To Fit, but not so much

As regras de adaptação exigem atos poderosos. Para as mulheres é tanto salto, pintura, recorta e cola que ao final não sei se sobra muito do original. Todo mundo se choca com os pés-de-lotos de tradições antigas, mas naturalizam os saltos incômodos, as químicas nos cabelos e as roupas que causam asfixia ou padronizam o expressar-se no mundo.

A arte da aptidão é quase uma virtude, uma polidez e atualizada, pura sofisticação. Ato de diplomacia que não é para qualquer um. Por outro lado também parece ser a qualidade do bom soldado de botas lustradas e roupa alinhada. Ainda mais em tempos de relações que parecem se definir em desempenhos e resultados cuja qualidade e valor dependem do que é possível ser matematicamente mensurável ou transformado em algoritmo.

Admiro realmente quem tem a habilidade de desaparecer em alguns contextos tamanha a qualidade de diluir-se, de tornar-se “um outro eu do outro”. Se por um lado adaptar-se pode ser muito respeitoso, gesto atento de observador cuidador, por outro pode ceifar por demais aquele que muito se esforça.

Fazer força parece só faz sentido quando é para nascer habito novo desejoso. Algo como uma construção lucida de quem se é e não ato Luciférico de um dever ser alheio. E aqui reside a parte mais difícil. Até acharmos a medida certa vamos sofrer voluntariamente muita poda desnecessária e se esforçar demais. É como se para aprender o justo meio precisamos do exagero, do corte na carne e de algumas dores. Não sei se isso é para todos, realmente conheço pessoas que aprendem por ato suave. Eu percebo a suavidade, mas nem sempre na primeira chamada. Parece que padecemos de um treino constante de aprender a ver, sentir, equilibrar-se e silenciar.

O fato é que no exercício de dar forma para as medidas de adaptar-se a si, de criar modelo próprio, padecemos de certa solidão porque ninguém tem o corpo e a alma da gente. Não tem sutiã que se encaixe bem, nem par sapato com pés de números diferentes. Somos tão singulares que até em nós os dois lados se diferem. Como então dar forma para esse movimento constante, desse ser no outro e desse outro em nós se nós mesmos somos um duplo?

Quando o adaptar-se é ato voluntario, escolha livre de querer ser, não tem força nem violência. É um construir-se no outro por força de si. Meu problema é quanto os pés-de-lotus são a revelia da vontade e quando a vontade nem é vista, sentida, percebida. Ai é dor na certa.