Minha transição capilar não foi de uma vez só
Lara Pinheiro
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Essa última frase do seu texto é justo sobre o que fiquei pensando enquanto o lia: a pessoa do cabelo. Quem é?

Estou no padrão “cabelo liso”, mas sem garantias de sucesso. Homens nunca tiveram a ver com isso. A gente só reparava no cabelo que ficou registrado na foto. E ríamos e mais beijo. Quando vivi um relacionamento abusivo, aí sim, meu cabelo, minha roupa e até a forma como cortava os pelos da minha pepeca eram temas na relação. Gente assim eu mando conversar com o poste.

O fato é que o padrão cabelo liso não me ajudou. Minha imagem continuava quebrada como um espelho que caiu no chão. Apresentando meus fios a você, não os tenho cacheados, mas já eles já foram bem mais compridos do que hoje e mais bonito também. Liso, depois ondulado e quando comprido, mais liso onde era ondulado, pelo próprio peso.

Eu tive uma crush que tinha cabelo cacheado e curto, ela o deixava crescer do jeito dele e pronto. O cabelo combinava lindamente com a personalidade dela. Incrível. Simplesmente, a imagem dela (que eu lia a partir do cachos) a fazia impor-se só de ver. Imagina falando … o efeito triplicava e eu morria de amores. Como eu acho difícil ser esse ser que transpira por todos os poros da pele. Eu quero ser.

Esse ano, raspei o meu cabelo no dia do meu aniversário com a gilete que catei no banheiro, querendo retirar de cima de mim, desvestir-me de tudo que não podia mudar e me fazia sofrer todo dia. O assédio na rua, os elogios automáticos a minha forma, cor e cheiro em detrimento do que o que mais gosto em mim: minha fala, minha criatividade. Comentários dos outros que alimentavam minha sensação de relações superficiais e insegurança de estar perto de pessoas. Prefiro que meus amigos não falem sobre meu corpo e não gosto de conversar sobre imagem com eles. Cor de batom, shopping, salão, isso tudo me faz sair correndo. Preciso sentir intimidade mesmo para conversar disso. Estou tentando fazer melhor e deixar isso mais leve. Raspar me deu um start para experimentar novas roupas, e formas de mostrar e curtir o corpo. Ganhei vários cafunés, dei carinhos também e ri. Tá calor e mandar a nuca pra fora é conforto nota mil. Eu não sei muito bem o que fazer com meu cabelo agora. Não sei se estou em transição, se isso é transição capilar. Mas foi e continua sendo muito difícil aliar a imagem pessoal ao ser, aquele que transpira através dos meus poros. O cabelo curto me deu poder. Eu posso sair na rua mais livre, menos preocupada com assédio. Em seis meses eu recebi duas só. A de um tiozão bêbado que me chamou de Elis Regina e de um moleque grande que disse que era *estilosa*. Nenhum outro estranho se atreveu a dar opinião sobre meu corpo. E ser dona de si é muito bom. Eu queria me sentir assim o tempo inteiro.

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