoa o significado daquela simples construção é perdido, entretanto, para Salet há algo muito especial ali. A casa é, na verdade, a primeira escola em que a pintora trabalhou como professora. O que torna tudo ainda mais extraordinário é que ela não tinha intenção nenhuma de retratá-la, em um primeiro momento queria apenas criar um lugar onde a imagem de seus filhos não estivesse sozinha. “Olha, como é a mente da gente!”, comenta Salet animada. A artista continua achando curioso até hoje como sem saber pintou aquela escola por qual tem tanto carinho.

A única cópia

Cópia de uma obra de Willy Zumblick (1972)

‘O Velho Feio’, como Salet o chama brincando, é uma das únicas obras expostas pela casa dela que, na verdade, é uma cópia de uma tela de Willy Alfredo Zumblick, pintor brasileiro nascido em Tubarão e conhecido na região pelas obras históricas e sociais. Salet presa muito pela ética e faz questão de avisar que a obra é um réplica, escrevendo junto a sua assinatura que se trata de uma “cópia”. O apelido do quadro surgiu porque de acordo com algumas visitas feitas à casa, seria o mais bonito e o mais almejado. Muitas pessoas se ofereciam para comprar a obra e quando isso acontecia o Eduardo, seu filho, não pensava duas vezes em dizer: “Esse velho é muito feio!”. A mãe não compreendia tal reação indiscreta do filho adolescente. Depois de adulto ele confessou para a mãe que, na verdade, queria o quadro de herança e recordação. Era um dos preferidos dele. A estratégia era fazer com que ninguém o comprasse.

Contudo, Salet confidencia que quando Eduardo foi morar com sua namorada na época em que saiu de casa não pode levar o quadro, pois ela afirmava que os olhos do senhor a seguiam sempre que passava na frente. A obra é exposta em destaque no seu ateliê, inclusive, a pintora pretende restaurá-la em breve.

A mensagem da artista plástica

Um dos cantinhos preferidos do ateliê da pintora

Salet lembra, reflexiva, que é necessário aproveitar os dons recebidos de Deus, garantindo confiante que o seu dom é pintar as telas e é o que a faz feliz. Com muita humildade, elegância e bom humor conta que foi justamente por isso que começou a aparecer na televisão, nas páginas de revistas, nos livros e nos museus. E sempre gostou de ir nas exposições e viajar por aí apresentando suas pinturas.

A jovem senhora é um exemplo de vida a ser seguido por tantas inspirações e aspirações, não somente para toda a família artista na qual tanto se orgulha, como também para quem sonha em encontrar a felicidade nas pequenas coisas e nos próprios dons.

Reportagem e fotos: Christina Búrigo, Juliana Bittencourt e Luisy de Albuquerque.

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