HIP HOP: dos guetos de NY ao Brasil

Samara Sayegh
Jul 3, 2017 · 5 min read
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Onde tudo começou

Uma forma de expressão nova, urbana e influenciada principalmente pelas minorias negra e latina surgiu nos anos 70, em Nova Iorque. Ajudou a diminuir a violência das gangues que habitavam a cidade. Polêmico, diferente, ousado… o tal do Hip Hop.

Mas antes de qualquer coisa, por que “Hip Hop”?

Sempre me perguntei isso. O nome surgiu graças ao James Brown (padrinho do soul, pai do funk), que durante seus shows costumava gritar “Hip-hop-Duh-Hip-hop-Duh-Hop”. Ele acabou inspirando o Dj Hollywood (rapper norte americano), que utilizou o fragmento “Hip Hop” para o nome do movimento.

Marcado por quatro expressões diferentes, o Hip Hop se tornou um movimento muito fluído, mas não por isso menos complexo: fazem parte dele o break — representação artística através da dança -, o rap — desenvolvido pelos MCs, sigla para rhythm and poetry (ritmo e poesia), expressão musical com cunho político — , o DJ — responsável por trazer a “batida” sonora ao ritmo — e o grafite (do italiano — grafitti) — a pura arte através da escrita.

“Quando o rock parece estagnado, uma inovação surge para levar a música de volta às ruas. Vinda do Bronx, de Nova Iorque, essa transformação radical provoca tanto medo e desconfiança quanto o rock quando surgiu. Longe da elegante Manhattan, a juventude negra, através de novos estilos de dança (break) e artes plásticas (grafite), dá vida ao hip-hop” — Livro “Acorda Hip Hop”, Tramas Urbanas, página 20

James Brown em performance (http://acervo.oglobo.globo.com/incoming/20611060-994-08d/imagemHorizontalFotogaleria/James_Brown.jpg)’

Além de uma expressão musical e artística, o Hip Hop roubou a cena e passou a se tornar um instrumento de união e uma ferramenta para mudança da realidade das classes oprimidas e excluídas naquele período. Em torno de 1975 o som e o estilo do Hip Hop passaram a se espalhar para as demais regiões de Nova Iorque, como Manhattan e Queens.

Uma prova do forte cunho político do Hip Hop foi a fundação da “Universal Zulu Nation”, Organização Não-Governamental que pregava “Paz, Amor, União e Diversão” e que foi criada por um dos fundadores do Hip Hop, o Dj Bambaata. A ideia da ONG era reunir no mesmo espaço dançarinos, DJs, MCs (mestres de cerimônia) e grafiteiros para incentivar diferentes expressões artísticas dentro dos guetos. Promovia palestras sobre economia, ciências, dentre outros temas de destaque para as comunidades. O pacote completo.

Dj Hollywood — “Hollywood’s World”

“Quando nós criamos o hip-hop, o fizemos esperando que seria em função da paz, do amor, da união e diversão e que as pessoas se afastariam da negatividade que estavam contaminando nossas ruas (violência de gangues, tráfico e consumo de drogas, complexos de inferioridade, conflitos entre afro-descendentes e latinos).”- Bambaataa explicando suas intenções com o Hip-Hop, ao site da Zulu Nation

Terra Brasilis — 1980 a 2000

Oficialmente, através das grandes mídias (revistas, jornais e televisão), o Hip Hop se popularizou aqui no Brasil em 1984. Tiveram muito destaque a partir desse período Nelsão Black Soul (ou Nelsão Triunfo, famoso por sua performance no break), grupo Funk & Cia, Racionais MC’s, Thaíde, MV Bill, Sabotage, Planet Hemp, Gabriel O Pensador, Criolo, dentre outros.

São Paulo foi uma cidade que teve um papel muito importante na propagação do movimento, e vários encontros dos simpatizantes aconteciam no centro da cidade, primeiramente na Avenida 24 de maio e posteriormente na Estação São Bento do metrô e na praça Roosevelt.

Abertura da novela “Partido Alto”, da Rede Globo, com os dançarinos do “Funk & Cia.”

Desses encontros na Estação São Bento, por volta de 1988, surgiu o grupo Racionais MC’s. Com mais de duas décadas de história, o grupo foi responsável por colocar o rap em voga dentro do cenário musical brasileiro. Milton Salles, produtor do grupo até 1995, se juntou a AC Brown (“antes do Capão Brown”, que viria a ser conhecido como Mano Brown), DC Blue (“depois do Capão Blue”, que viria a ser conhecido como Ice Blue), Edi Rock e KL Jay, e assim surgiu o grupo, cujo nome foi inspirado pelo álbum “Racional”, de Tim Maia.

“Levar consciência através da música, do ritmo e da poesia para as periferias do Brasil, num processo de transformação. Criando a revolução através do verbo. […] A melhor forma de se combater a violência é a cultura, a cultura de rua principalmente.” Explica Milton Salles ao Programa “Manos e Minas”, da TV Cultura.

Racionais MC’s — “Nego Drama”

Em 1989 Milton Salles criou o “Movimento Hip Hop Organizado”, o MH2O. O movimento criava oficinas nas periferias, shows gratuitos no gueto e ajudou a divulgar o rap para o grande público. É a maior organização de Hip Hop no Brasil, com mais de 5.000 membros espalhados por quatro regiões do país. Hoje em dia, Milton é responsável pela Companhia Paulista de Hip Hop, cujo intuito é também divulgar a cultura do movimento.

Dentre as quatro vertentes do Hip Hop (Break, Rap, Dj e Grafite), a que mais ganhou destaque nos últimos tempos e se propagou bastante no Brasil foi o Rap. Principalmente por seu cunho social e político, serviu como instrumento de contestação e exposição da realidade.

Ainda em São Paulo, além dos Racionais MC’s, surgiram outras figuras de destaque . Thaíde e Dj Hum inciaram uma dupla a partir dos anos 80; Sabotage iniciou carreira em 1988; Rappin’ Hood e Criolo começaram suas carreiras em 1989.

Sabotage — “Um Bom Lugar”

No Rio de Janeiro, MV Bill inciou sua carreira em 1988; em 1992, surgiu Gabriel O Pensador com o Hit “Tô Feliz, Matei o Presidente”; Planet Hemp foi uma banda criada por Marcelo D2 e Skunk em 1993.

“Encontrei minha salvação na cultura Hip Hop” — MV Bill, em sua letra “Traficando Informação”

Planet Hemp — “Contexto”

E daqui pra frente: que som é esse?

Mas a questão que fica é, e nos dias de hoje? Por onde caminha o movimento Hip Hop no Brasil? Como estão o break, o grafite, os Djs e o Rap?

A produção musical brasileira ainda possui espaço para um estilo com uma batida diferente e também um viés político? O movimento ficou restrito à participação masculina, ou a participação feminina também teve destaque?

É esse ponto que a próxima reportagem vai abordar. “Guenta” mais um pouco, vem coisa boa por aí!

Entrevista de Nelson Triunfo ao programa “The Noite”

Samara Sayegh

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Economista, escreve sobre assuntos do cotidiano e fala um pouco sobre aquilo que não falamos todo dia https://samarasayegh.wixsite.com/samarasayegh

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