Sede da UNESCO em Paris / Foto: Reuters/Philippe Wojazer

E a Palestina nessa história?

Samara Sayegh
Oct 15, 2017 · 7 min read

Nesta quinta-feira (12/10) os Estados Unidos anunciaram sua saída da UNESCO — Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura. A saída se tornará efetiva a partir de 31 de dezembro deste ano. O país alega que a organização possui um viés anti-Israel. Benjamin Netanyahu, primeiro ministro israelense, declarou que o país também vai se retirar da organização.

A diretora geral da UNESCO, Irina Bokova, lamentou a decisão, e afirmou que ela afeta o universalismo e fomenta o extremismo violento e o terrorismo.

Acredito que alguns pontos devem ser considerados para se entender um pouco melhor a situação e seus impactos…

Estaria realmente a UNESCO praticando políticas anti-Israel?

Qual a consequência da saída desses dois Estados da organização?

Vamos lá:

A UNESCO, SEU PAPEL E SEU FINANCIAMENTO

A Unesco é o órgão das Nações Unidas responsável por mediar entre os países as relações que dizem respeito à educação, ciência, cultura e comunicação.

Também tem o papel de informar e mobilizar a sociedade sobre esses temas.

A organização foi fundada em 1945 em Londres, logo após o fim da II Guerra Mundial, por trinta e sete países. Dentre os que assinaram sua constituição estão França, Reino Unido, EUA e Brasil.

O financiamento da organização é dividido em 06 categorias, listadas abaixo. Para 2017, 49% dos fundos previstos em orçamento vieram das contribuições feitas aos Programas Regulares realizados pela UNESCO.

Valores em dólares americanos, correspondentes ao orçamento anual da instituição. Dados fornecidos pela UNESCO, atualizados a cada seis meses (Junho e Dezembro)

Dentre essas categorias, 07 doadores contribuem com 83% do total do montante orçado. Os demais 163 doadores contribuem com apenas 17% das contribuições.

Valores em dólares americanos, correspondentes ao orçamento anual da instituição. Dados fornecidos pela UNESCO, atualizados a cada seis meses (Junho e Dezembro)

Dentre esses 07 doadores, as Contribuições aos Programas Regulares são feitas por todos os Estados Membros, de acordo com a riqueza e o desenvolvimento de cada país. Isso quer dizer que países mais ricos e mais desenvolvidos terão proporcionalmente um papel maior na contribuição orçamentária da UNESCO.

Desde 2011 — após a aceitação da Palestina como Estado Membro — os EUA suspenderam seu financiamento à instituição, e devido a esse corte, o número de funcionários da UNESCO foi reduzido e parte de seus projetos foram cancelados. O país estaria devendo hoje 550 milhões de dólares à instituição.

A PALESTINA, ONU E UNESCO

Os palestinos são refugiados desde 1947. A Palestina foi aceita como Estado Membro Observador da ONU em 2012. Um ano antes, em 2011, foi aceita também como Estado Membro da UNESCO, através de uma votação feita na Conferência Geral da organização. Os palestinos são o povo refugiado há mais tempo na atualidade, e houve um grande avanço em busca do reconhecimento da Palestina como Estado.

Fronteiras estabelecidas entre Israel e Palestina no acordo de Oslo, em 1993 / Fonte: Terra

Desde 1947 — após o término do mandato britânico na Palestina — foi feita pelas Nações Unidas uma proposta de partilha para o território palestino, entre um Estado Árabe e um Estado Judeu. Em 1948 foi estabelecido somente o Estado de Israel. Não foi estabelecido o Estado Palestino, como previa a sugestão feita pelas Nações Unidas. Nesse mesmo ano Israel entrou em guerra com os países árabes vizinhos e 750 mil palestinos foram retirados de suas terras — são refugiados desde então, há 69 anos. (Mais detalhes aqui)

Vinte anos depois, em 1967, após a chamada Guerra dos Seis Dias (detalhes aqui) Israel ocupou cerca de 77% dos territórios palestinos históricos. Essa ocupação levou o Conselho de Segurança da ONU a adotar a resolução 242, solicitando a retirada de Israel dos territórios palestinos e também a denominar os territórios palestinos como Territórios Palestinos Ocupados.

Áreas ocupadas por Israel após a Guerra dos Seis Dias / Fonte: Terra

“Ao menos 500 mil palestinos foram deslocados de suas casas; cerca de metade deles pela segunda vez desde 1948 (ano de criação do Estado de Israel).” Nações Unidas

Desde 2002 foi criado por Israel um muro, isolando a Cisjordânia — parte do que restou do território Palestino. O muro tem previstos 712 km de extensão e 8,0m de altura — infinitamente maior do que o muro de Berlim, que possuía “somente” 155km de extensão. Além disso, assentamentos israelenses (casas, condomínios) são construídos nos territórios que hoje compõem a Palestina. Essas construções também foram mais uma política adotada por Israel e condenada abertamente pelo Conselho de Segurança da ONU e pelo Tribunal de Haia.

OS EUA, ISRAEL E A UNESCO

A relação dos EUA com a UNESCO já foi marcada por idas e vindas.

Em 1974, com o reconhecimento da OLP (Organização para a Libertação da Palestina) e com a criação de resoluções que repreendiam as políticas de Israel, os EUA suspenderam seus pagamentos à instituição.

Já em 1984 o país decidiu deixar a UNESCO, alegando “desentendimento com relação à gestão e outros assuntos”. Logo em seguida o Reino Unido também deixou a instituição, o que reduziu drasticamente seu orçamento.

A saída americana ocorreu durante o governo do republicano Ronald Reagan. Os EUA retornaram somente 19 anos depois, em 2003, sob o governo de George W. Bush. Foi uma tentativa de combater a intolerância e o terrorismo, principalmente depois dos atentados de 11 de setembro de 2001.

Com relação à Israel, em 2016 o país criou uma restrição ao acesso de qualquer muçulmano à Esplanada das Mesquitas (ou também conhecido como Monte do Templo), local sagrado para as religiões muçulmana e judaica. O santuário fica localizado na Jerusalém oriental, local definido na partilha de 1967 como sendo território palestino (porém, ocupado por Israel). A parte ocidental da cidade foi destinada aos territórios israelenses.

A UNESCO aprovou uma resolução criticando essa restrição de acesso imposta por Israel, já que o local é considerado sagrado e os fiéis de todas as religiões devem ter direito de acessá-lo. Porém, Israel não concordou com a crítica e desde então suspendeu todas as suas atividades com a instituição.

Esplanada das Mesquitas / Foto: Folha de S. Paulo

Em contrapartida às acusações por parte dos EUA e de Israel de que a UNESCO seria antissemita (praticaria ódio aos hebreus, arameus, fenícios, árabes e assírios), Irina Bokova listou diversas medidas adotadas pela instituição, em parceria com os EUA, e que são contra o antissemisitmo:

“Juntos, trabalhamos com Samuel Pisar, embaixador honorário e enviado especial para a educação do Holocausto, a fim de compartilhar a história do Holocausto para lutar contra o antissemitismo e na prevenção dos genocídios, com o Canal Unesco para a educação sobre o genocídio na Universidade da Califórnia e com programas de alfabetização na Universidade da Pensilvânia”

MAS, E AGORA?

Considerando esses pontos, penso se as políticas da UNESCO são de fato anti-Israel.

Observando os acontecimentos históricos, diria que em nenhum momento tais políticas foram contra o país — a aceitação da Palestina como Estado Membro não implica a não existência do Estado Israelense. Muito pelo contrário, o estabelecimento de dois Estados havia sido previsto pela ONU (e teoricamente aceito por ambas as partes) em 1947. Tal decisão na verdade contribui para que os palestinos também tenham seu direito à existência e contribui para que a paz seja estabelecida entre os dois povos na região.

Parte do muro construído por Israel

Agora, a saída de EUA e Israel da instituição — dos EUA principalmente — acabam por gerar uma grande pressão financeira e por comprometer a continuidade dos projetos tocados pela UNESCO.

Não me surpreenderia, se, buscando sua sobrevivência financeira, a instituição tenha que “podar” sua contribuição, seu reconhecimento e auxílio aos palestinos. Tenha que fazê-lo não por livre e espontânea vontade, mas visando a continuidade da instituição como um todo…

As consequências disso não somente seriam um retrocesso à criação de um Estado Palestino (ao fim do anseio dos refugiados palestinos por um lar) como seria também um empecilho ao desenvolvimento social no local e à uma solução de paz para a região, que vive em conflitos há 69 anos. Retrocesso. Tanto para a vida dos palestinos quanto dos israelenses…

“If we wash our hands of the conflict between the powerful and the powerless we side with the powerful — we don’t remain neutral”

“Se nós lavamos as mãos nos conflitos entre os poderosos e os mais fracos nós ficamos ao lados dos poderosos — não permanecemos neutros” — Dizeres de grafite feito no muro de Israel

Menino no Muro de Israel / Foto: El País

Quer saber mais a respeito do assunto? Seguem algumas sugestões de leitura e fontes para esta reportagem:

Fontes:

Contexto Histórico Palestino — Nações Unidas

UNESCO sofre com falta de dinheiro e politização — Terra

Oriente Mídia

Blog Sanaúd — Voltaremos

Reações à saída dos EUA da UNESCO — Deutsche Welle

Israel se junta aos EUA e deixa UNESO — The Guardian

As diferenças históricas que culminaram no anúncio da saída de EUA e Israel da UNESCO — BBC Brasil

Estados Unidos anunciaram saída da UNESCO — G1

Por que a condenação da ONU a assentamentos israelenses é histórica? — BBC Brasil

Dados Financeiros — UNESCO

Curiosidades e Mais:

Middle East News — Al Jazeera

A Guerra dos Seis Dias — BBC Brasil

Assentamentos Israelenses — ONU

Deterioração dos Direitos Humanos em Gaza — ONU

Ocupação Israelense em Gaza — ONU

Dia Internacional da Juventude 2015 — UNESCO

Documento de Planejamento da UNESCO à Palestina

Muro de Israel — Mundo Educação

Hotel é criado com vista para o muro de Israel — El País

Grafiteiro britânico Banksy faz filme sobre a Faixa de Gaza — El País

Grafites do britânico Banksy — Muro de Israel

História e geografia da luta pela Palestina no século XX — Terra

Samara Sayegh

Written by

Economista, escreve sobre assuntos do cotidiano e fala um pouco sobre aquilo que não falamos todo dia https://samarasayegh.wixsite.com/samarasayegh

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