Homens não sabem dar tchau

Meu pai não sabia dar tchau, nem escrevê-lo. Foi uma curiosidade descobrir isso. Eu tinha uns sete e por alguma razão que me foge a lembrança precisava escrever a palavra tchau. Pedi ajuda para meu pai que, acreditava eu, fazia gosto por estas coisas já que havia me dado um dicionário de presente numa incrível estratégia para escapar de perguntas difíceis. O que lhe faltava em estudo lhe sobrava em criatividade.

Ligamos para a tia Odélia, irmã dele. O telefone ficava no armário da sala, que era cozinha também. Era um armário de madeira com duas portas de treliças e prateleiras no meio. E na base, que dividia a parte superior das gavetas e as quatro portas menores, tinha uma extensão de madeira, quase um degrau suspenso, que me cabia perfeitamente apoiada em meia bunda quando com os pés nas cadeiras pesadas que circulavam a mesa; que ora foi redonda ora quadrada conforme lhe frequentava a história e os cupins. Aquele era um dos meus lugares preferidos da casa, apesar do desconforto. Mas quando somos crianças o corpo ainda está a brincar conosco. É na velhice que ele vira professor.

Lembro-me de ter tido telefone nesta época, mas foi por um breve período. Telefones eram fixos e caros naquele tempo. Tia Odélia sempre teve. Ela era letrada e teve vários filhos igualmente doutores e diplomados, menos o mais novo. Esse se diplomou em ser o mau exemplo da família e livrar os demais dos seus próprios demônios. Toda a família tem um filho assim. Na minha, às vezes, sou eu.

Tia Odélia foi a terceira pessoa que ligamos. Descobri naquela empreitada que despedir-se não era algo simples já que nos faltava à habilidade de inclusive escrevê-la em palavra curta. Desvendar o tchau foi uma incrível tarefa. Semelhante a do dia em que tentei, por conta própria, fazer molho branco. Para a receita liguei para o tio Antônio, um exímio cozinheiro. Mas só a tia Odélia sabia sobre os mistérios dos tchaus. Todos os que ligamos antes dela, inclusive o tio Antônio, não sabia como escrevê-lo. E eram todos os irmãos homens do meu pai. Por certo não lhes faltava conhecimento das letras, mas talvez hábito nessa arte. Os homens morreram primeiro que as mulheres, todos eles. Sobrou meu pai, mais por graça da idade do que por hábito de cuidar-se, é o caçula e frequentou os mesmos pecados dos irmãos homens.

Mas a dificuldade diante de palavra com sonoridade tão diversa me encantava. Minha vontade era de ligar para toda a lista telefônica com suas páginas amarelas para saber quem dominava essa escrita. Meu pai não deixou. A palavra tchau me fez visitar língua estrangeira. Era como se estivesse a entrar, pela primeira vez, num mundo que desconhecia por completo. Aquela palavra que exigia um “c” antes do “h”, fazendo quase que um impulso me encantou profundamente. Apesar do impulso o “c” nos exigia uma parada. É como se precisássemos parar o movimento para despedir-se, um suspiro. Dar tchau era como poder suspirar entre vontades no mundo.

Nenhum dos meus tios sabia como fazê-lo, nem escrever. Talvez por isso tivessem problemas no coração. Tia Odélia não, a ela a vida deu a graça de morrer dormindo em adequada velhice por força de um AVC. Foi do coração que morreram os homens da família. Acredito que meu pai padecerá no mesmo destino. Ele não gosta das transições, até hoje contesta o “c”. Queria apenas a transparência do “h”, sem aquele impulso de parada que o “c” provoca. Acho que ele gostaria que as despedidas não exigissem esse intervalo, esse suspiro, que fossem apenas continuações. Mas ai se carrega coisa em demais. Apega-se a um lado da cerca e nunca se despede.

Parece, de fato, que a arte de despedir-se vive mais nas mulheres. É como se dominássemos as mortes melhor que os homens e talvez, por isso, temos corações mais livres e saudáveis, ou poderíamos ter. Mas somos atormentadas por ideias em demasia e isso nos pesa em dores e explosões na cabeça. Morremos de ideias e, algumas, de dores nas pernas porque insistimos em nos despedir sem partir. E foi naquele dia que dominei a escrita das despedidas, mas somente depois de visitar boa parte da família.