Os doces fracassos da vida

Precisamos fazer as pazes com nossos fracassos. Amá-los atentamente, olhar para eles e, quando a dor da ideia não realizada passar, rir de nós mesmos. Em parte, os fracassos nada mais são do que planos mentais que não se concretizaram. Mas são também a consciência da falta de sentido pelo que se faz hoje, ou o sonho de criança não realizado, ou a percepção de um esforço e de um empenho sem eco.

O fracasso é um susto dado pela vida para nos alterar o foco e nos levar a ver o que está passando despercebido: o corpo suado, o fazer, o brincar, o viver. O fracasso nos leva para o novo. As ideias realizadas reproduzem o velho, por mais prazeroso que seja essa realização, ela ainda é passado.

Eu sei que às vezes estamos exaustos. É quase uma constante de sustos dá vida que da vontade de gritar e pedir uma trégua para recuperar o fôlego. E a trégua nunca vem. A vida tem uma audição seletiva. E ainda bem por isso, porque se nos ouvisse talvez ficássemos mais tempo andando em círculos inventados de sonhos e desejos que nem sempre são os nossos. E entre suspiros de acolhimento em corpo alheio, nos mantemos desatentos de nós. O fracasso é esse chacoalhar da vida que exige, doa a quem doer (e dói muito) olhar para nós.

Nessa vida de sucessos massificados corremos e corremos, pouco falamos do que importa e jamais podemos ter medo, maquiagem borrada ou cara lavada. Não podemos estar cansados e a superação é a nossa meta: fracassar jamais. Aí adoecemos.

Sentimos vergonha quando não damos certo. Como se os fracassos fossem contagiosos e nós proliferássemos — por gosto perverso — o mal no mundo. E como se não fosse possível apenas mudar o rumo ou desistir. Eu sinto vergonha e medo dos meus fracassos, sempre que os não conheço. E os amo profundamente quando os entendo.

Um sábio disse que todas as famílias felizes são iguais e as infelizes, cada uma à sua maneira. Nossas tristezas, às vezes, parecem nos dar identidade, enquanto que algumas alegrias só fazem sentido como reflexo de uma massa de aplausos. Saber o que é genuíno e o que é falso talvez seja impossível, simplesmente porque não há nem o falso nem o genuíno. Mas, a experiência — essa ação fora do nosso perímetro conhecido — de alguma maneira nos desconcerta, nos descortina. Nos deixa nu. A dor nos torna atento, quando sem analgesia.

Eu fracassei. E fracassei tantas vezes que ou aprendia a amar meus fracassos ou seria impossível amar a mim mesma.

E comecei cedo. Eu tinha sete anos, recém alfabetizada. Férias de verão na casa da minha avó materna. Filha de índia guarani e italiano, cor de cuia, forte, dura e subversiva. Dona Juca teve dois maridos e muitos filhos e não sabia ler, mal assinava o nome. Sentei com ela em cadeira alta. Os meus pés não alcançavam o chão, mas tinha lápis e caderno firme na mão e uma angústia diante de mim. Como aquela mulher tão forte não sabia o que eu aprendi? Contei a história da abelhinha que foi visitar a escovinha e que juntas encontraram o índio e o urso. A estória mais sem sentido de toda a minha vida me deu sentido deveras. E reproduzi cada detalhe com a força da mágica que acreditava que ela realizava. Tentei moldar as vogais e fazer som e sentido com elas. Minha avó teve paciência com meu desejo. Ali ficou. Nunca aprendeu nada mais que assinar o nome. Minha missão fracassou. E ao final importaria se sucesso tivesse? Essa é a melhor memória que tenho de minha avó.

Na adolescência rodei na prova para o colégio que queria porque era público e era o melhor da cidade. O colégio era militar e acreditava que ele me daria o que me faltava em casa. Mas nunca passei.

Com 30 acabei meu doutorado e, crente que estava que a vida profissional se estabilizaria, recebi de presente uma demissão geral. O doutorado fazia o professor ficar caro e eu não fazia parte do grupo seleto que ficaria. Da queda inventei um café e bistrô orgânico, vegano e fair trade, muito em função do que estudei no doutorado, mas o troquei pelo cuidado do meu filho que nasceu anos depois. O café foi um dos meus melhores fracassos. A ideia de virar uma franquia milionária ficou para os devaneios com amigos mais próximos, mas isso jamais me ensinaria a ter reverência por quem trabalha oferecendo serviços e gerenciando pessoas. Desse vazio cheio de infinitos me convidaram para trabalhar na televisão e ali conheci melhor o mundo por trás e na frente das câmeras. Foi como que umas férias cheias de coisas novas.

Com 34 ainda insistia em entrar em alguma instituição, talvez quisesse acolhimento, uma casa talvez. E comecei como professora substituta numa universidade pública. La dei aula de mil coisas que não gostava muito, mas nada que uma interpretação mais ampla da ementa não proporcionasse um pouco de alegria; até que, finalmente, com 36 anos a filosofia, só ela e toda ela, veio para mim como disciplina. Em dois anos dando aula de filosofia falei de amor, liberdade e do mal, fiz os alunos plantarem ipês pela cidade, aboli as provas e tinha como método principal fazer exercício de observação e desenhar em carvão. Não durei muito mais tempo ali. Mas aquele fazer não saiu de mim. Ainda não satisfeita tentei mais uma vez concurso para universidade e quando usei literatura na prova de ciência política vi que não ia ter jeito: eu era um poço de desajeito.

Ai nasceu minha filha mais nova e ganhei de presente um tempo sabático do mais perfeito fracasso profissional.

Sempre fui um exagero de ideias sobre mim. E aí os fracassos seriam, por óbvio, a altura do requinte do pensar. Hoje experimento os presentes não pensados da vida e olho para a minha biografia, tentando prestar atenção no que sempre esteve lá: o ato amoroso da neta que queria dar algo de si para a avó. E aí não reside nem fracasso nem sucesso, porque nessas histórias com sentido somos apenas nós, cheios de nós, atentos a nós e com o outro.