Crônica #2 — Café com gosto de Segunda

Primeiramente, gostaria de pedir perdão a todos os escritores e escritoras deste Brasil de todos nós. Escritores que madrugam enquanto escrevem suas belíssimas obras. Escritores que bebem o elixir mágico de cor preta, popularmente nomeado Café.


Cometi um erro imperdoável. Traí cada viciado em cafeína. Não culpo ninguém a não ser esse que escreve com total falta de empatia.

Quê podia fazer? A escolha certa, talvez…

- Latte ou filtrado?

Filtrado, horas. É o mais barato!

Arrependo-me de ter dito isso. Mas o filtrado é forte e meio aguado, disse o rapaz de braços cobertos com tatuagens aleatórias. Eu respondo que não há problema, que devemos enfrentar nossos medos e dificuldades, que tá bom do jeito que vier. A vida parece um pouco com esse café, pensei, não pode ser tão difícil de engolir…engano meu.


Levo o copo de 300 ml até uma mesa qualquer. Encaro aquele copo branco com o desenho horrível do que parece ser uma mulher ou algo do tipo. Encaro a caligrafia do funcionário que escreveu meu nome corretamente no copo —é Matheus-com-agá-depois-do-tê-e-antes-do-e.

Naquele copo de 300 ml mal sabia eu o ser trevoso que o habitava. Uma última e demorada encarada antes do primeiro gole e quase último gole.

O primeiro acompanhou um sabor estranho. Penso ser por conta da junção da bolacha que comi enquanto esperava o café. No segundo, tive a certeza que não era por conta da bolacha.

Nem no terceiro a coisa melhorou. E aquela coisa chamada consciência falou comigo. Na verdade, deu um sermão.

Teima e lasca-se, perde-se dinheiro. Está aguado, não? Como ousa engolir algo com gosto de Segunda-feira em plena Sexta?

Estava certa, infelizmente. Tentei xingar, mas não podia fazer isso em público. Tentei escrever algo no guardanapo, mas eu não tinha caneta no bolso da jaqueta Jeans —que Jornalista eu sou que saio sem munição para a guerra?

Tudo o que eu podia fazer era observar com muito ódio algo que sempre escrevi bem e possuo total crença em seus milagres.

Olhei que a hora. Ainda estava adiantado, mas fingi estar com muita pressa. Pressa o suficiente para não dar tempo de beber o restante do café horrível.

Ainda continuo com o gosto da Segunda-feira na boca. Nem mesmo brigadeiro tira o paladar melancólico.

Aprendi que devemos filtrar certas coisas em nossas vidas, até mesmo para não cairmos na loucura. Mas eu imploro: nunca filtre café. Não queira viver duas segundas em uma semana. Pode deixar sequelas gravíssimas, como deixar de louvar um deus em forma de grão.


Necessito de Sexta na minha boca. Talvez uma cerveja resolva o “C” da questão.