A menina e os vestidos

Samantha Buglione
Dec 7, 2018 · 7 min read

Naquela tarde fui visitar Raul como fazia sempre todo o mês. Ele era um pai sozinho, a mãe de seus filhos havia se mudado de cidade a fim de cuidar da carreira. Raul era amável e dedicado, calmo, magro e com olheiras típicas de quem fica em função dos filhos e da casa. Vivia da pensão que a mãe dos filhos mandava. Como eu nunca sabia se eles ainda estavam juntos sempre me referia a ela como a mãe dos filhos de Raul ou pelo apelido de infância, Nina. Acho que ele gostava assim em não ter que dar maiores explicações. Talvez nem ele mais soubesse o que significa estar junto.

Naquela tarde ele vestia uma bermuda larga e uma camiseta daquelas de quem participou de algum evento. Perguntei se ele tinha ido na expedição a qual se referia a camiseta. A resposta foi sim. Quis saber mais, mas ele dava respostas genéricas. Parecia não querer visitar novamente aqueles tempos, nem aquele lugar, nem o que já sentiu ali. Era como se o lembrar de algumas coisas já vividas nos dava uma consciência incrível sobre o absurdo do que fazíamos no presente. Não tenho duvidas de que o Raul amava os filhos e cuidar deles, só tenho certeza que essa solidão silenciosa não era o que ele havida imaginado. Raul era atleta, sofreu um acidente e nunca mais pode velejar e escalar, problema sério na coluna. Foi condenado a habitar um único plano e a limitar seus movimentos. Enquanto ele falava amenidades sobre a expedição a filha menor o chamou como que o salvando do inquérito. A casa do Raul tinha um misto de organização e de uma bagunça maior que sua capacidade. Não era desleixo porque sempre tinha uma vassoura e uma pilha de roupas sendo dobradas sem nunca ter fim. A casa tinha uma musica própria de musicas que eu desconhecia autores com o som da maquina de lavar, fosse a de roupa ou a de louça. Eu, que não tinha filho algum, nem mesmo um gato para me dividir o tempo da existência, achava aquela dinâmica impossível de ser realizada. Vendo Raul via todas as mulheres sozinhas e via todos os homens solitários. Sentia vergonha das minhas queixas diante de Raul.

A menina de Raul era linda. Tinha três anos recém feitos. Era dona de um olhar que parecia ver coisas que nos escapavam e sua doçura misturava a teimosia lhe dava ares de uma sofisticada inteligência. Tinha a sensação de que ela zombava de nós. O mais velho era um artista, absurdamente sensível. Percebia tudo e todos mesmo que nem soubesse do talento, era como se sentisse o mundo em demasia. Sempre quando eu chegava ele me olhava com um olhar de censura, como se só ele soubesse o que de fato eu fazia ali. Creio que era algo desconhecido inclusive para mim.

Sobre a menina Raul dizia “É leonina, com lua em capricórnio e o ascendente em escorpião, pensa numa trabalheira, mas é a mais equilibrada da família, alguém haveria de ter um pouco de chão”. E ria como que sabendo que nada daquilo era razão, mas era bom manter a duvida porque nos dias em que a razão não dá conta um pouco de fé salva qualquer um. E isso diminuiria seu fardo imediato, em alguma medida. As explicações totalitárias dão um pouco de paz em situações de muita canseira. De qualquer forma eu realmente acho que esses mistérios dos astros são muito bons para essa nossa realidade cheia de segredos incontáveis. O fato é que eu não consigo ficar confortável nas certezas e nos segredos. Perguntei da mãe das crianças.

“Ela passou a semana aqui. Veio para um congresso e tirou uns dias de férias. As crianças ficaram bastante com ela. Estavam felizes.”

“Só as crianças? Ai! Como eu sou importuna, não?”

“Todos na verdade. Eu pude ficar sozinho um pouco. Mas é um misto de descanso e tensão porque ela não da conta. Na verdade não sei se alguém realmente dá. Se não tivesse a escola eu não conseguiria. Não acho a escola das melhores, mas pior seria fazer tudo todo o tempo. É uma exaustão. As vezes não sei o que fazer. Ao menos eu aguento mais que ela, acho que é o ritmo ou o costume. A Nina, não. Ela suporta uns dois dias bem e depois já arruma algo para fazer, senão começa ou a falar alto ou a adoecer. Na verdade a carreira foi o jeito dela lidar com o desconforto de ser mãe. Ela nunca falou disso comigo, mas eu sei. Não haveria nenhum problema. Eu gosto de ficar com as crianças, só não gosto dessa solidão em funções fixas. Se fosse um pouco de tudo para cada um seria melhor. Mas como ela ganha mais dinheiro que eu as coisas se orquestram dessa maneira. Me resta aceitar”.

“Esse dia a dia sem fim acaba com todo mundo, não?”

“É, mas para algumas pessoas mais que outras. Na verdade nunca é sempre igual, tem coisas que são iguais sempre, tipo roupa, comida, banho, ir e vir na escola, historia antes de dormir, levar ao medico, na musica, no inglês, nos amiguinhos, na festa da escola… O problema não é isso. O problema, para mim, é quanto tudo isso perde o sentido, sabe?”

Ele falava realmente exausto. Cansado mesmo. Incrível como o cuidar dos filhos envelhece. Ele não era mais tão jovem e nem tinha tantos cabelos brancos, mas apesar do cansaço ele estava mais bonito hoje do que a umas duas décadas. Mas não poderia me atrever a comentar.

A filha mais nova voltou a ronda-lo. Queria um vestido. Ele calmamente foi ate o quarto e pegou uma caixa com vários vestidos. Ela experimentava vários, mas nada servia, nada estava bom.

“Esta com saudades da mãe”. Me comentou baixinho. “Ai, nessas horas, fica procurando distrações. Quando sofremos por algo que queremos e não temos ou nem sabemos ficamos buscamos distrações. Ela nem sabe que é falta da mãe. Bom, talvez saiba, mas admitir seria mais sofrimento. Ela é muito pequena, não consegue elaborar, só sente esse desconforto. Ai ela busca distrações”.

Ver a menina tão perdida no seu desejo acabou comigo naquele momento. Era como se todas as minhas distrações fizessem fila para mim. A menina de Raul tem só três anos e isso é bem razoável nessa idade, neste tempo de aprender a existir-se no mundo. Mas eu? Adulta criada? Me vi ridícula visitando Raul como uma assistente social protocolar que leva um bolo e um café gourmet que ninguém consegue filtrar corretamente. Não era aquilo que eu queria e, ao contrario da menina, eu sabia. Eu queria o Raul.

A menina chorava alto e se atirava no chão porque nenhum dos vestidos era o que ela queria. Raul calmamente juntava os que ela jogava, voltava a dobrar e colocava na cesta. Alguns ele deixava no chão porque dizia para ela mesma trazer. “Daqui a pouco passa”. E se levantou em direção a cozinha.

“Vai fazer o café, Raul? Esse é um catuai amarelo, lá de minas gerais, torra artesanal”. Falei como que querendo vender a mim mesma.

“Não. O café fica para depois, vou abrir um vinho mesmo”.

A filha parou de chorar, estava com dois vestidos sobrepostos. Juntou os que o Raul havia pedido, guardou tudo a seu jeito na caixa de vestidos e foi em direção a porta. Colocou sozinha os sapatos, abriu a porta da casa que dava para a rua do condomínio. Parecia aquelas ruas de cidade antiga em que havia frequentação de pessoas nos espaços públicos. “Vou na amiguinha, mostrar meu vestido, papai” e saiu como que senhora do próprio destino. Senti inveja daquela integridade. Meu desconforto aumentava.

De repente éramos só nós dois entre uma pilha de roupa para dobrar e o som da maquina de lava louça, no meio da tarde de um dia de semana, com um vinho. Comecei a ficar tensa. Não era bem o tipo de encontro romântico que sempre sonhei como Raul. Na verdade não parecia um encontro, mas poderia ser. Eu gostaria que fosse, mas não sei. O fato é que nestes cinco anos em que visito o Raul ele nunca abriu um vinho no meio da tarde.

Ele pegou um pão de fermentação natural que havia feito. “Comecei por necessidade, mas agora virou hobby, usei um levain com mel e frutas secas neste”. Eu nem sabia o que era levain, não quis perguntar para não parecer desinteressante. Acho que eu queria sumir dali naquele momento.

Ele trouxe o pão com um azeite chileno de 2% de acidez. Virou a cesta vermelha onde antes estavam as roupas limpas e improvisou uma mesa no tapete no meio da sala. Eu estava tão nervosa que comecei a dobrar as roupas compulsivamente. Coisa que nunca faço na minha casa porque tiro da secadora e guardo direito no armário que fica próximo a lavanderia. E as roupas menores eu jogo aleatoriamente nas gavetas apenas para esconder de mim mesma e da consciência a bagunça que é a minha vida.

“Tem que dobrar em rolinhos, dá mais espaço nas gavetas. Com as calcinhas, cuecas e meias faz bolinhas assim, as crianças adoram”.

De repente eu me vi com aquelas calcinhas de algodão minúsculas de uma menina de três anos de idade, cuecas de um menino de sete e de um homem de 45 e meias cuja identificação dos pares era algo impossível de ser feito. Estávamos totalmente silenciosos naquela cena sem distrações. Raul me presenteou com uma dinâmica cotidiana que não tinha o menor sentido para mim. Viver uma casa em família teria aquilo. A mesa feita de um cesto, o vinho quando possível, o silencio contingente de uma fração de segundos porque as crianças já retornariam e ele precisava preparar o jantar. Raul havia conhecido o mundo velejando e eu nunca sairá da minha cidade, tampouco a conhecia bem. Tudo sempre me pareceu estranho fora da minha rotina. Aquele mundo de cuidados de casa e dos outros também. Eu nunca cuidei de nada que não fosse eu e uma orquídea de vaso que fica no centro na minha mesa. Tinha um universo de variáveis e imprevistos ali. Mas tinha, principalmente, uma dedicação constante, um dar-se. A calma do Raul era quase de uma pessoa que havia desistido de todos os seus planos para viver o seu plano. Isso parece estranho, mas tinha uma escolha sem queixas e sem pesares. Ele estava cansado, mas não queria fugir. Havia algo naquela dinâmica que eu não fazia a menor ideia do que poderia ser. Seria amor? Acabei de enrolar as meias em bolinhas como ele havia dito. Acabei meu vinho, me despedi de Raul com um forte abraço. No outro mês eu não apareci.

Samantha Buglione

Written by

Doctor in human sciences, philosopher who uses the scientific method of Goethe and poetry

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