Pesadelo

Precisei fumar mais um cigarro na sacada pra ver se me acalmava. Olhei no relógio, 21:53, senti o frio percorrer toda a minha espinha e se alojar na minha nuca, seguido de um calor inexplicável. A campainha tocou e o meu coração congelou.

Ele estava lindo. Com aquela cara de pessoa que acabou de chegar esbaforida da rua, empolgado, nervoso também, mas um nervoso solar, não o meu nervoso definhando.

No carro, eu me senti um boi indo para o abate. “Como foi hoje no escritório?” ele perguntou, alguém muito sensato que controla o meu cérebro em momentos de pânico respondeu perfeitamente, sorrimos, parecíamos tão normais. Mas minha verdadeira consciência estava encolhida dentro de mim, apavorada, como uma menininha que acabou de olhar nos olhos do bicho papão.

Estaciona, entra no restaurante, faz piadinha, mais sorrisos, jogo o cabelo — estou com medo, mas não estou morta -, pedimos a comida, pedimos o vinho e o pesadelo começa. Os olhos dele ganham um tom mais cinza, a voz mais seriedade, sinto suas mãos inquietas. É agora, o pior vai acontecer. Eu já previa, afinal, ninguém está imune. Somos tão humanos quanto todo mundo e foi ilusão achar que seria diferente. Lamento tanto sermos tão banais. Vai acontecer. Estou em pânico e me sinto morrer por dentro. Não faça isso comigo, não faça isso comigo…”Débora, eu te amo. Vamos assumir, vamos ficar juntos?”

Meu coração se parte em mil pedaços. Juntei toda a força que havia dentro de mim naquele momento e respondi com toda a sinceridade a única resposta possível à tamanho afronte: “Sim”.