Por uma biografia da vagina

Samantha Buglione

As biografias são uma forma de descobrir como nos expressamos no mundo. Olhar para a biografia de alguém ou olhar para a própria biografia é ver, através de nossas ações, das nossas escolhas, dores e alegrias, quem realmente fomos, somos, e como, nessa sucessão de fatos, reações e sentimentos nos construímos. Essa percepção sobre uma biografia está em poema numa frase de Goethe em que ele diz que tentar encontrar a essência de algo é um empreendimento inútil porque nos revelamos na ação. Isso também é bastante aristotélico no sentido de afirmar que é a ação que forja nosso caráter, não o contrário. Nessa perspectiva não somos uma ideia abstrata ou um desejo emudecido. Somos o que fazemos, enquanto gesto repetido, consciente ou não. Somos o desejo no mundo, não na cabeça.

A vagina como protagonista é a metáfora para nossa própria biografia, como se ela fosse a biografa a nos observar e a nos orientar no processo de perceber quem somos. Talvez não seja possível falar que exista “a” vagina numa abstração universal porque ela só pode existir na personificação solitária de alguém, nascida ou construída. O universal, aqui, reside nessa audácia de algo que nos desvela mesmo sem a presença da nossa razão. Olhar para a biografia é enfrentar algo de muito singular, sombrio e silêncio e não importa se vamos incluir a vagina, na nossa história, mas ela, certamente estará presente.

É interessante perceber o incômodo quando se fala da vagina com um certo protagonismo ou nesse lugar metafórico. O que parece não ocorrer se usarmos outras partes do nosso corpo. Ninguém questiona a beleza de se contar a biografia de um oleiro através das ações das suas mãos, mas poucos diriam que o mesmo se aplicaria a vagina. O fato é que a relação que temos com o nosso corpo e com esse corpo que se relaciona com o mundo molda quem somos.

Não é possível, por exemplo, viver ignorando a existência das nossas mãos e de não perceber o que são capazes de fazer. Quantos anos de intensa atenção são necessários para que as mãos produzam musica por meio das cordas de um violão, num violino, ou num piano? Quanto tempo de dedicação para as mãos moldarem o barro ou para as pernas correrem o mundo? Quantas gerações para fazer o ouvido perceber a boa musica, a diferença de sons, os graves e os agudos? Algumas pessoas nascem mais talentosas e em contextos mais amorosos que outras, assim esse tempo e esse esforço parece ter outra significação. E nem todas têm a sorte de não precisar esconder o corpo de si mesma. A questão é que diante da consciência de que se os olhos precisam ser treinados para ver beleza, os ouvidos para a musica e as mãos para a criar, nos também precisamos treinar, algumas mais que outras, a relação com nossa vagina. E precisamos, urgentemente, parar de delegar a ação de descobrir os seus segredos e encantos a algum príncipe ou princesa encantados e talentosos. Essa tarefa cabe a nós e exclusivamente a nós.

E por que nos esforçamos tanto em ignorá-la é que torna-se difícil acolhe-la. Porque acolhe-la exige olhar para séculos e séculos de gestão alheia e tranquilamente perceber que nada disso faz sentido. Afinal, o sentido é dado por nós. Ignorar a vagina é viver como se não fosse preciso conhecê-la, treiná-la, estimulá-la, tal qual fazemos com qualquer outra parte do nosso corpo. O que talvez ainda muitas de nós, mulheres, não perceberam é que a vagina habita nosso corpo, então ela não existe para agradar os outros à revelia dos nossos prazeres. O encontro com o outro deve ser sempre um encontro consigo e vice versa. Se a vagina é um playground de diversões infinitas ela é o nosso playground cuja entrada deve ser autorizada, respeitada e jamais, jamais violada.

Somos mulheres e não me importo aqui se fomos nascidas assim ou desveladas. A questão é que poucas de nós têm coragem de encarar os segredos que a história da sua própria vagina carrega. A relação que temos com ela talvez fale mais sobre nós do que podemos imaginar. E essa confissão nem sempre é suportável para nossa razão. Assim, mesmo que não queiramos ela fala. E ela fala com tanta clareza que tentamos medicalizá-la e silenciá-la porque ela grita, ela adoece, ela seca, ela dói e nos bons tempos da nossa alma ela também se diverte em prazer quando acolhida e aceita na sua singularidade.Quem ainda não sabe onde ela fica? Quem ainda crê que excitação tem relação com lubrificação e não com o clitóris? Quem ainda se incomoda em falar vagina e fica mais confortável falando pepeca? É como se pecássemos sempre que pensássemos na vagina. E isso é tão derradeiro em nossa cultura que parece que preferimos ignorá-la até na hora do parto. Melhor que nada ocupe aquele lugar ou lembre sua existência, sua função e, claro, seu poder.

O que significa viver sem fazer uso de toda a potencialidade de nossos pulmões, de nossas pernas, de nossos braços ou da nossa mente? Por que insistimos em ignorar a vagina? Por que é aceitável treinar a mente e absurdamente pecaminoso usar a vagina? Esses pactos de castidade moral não são para nós mulheres, são contra nós. Nenhuma parte do corpo fica impura sendo usada. Ela adoece, isso sim, na falta de ação.

Talvez a violência explique esse gosto pelo pecado, pela moral e pelos sabonetes íntimos. São cerca de 5 milhões de meninas todo o ano sofrendo algum tipo de mutilação genital (clitoridectomia, excisão ou infibulação). No Brasil o próprio governo confessa que a cada 11 minutos uma menina ou uma mulher é estuprada. Isso sem falar nos casamentos infantis, na pedofilia, na violência às mulheres trans e nos milhares de casos silenciados que nossa imaginação não é capaz de conceber tamanha a crueldade. Faz sentido fazer de conta que a vagina não exista, afinal, ela aumenta nosso risco de existir. Faz sentido não querer que ela conte nossa biografia porque esta gravado na sua historia o que é incontável. A vagina deveria dar eco ao que somos, como uma amiga fiel, e não sepultar nossas dores e sonhos.

Se na nossa vida estamos cercadas de desafios e dúvidas, das coisas simples às complexas, se não sabemos se precisamos mudar de emprego, de profissão, se aquele relacionamento já venceu ou se tem tristeza demais na nossa alma talvez precisássemos nos aconselhar com a vagina e prestar atenção na sua saúde. Conseguimos mentir para um terapeuta ou psicanalista, mas não para ela. Nós não somos apenas um ente isolado que pensa e decide, somos um turbilhão de conexões, sensações e de vida que a nossa pobre mente não tem a menor condição de entender ou criar algo novo. É na vagina com seus mais de 50 espécies de microrganismos ou com suas 8 mil terminações nervosas (4 mil a mais que o pênis) que novas sensações e experiências podem ocorrer. Estimulá-la significa estimular nossa mente, nossa criatividade e todos os hormônios que ajudam a viver a vida. Porque o novo não está no pensamento: quando pensamos, pensamos sempre algo que já não existe mais. É nas experiências presentes, nas sensações que o novo se revela.

Mas apesar de todo esse mundo que insiste em tornar-se a diretriz e o compasso de como as mulheres devem viver a vida ainda somos nós que carregamos nosso corpo e mesmo nessa cobertura moral e de medos que se materializam em burcas, em plásticas ou doenças, a vagina está lá e ficará conosco por toda a nossa vida tentando nos acordar para que percebamos o que é importante para nós.

Texto publicado: http://catarinas.info/colunas/por-uma-biografia-da-vagina/

Samantha Buglione

Written by

Doctor in human sciences, philosopher who uses the scientific method of Goethe and poetry

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