Conto #4 — O Copo, o Café, a Xícara Azul, o Final

Matheus Salustiano
Aug 28, 2017 · 6 min read
Photo by Adam Bendjaima on Unsplash

Parte 1 — O Copo

Feito de um material estranho, desses que não duram nem um aperto daqueles que a vida dá. Cor branca e textura que traz à mente uma sensação de que tudo é momentâneo, artificial.

Não estou em posição de julgá-lo, pois sinto o prazer e um forte orgasmo dos sentidos em segurá-lo. Essa história não é sobre mim, mas sou cúmplice de tudo isso. Uso o copo para trair de forma desumana meu relacionamento com a xícara azul que me excita a ponto de imaginar loucuras. Mas tudo que é proibido é mais gostoso e com o copo era muito melhor, mais instintivo. O copo de isopor é provocativo, sedutor, experiente. Conhece meus pontos fracos e torna cada um forte em mim. Eu gosto quando o copo me domina por completo. Sim, eu lhe obedeço, meu senhor dos sentidos. Se só meu tato não é suficiente para satisfazê-lo, dou-lhe mais, ofereço meu coração a um pedaço de isopor.

Eu sinto e quero que o copo seja melhor do que todas as pessoas existentes.
Não vamos tocar no assunto da xícara…Não agora. A ela, reservo outra parte desta história. Agora eu só quero falar sobre o copo e como ele é maravilhoso. Como ele é tudo para mim e sem ele não sou nada.

No fundo eu sei que sou importante para o copo. Do contrário, não teríamos gerado um filho. Não tem os meus traços, nem o olhos azuis do copo. Não é branco como o meu amante, nem amarelo como a mim. Não possui rigidez. É líquido e tem pudor, mas um pudor que é extinto na adolescência. É como os filhos dos deuses mitológicos. Não conhecia seu poder, ainda. Quando passou a conhecê-lo, tornou-se o que é hoje…

Parte 2 — O Café

Trata-se de um filho legítimo. Busquem os especialistas que desejarem: médicos, enfermeiros, astrólogos, gurus. Dirão a mesma coisa.
O café causa prazer momentâneo também. Não causa a fadiga do sexo, muito pelo contrário. Revigora a alma selvagem. Energiza o íntimo. Revela a face obscura do homem.

Engana-se quem busca a castidade no café. Um líquido preto ingerido sem que exista a possibilidade de aferir sua quantidade. Não há imposição de restrições. Continue elocubrando-o sem preocupações e nulificações.
Consuma o veneno em forma de energia. Veneno esse que ajudei a moldar em sua criação divina.

Ria enquanto engasga com os próprios vícios. Sinta o efeito colateral desse dispêndio. Pernas bambeando, overdose, enjoo, pecado. O café traz tudo isso e todos adoram ser suicidas conscientes. Durmo com a consciência tranquila. O que criei não me incomoda. Fruto de uma traição, uma catarse.
Não há como esquecer daquela que foi traída. Por este motivo, dedico a penúltima parte a esta já conhecida.

Parte 3 — A Xícara Azul

Confesso que estamos meio brigados. Não a expulso da minha mesa de madeira pois a amo. E sei que ela também sente o mesmo. Não tenho culpa nisso e nem ela. Talvez seja o simples fato do destino estar agindo entre nós.

Evito olhá-la ao máximo para não cair em tentação ou na normalidade em que eu estava. Sua cor azul insiste em atrair meus lábios para mais perto. Somente um gole, é o que diz. Recuso fervorosamente, sei que é um caminho sem volta. Então qual o motivo de continuar com a Xícara, pergunta o Copo e o Café. Respondo que não sei. Tudo com o Copo é tão mais fácil e prazeroso e ilegal e sensual e de uma forma que a velha Xícara não consegue revelar em mim.

Mantenho a Xícara pelos bons costumes de rapaz da cidade que trabalha em agência bancária. Mantenho-a porque foi presente do meu chefe, que todo o dia quando chega com o cheiro de prostituição e álcool pergunta se ela ainda adoça a minha vida e acelera o meu trabalho. Respondo com a mesma cara de quinze anos atrás, enquanto imagino o quão profundo eu gostaria de enterrá-lo para nunca mais me perturbar. Maldito pedófilo, sussurro. E volto a datilografar contratos de banco.

A Xícara é sensual, não nego. A asa da Xícara fica eriçada ao passar meu dedo por ela. Causa excitação em meu tato, uma forte excitação. Revigora-me também. Faz com que meu dia laborioso não acabe com o resquício de alma que possuo.

Mas o problema da Xícara é que remete ao passado. Nada com ela é momentâneo. Deixa um gosto nostálgico nos lábios e no céu da boca. Causa prazer eterno, mas a eternidade não é muito para seres momentâneos?

Insiste em permanecer dona do meu tato. Insiste em insistir ser dona de tudo que há em mim. Você não pode ser tudo, Xícara Azul, não pode. Nunca poderá. Lança-se em mim. Rápido, desvio a boca para não ser infectado com o seu gosto excitante. Não cairei novamente em seus truques, não vou relembrar o passado que você quer que eu viva.

Fujo da Xícara Azul. Corre em minha direção. Dobrando a esquina, encontro o Copo, o Café e o esperado final, estampado no enorme título.

Parte 4 — O Final

Estávamos nós quatro em um beco da cidade. A Xícara Azul chegou logo em seguida, após finalmente me alcançar. Colocaram-me no centro de uma roda, implorando para que eu escolhesse qual merecia estar presente em minha vida. Era enlouquecedor. Vozes e mais vozes penetrando meu ouvido. O Copo provocava meu tato e sim, eu queria tocá-lo. Em seguida, o Café que ajudei a criar queima por completo meu braço direito. Serei só seu, é o que pedia para que eu repetisse, mas a dor era tanta que eu só queria sair daquele beco imundo e implorar para que me prendessem por ter criado tanta coisa de ruim no mundo como aqueles três.

A roda continuava e eu já não sentia mais meu braço direito. A Xícara Azul me provoca com sua asa. Sim, eu quero tocá-la. Um grito maior surge quando o Café queima meu braço esquerdo. A culpa era minha, nunca dei atenção quando era criança. Só queria o afeto de um pai ausente, que só usava seu filho para se manter acordado e envenenar pessoas com o seu excesso.

Eu já não sabia o que estava fazendo. Giravam ao meu redor, gritando insultos e elogios ao mesmo tempo. Eu senti prazer em tudo aquilo, mas um prazer que era extinto pela dor em meus braços, que estavam em carne viva. Aproveitei uma brecha. Corri como nunca na vida. O Copo, o Café e a Xícara Azul estavam furiosos comigo e no fundo eu sabia que estavam com toda a razão, mas que culpa tenho? As queimaduras faziam com que eu ficasse mais lento. Atravessei a rua sem olhar para os lados e em seguida um motorista começa a me xingar de algum nome que eu não sabia o que era, mas aparentava sensualidade em seu dizer.

O Café era rápido, assim como eu fui um dia. Passa-me uma rasteira e quebro o nariz no meio-fio. Queima minhas duas pernas para que eu não fuja mais. Todos na rua escutam meus gemidos de dor. Alguém me ajuda, por favor. Tire-me daqui.

O Copo chuta minha cara, a Xícara Azul quebra meu braço, o Café termina de queimar o que ainda resta em meu corpo. Fica difícil sobreviver. A morte observa a tudo isso rindo fervorosamente. Eu preciso fugir. Sem saber como, consigo escapar do rebuliço. Não consigo ver nada, os olhos e cílios foram carbonizados. Escuto barulho de viatura, deve ser ajuda. Grito implorando socorro, mas a única coisa que sai é um som monossilábico incompreensível. Corro mais um pouco e desmaio.

Ao acordar, repouso em uma maca hospitalar. Não estou mais jogado na rua, nem estou carbonizado e triturado. Do meu lado esquerdo, um enfermeiro aplica algum líquido na minha veia. Do lado direito, meu chefe explica ao segundo enfermeiro o que acontecera. Maldito pedófilo, não teve pena quando abusou de mim. Meu chefe explica que seu excelente colaborador surtou ao perceber que sua Xícara Azul quebrou ao cair no chão, derrubando todo o Café que estava nela. O colaborador foi até a máquina de café, pegou um Copo branco de isopor e apertou o botão da máquina.O Café era moído e transformado em líquido. Quando a primeira gota caiu no copo, o mais-que-perfeito colaborador teve um surto psicótico e destruiu por completo a máquina e em seguida bateu fortemente a cabeça na porta do banheiro, vindo a desmaiar.

Maldito. Pensei em xingá-lo, espancá-lo, humilhá-lo na frente de todos ali. Pensei em revelar ao mundo o seu segredinho. Pensei no quão prazeroso seria tudo aquilo. Mais prazeroso que o Copo, o Café e a Xícara Azul juntos. Mas nada fiz. Quando o enfermeiro terminou de injetar o líquido na minha veia, tudo que pude fazer foi contemplar a vasta e calma escuridão, enquanto era levado para o manicômio da cidade.

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Matheus Salustiano

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Autor de “De Angola ele é” |Jornalista não objetivo|Umbandista |Escreve para A Oficina| https://www.facebook.com/matheussalus/

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