O balão

Samantha Buglione
Jul 30 · 4 min read
Bansky, imagem internet

O balão é um universal. Bansky, se não sabia ficou sabendo com o efeito da sua menina. Se sabia é um gênio. Para uns ela o solta, para outros ela o perde. E para todos, sem excessão, há uma afetação com aquele balão que se vai. Ninguém passa imune a um balão. É uma memória, uma saudade, uma vontade. O balão tem em sim todas as idades e algo em comum: ele importa. Importa memórias para o presente, alegrias para o presente, presentes para o presente. Todos entendem. Todos sabem. Todos um dia soltaram e todos um dia quiseram e todos um dia já perderam um. O Balão é a imagem mais perfeita da festa, quando murcho confessa o tempo, quando estoura os limites. Está lá, silencioso e mutante, marcando nossa infância e todos os tempos do mundo.

Eu tenho medo de balões, confesso. Não deles exatamente, mas do seu fim precoce. Do estouro que anuncia o fim e o excesso. Quando preparo as festas dos meus filhos, que por óbvio, tem balões, enfrento fantasmas ao enchê-los. Sempre acho que vão estourar em mim e não vou sobreviver ao susto, a perda, ao ter que recomeçar sem qualquer chance de aproveitar todo o esforço que se foi em um instante. Minha mãe brincava comigo com micro balões que fazia dos restos de balões. Aquilo sempre foi incrível. Somente com ela não me importava com os balões perdidos. Eu tinha que mordê-los até estourar. Era uma aventura mais intensa que bolas de chiclete. Um risco, um salto de paraquedas para quem não tem simpatia a estouros. Morder bolas de restos de balões só é possível sob o olhar atento de uma mãe capaz de consertar tudo. O programa de televisão que mais me deixava assustada quando pequena era o mesmo que pra mim mais carecia de sentido, nem por isso deixava de perder minhas tardes de brincar para assistir aquela tragédia autorizada para menores. Tratava-se de uma tosca corrida pelo estouro de balões. Até hoje me arrepia o fato insólito. Tão insólito e líquido quanto nosso tempo. Estourar um balão por vontade é um desperdício da existência.

Muitos anos mais tarde, na minha busca pelos balões, andei em um no céu da África do Sul. Na minha idealização imaginei que sobrevoaria baobas gigantes e animais livres a correr pelas savanas. Mas o vento, o tempo e as condições me levaram a um campo com grandes fazendas de produção de galinhas confinadas. Olhando para baixo via apenas um verde sem graça e estruturas de metal reluzentes produtoras de calor, ovos e tristeza. Tirando o silêncio e a experiência de estar dentro de um balão, olhar para baixo não competia em interesse com o céu ou horizonte. Às vezes parece bom reduzir as variáveis e, por consequência, as opções. Olhar de menos pode significar olhar mais e melhor. Me sentia como as formigas que eu tentava colocar no alto dos balões rosa e azuis e amarelos e verdes e que teimosas não aceitavam meu convite. Viajar de balão é viajar para dentro das cenas de infância.

Minha filha mais nova ama balões e os deseja.

Bansky, imagem internet

Os quer tão perto que os estoura em abraços apertados e no ato de fé de que eles suportarão seu peso e seus pulos. E quem a vê, após o susto da posse, se sensibilizada ao ponto de buscar balões para ela. Como se a perda dela fosse a de todos e o desejo dela conhecido por todos. Quem nunca amou demais um balão ao ponto de segurá-lo com toda a gana do mundo e perdê-lo? Os balões fazem pontes entre amantes. Todos são aquela menina, a dor dela é a dor de todos. E é possível ver pessoas que não se conhecem agirem juntas e buscarem juntas e darem a ela um, dois, três novos balões. Quem busca o balão não o quer mais, não precisa mais dele. Mas ainda assim se move na direção de levar um para a menina, por puro encantamento e entendimento, empatia talvez. A dor sentida e a falta são conhecidas. Talvez não seja mais o balão partido, mas o emprego, a carreira, o amigo que se foi. Ser adulto é perder balões a todo o tempo e salvá-los. E num gesto heróico, de quem já chorou seus muitos balões, a alegria e o desejo está em conseguir dá-los a menina desconhecida. “Uma vez meu balão estourou, chorei muito”, me confessou o senhor gordinho desconhecido que correu em direção a farmácia para pegar um novo balão para minha filha. “Consegui um rosa”, comemorava. Nada é desconhecido para os amantes que um dia desejaram e perderam balões.

Samantha Buglione

Written by

Doctor in human sciences, philosopher who uses the scientific method of Goethe and poetry

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