A primeira vez é um para sempre

Samantha Buglione
May 31 · 5 min read
Rowtowin, Itajai 2019, Time Open: Isis, Fernanda, Bel, Giulia, Rafinha e eu.

A primeira vez é um para sempre. Isso não é nem bom, nem ruim, é apenas fato. E talvez por ser fato não tem muita escapatória para o sentir. Não tem meio termo ou moralidade. Eu realmente amo e odeio as primeiras vezes. Nada fica. Amo o pavor e odeio o pavor do nervoso de uma primeira vez. Puro calor polarizado: que ora quer perto e ora quer longe. Que ora vibra e ora pensa “onde fui me meter”. A mão treme o coração acelera. Parece que todo o corpo acorda. Tem algo de vida vivida tão intensa, tão presente, tão atenta, que não dá para negar que estamos a andar (nos meus últimos tempos: a remar) pelo mundo.

Maio, como sempre, dando seus presentes. Não podendo ser diferente nessa minha nova primeira vez. Para mim o outono de maio é primavera em potência.

Esta história não é sobre adrenalina é sobre estar vivo, sobre despertar, tal qual um moribundo que acorda de súbito e sente o mundo. E mesmo que o moribundo desista e volte a deitar sua morte não será mais a mesma: ele é outro.

O dia tinha tons de cinza. Dias cinzas não tem sombra, não tem marcação do tempo. São como uma constante de agoras. Tinha vento e pelo visto tinha ordens para que o mar fosse um bom treinador. Dia de treino forte tem mar exigente. Atenção e silêncio. A canoa é como uma velha matreira. Ela quer ser ouvida, mas não por vaidade. Ela não padece desses caprichos. Quer ser ouvida porque sabe que isso é condição para a travessia, para a ida e para a volta, condição para respirar. É no silêncio que o mar mostrar o caminho e ela sabe. Ela ensina. E ensina bem. Não sei se a palavra correta é silêncio, mas é algo que permite que se tenha espaço para abrigar o novo. Gente dura demais em certeza não aprende a navegar. Vento, mar e canoa exigem espaço. A primeira vez é um para sempre. E ela ensina.

Meu olhar se dividia entra o mar e meus dois filhos, entre um ver e um cuidar. Numa par de horas eu entraria no mar na minha primeira competição com canoa havaiana e me faltava a frase a ser dita, a postura correta, a técnica, o tempo. Como não sabia verso algum em qualquer das línguas da cultura polinesia fiz uso do que tinha de melhor em mim: um poema de goethe. Ao menos ele sabia ver as belezas do mundo. Eu não sabia absolutamente nada além do que já havia feito junto com quem sabia mais do que eu. Eu somava um par de meses nesse enamoramento ainda sem aniversário. Não tinha ritual para me ancorar, não tinha canto, não tinha linhagem, nada. Era uma solidão de auto-fundação. Só tinha ação e desejo.

A canoa me cantava a vontade cada vez que passava por ela presa num carro e num tempo de urgências sem sentido. Um dia vi que dormiam ao lado da minha casa: Palemo Kai e Makani Hema. A vontade virou quase uma ordem para ir ao encontro delas. Como se eu não tivesse mais desculpas, nem da preguiça. Típico daqueles namoros que começam manso, sem muito entender e com um certo estranhamento de quem tem que aprender as distancias entre os corpos, as visita começaram uma vez por semana, com certa resistência. Quando me dei por mim, em menos de seis meses, estava a molhar os pés e a lavar a alma quase todos os dias. Revisitei todos esses detalhes enquanto olhava as canoas voltando da primeira prova com a minha filha mais nova no colo e o mais velho em cima de uma árvore na orla.

Eu estava com medo. Mas não era medo. As palavras são fracas aqui. Era uma especie de reverência em oitava, era consciência de fragilidade, consciência de risco, de morte, de pequenez e tudo isso num paradoxo, insano, que me fazia sentir gigante e confiante. Confiante sem nenhum segurança na existência. Confiante e livre. Confiante e viva. Na minha pequenez diante de tudo aquilo me senti canoa e mar. E Palemo estaria comigo. Me sentia estranhamente em casa.

Os amigos, os cúmplices, os parceiros, voltaram da primeira prova com dores, pancadas, sangue e baixas. Aquilo tudo parecia uma deliberalidade, quase um capricho que só é possível para pessoas livres. O fio da navalha entre o moribundo que desiste e o que se levanta.

Sabia que todo o cuidado ainda seria uma resiliência, um exercício de aprender a ver e um desaparecer. So tínhamos uma chance: sermos Palemo Kai.

O que que eu não sabia ainda é que a primeira vez da canoa é um eterno para sempre. Sempre é uma primeira vez. Não importa quantas vezes já estivemos ali, naquela rota, naquele mar, naquele outono. Precisamos nos comportar como se tudo fosse novo simplesmente porque tudo é: nós, o mar, o vento e a canoa. Não importa o tempo, não importa o dia, não importa se é treino ou passeio, campeonato ou manutenção. Sempre, cada saída, é única e singular: é a primeira naquela forma. Andar de canoa é viver no instante. Na eterna reinvenção do momento presente. Nunca estamos prontos, por isso só nos resta ser a melhor versão possível do que somos.

Hoje, cada vez que eu entro na canoa eu canto baixinho um poema polinésio que aprendi depois deste batismo de maio. O poema fala sobre despertar porque o sol está a nascer no leste, esta a nascer das profundezas do mar. Eu faço isso quase como uma oração, um pedido por misericórdia e por cuidado, um perdão pela arrogância e um louvor pela coragem. Não se trata de insegurança, mas consciência. Não se trata de medo, mas respeito. Hoje, mais que ontem e antes de ontem e menos que amanhã, consigo ouvir melhor a canoa e isso é aterrorizante porque ela fala de nós, impiedosamente.

Rowtowin, Itajaí, 2019, Tim Misto: Pedro, Naiara, Andre, Jean, Katia e eu

Samantha Buglione

Written by

Doctor in human sciences, philosopher who uses the scientific method of Goethe and poetry

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