A Chegada

Alguns filmes possuem mensagens que mudam, nem que seja por alguns momentos, a visão sobre determinados aspectos da vida. É o que a arte faz. Evidentemente, isso é uma questão de interpretação estritamente pessoal. No meu caso, fico muito tocada com certos longas-metragem, sentindo a mensagem na pele, no cérebro e na alma (se é que existe).

O filme A Chegada, de Denis Villeneuve (diretor de Sicário, Os Suspeitos, O Homem Duplicado), de certa forma fez isso comigo. Quem assistiu e gostou de Interestelar (Christopher Nolan) também poderá ver algumas relações, apesar do roteiro ser totalmente distinto.

A trama começa com um melodrama que deixa o espectador cético quanto à qualidade do que vem pela frente na telona. Entretanto, a perda pessoal da linguista Louise Banks (Amy Adams) apresentada nas primeiras cenas será o fio condutor do que quero dizer com mudança de visão sobre a vida.

A ficção científica é baseada em um conto chamado “História da sua vida”, do escritor Ted Chiang. A história aparentemente é sobre alienígenas que resolvem instalar aeronaves em diversos pontos do planeta. Até aí, nenhuma novidade em termos cinematográficos. Entretanto, não há tiros e cenas eletrizantes de ataques. Ao contrário, os seres desconhecidos das naves parecem querer passar alguma mensagem.

Então, entra em cena a protagonista a fim de tentar decifrar a linguagem deles. A partir disso, duas teorias aparecem em cena: a hipótese de Sapir-Whorf e a teoria da Relatividade. A primeira, menos conhecida, diz que a estrutura e o vocabulário de uma língua são capazes de moldar os pensamentos e percepções de seus falantes — dessa forma, cognição e língua são inseparáveis.

O espectador vai entendendo essa sofisticação do filme de forma natural enquanto a linguista vai se comunicando com os extraterrestres. Concomitantemente ao trabalho exaustivo de decodificação, já que os seres de outra dimensão emitem ruídos e desenham através de círculos com diferentes formas que levam a distintos sinais e compreensões, a protagonista vai tendo insights incompreensíveis.

Se eu escrever mais sobre essas visões e sonhos, correrei o risco de entregar boa parte da trama. Porém, são exatamente essas confusões pessoais quevão fazer com que ela decida sobre o futuro. Ou melhor, qualquer coisa que ela faça não modificará o destino escolhido.

Não se trata de profecia ou autoajuda, mas de relatividade entre o tempo e o espaço. Como a linguagem dos seres alienígenas tem temporalidade distinta, essa pode ser uma das chaves para o conhecimento que a personagem de Amy Adams tem da própria vida futura.

_“O que você faria se soubesse como será seu futuro?”, essa pergunta é feita pela própria protagonista ao físico/matemático (Jeremy Renner) que a ajuda no trabalho de deciframento da linguagem não-linear dos aliens. O ponto de mutação parece ser o conhecimento das consequências das escolhas dela e do resultado sobre outras pessoas envolvidas. E isso serve para nós, fora da telona. Ao mesmo tempo em que nos preocupamos com as consequências de um ato hoje, vale se privar de momentos ou mesmo anos felizes, se essa decisão resultará em correr riscos ou obter um final doloroso?

Se tivéssemos o domínio sobre a relatividade entre espaço e tempo, talvez pudéssemos fazer escolhas diferentes. Ou simplesmente não mudaríamos uma vírgula em relação às atitudes do presente. Ou ainda daríamos mais atenção aos momentos e às pessoas que estão mais próximas.

Aliás, essa noção me fez revisar meu lema número um: não ter filhos. Encerro por aqui ou essa discussão iria longe.

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