O que eu aprendi sendo escritor?

Hoje, 25, aparenta ser um dia muito especial àqueles que sofrem uma terrível insônia e uma inspiração que surge nos lugares menos esperados — seja no ônibus da volta para casa, seja no chuveiro, essa “dita” sempre aparece de surpresa.

Mais um dia do escritor que acabo esquecendo por pura e simplesmente rotina de uma cidade grande-mas-que-tá-ficando-pequena que é São Paulo. Era mais ou menos dezoito horas desta tarde, quando recebo uma mensagem simples, daquelas que combinam com a rapidez que as coisas são ultimamente. Olho uma, duas vezes e solto a mais famosa onomatopeia de minha geração: PUTS.

Eu poderia chegar aqui e usar e abusar de eufemismos, mas, infelizmente (ou feliz) foi exatamente assim que aconteceu. Datas são muito importantes. Fazem-nos lembrar e parar para refletir sobre o que de fato está sendo comemorado. O problema foi eu nunca ter tirado uma longa tarde para formular e responder a pergunta que poderia ser retórica.

O que eu aprendi sendo escritor?

A verdade é que continuo não sabendo e em hipótese alguma fico preocupado com isso. Durante esse tempo — o que é tempo, atualmente? — que tirei a senhora coragem do baú e comecei a escrever, conheci e passei a admirar muita gente que hoje nem está por aqui para tomar aquele café literário.

Foi com Caio Fernando Abreu que aprendi a paixão que é escrever um conto. Com suas histórias em tom melancólico, comecei a arriscar alguns textos. Alguns ficaram consideravelmente bons. Outros tratei de rasgar no momento final de sua leitura.

ARQUIVO 17/02/1987 CADERNO2 LITERATURA — Escritor Caio Fernando Abreu FOTO JUVENAL PEREIRA / ESTADÃO

Levei Caio F. na mochila, no bolso, durante os primeiros anos de escritor. Acredito que nem eu sabia ao certo o que estava fazendo, mas eu gostava do resultado. A excitação ao finalizar um texto era algo descomunal. Como tudo estava dando certo, ora, continuei então.

Viajei com Caio em seus escritos. Acompanhei cada história escrita em “O ovo apunhalado” , “Fragmentos”, surpreendi-me com a história de “Onde andará Dulce Veiga” e perdi-me intensamente em sua biografia “Para Sempre Teu: Caio F.”, por Paula Dip, uma grande escritora a quem tive o prestígio de conhecer pessoalmente ano passado no monólogo Amarelo Distante, de Kiko Rieser.

Nossa viagem estava ótima, como sempre esteve, mas Caio F. ganha uma concorrência pela tão disputada cabeceira do meu quarto. As “loucuras” escritas por Clarice Lispector conquistavam cada vez mais esse escritor que faz uma tremenda volta para explicar uma pergunta tão sucinta. Clarice ganhou-me ao escrever “A hora da estrela” e dar vida a Macabéa.

Após ganhar-me com seus “delírios”, conquistou-me com suas entrevistas que fez como jornalista. Clarice era capaz de criar todo um ambiente, personagens, ações, cheiros, sentimentos, enquanto entrevistava seus convidados. Tratava-os muito bem, aparentava até mesmo um ar dionisíaco, metaforicamente falando. Como encantava…

Clarice Lispector / Arquivo | Agência O Globo

De fato, o que eu mais aprendi sendo escritor foi ter o respeito e paixão por cada um que preencheu páginas em branco com histórias intermináveis, cada um que batalhou e batalha para ser reconhecido em um país que não valoriza a leitura. O que eu mais aprendi sendo escritor foi ter a perseverança de cada nome citado e tantos outros nomes que colocá-los neste texto o deixaria interminável. Aprendi que ainda tenho tanta coisa a aprender por esse universo literário que uma vida só não basta.

Parabéns a cada escritor existente nesse Brasil nosso, nesse mundo nosso. Que possamos dar origens a tantas novas histórias. Que sejamos eternos nessa imensidão de parágrafos e frases ambíguas.

Sobre o que vai escrever hoje?
  • M.S