Dia 1
Era cedo, nada de despertador. Exatamente às 10 da manhã, Cesar levanta de sua cama, bem descansado e animado para seu dia, que não lhe prometera nada! Um bom banho, aquela aparada no rosto e sua rotineira masturbação matinal eram apenas rituais para um dia de relaxamento e lazer. 
Preparou seu pão com manteiga e café e ligou a tv. Comia enquanto acompanhava o jornal! 
"Crime aumenta nas periferias" ... "Dinheiro some como vento" ... "Temporada de frio irá prender pessoas dentro de casa"
Ao ouvir a última manchete dá um leve sorriso! Ele sabia que estaria bem enquanto seu climatizador segurasse as pontas! Pouco importava as pessoas, sabia que estaria quente e tranquilo dentro de seu apartamento! E naquele dia de folga queria fazer nada! Definitivamente nada! 
Passou o resto da manhã inteira assistindo televisão e na hora do almoço queria aquela lasanha! Esperto era ele. Havia guardado uma no congelador para aquele momento específico! Esquentou, comeu.. relaxou! Estava num perfeito dia de ócio mas para terminar tinha que ter aquele filme da noite! 
O vento frio corria e batia pelas janelas de vidro, expulsava as pessoas da rua, calava os cachorros e afastava os insetos. A monotonia perceptível da janela fez com que não quisesse mesmo sair de casa! "Se esta tão frio lá fora que ninguém vai pra rua então é mais que certo estar aqui dentro!" Pensou. 
Decide assistir seu filme preferido às nove da noite. Enrolado em cobertas, no sofá, bocejava a cada vez que atardiava. 
Exatamente às 10 da noite pegou no sono.

Dia 2 
Às 10 da manhã, acorda bem disperto, como se tivesse uma ótima noite de sono. Foi fazer seus rituais de rotina. Banho, barba, masturbação.. tudo para começar bem o dia. 
Com apenas a xícara de café na mão liga a tv para assistir o jornal.
"Crime aumenta nas periferias" ... "Dinheiro some como vento" ... "Temporada de frio irá prender pessoas dentro de casa"
-Estranho! - disse ele reparando cada vez mais na tv. - Deve ser alguma reprise!
Seguiu o dia como o anterior! Sua desconfiança em certos pontos lhe fez questionar. Decidiu abrir o congelador. E lá estava a lasanha! Não há expressão em seu rosto. Não entendia o que estava acontecendo. Decidiu deixar pra lá!
Lembrou que tinha que arrumar o tanque de lavar, quebrado faz um tempo. Pegou o pequeno tanque, moveu para poder retirá-lo de lá! Uma estranha rachadura, grande e espessa, estava escondida atrás do tanque. 
-Essa não! Terei de chamar o pedreiro para isso! -
A tarde vinha rápido conforme o tempo passava! Amanhã era dia de trabalhar e queria acordar cedo! 
Arrumou suas tralhas de trampo e foi relaxar na sala. Assistir televisão era o que queria, afinal, nada melhor que atualizar o dia! 
Exatamente às 10 da noite cochila no sofá e dorme!

Dia 3
Acordou assustado! Sentia-se atrasado para trabalhar! Os fios de raios de sol já entrava nas arestas da janela. Olhou no relógio, 10 da manhã! 
Dispensou os rituais. Apenas um banho e a higiene bucal foram suficientes. Vestiu-se e tomou um leite sem frescura! 
Com suas tralhas e bem vestido sai para trabalhar! 
Glock glock glock.... a porta não abria! 
Forçou cada vez mais a maçaneta. 
-Ohhh meu pai, logo hoje!!! - resmungou.
Continuava a mexer na maçaneta, tentou a chave, a chave com a maçaneta. Nada abria. 
- Vou ligar pro síndico e reclamar, ora, como poderei trabalhar!? - 
No fundo se sentia mais feliz e tranquilo pois agora tinha uma justificativa para seu atraso! 
Vai até a cozinha onde pega o interfone... mudo! 
Agora acabará por ficar nervoso! Precisava sair mas nada o auxiliava. De onde estava pode reparar em algo estranho na lavanderia. O que o tanque fazia de volta no lugar? 
Não demorou para Cesar cismar com isso...
-O que aconteceu? Eu tinha desmontado isso aqui! Por que não esta desmontado?-
Arranca com raiva o tanque do lugar. Nenhuma rachadura! Na parede não havia marca alguma da grande rachadura de ontem! 
Depois de tanto indagar para si mesmo decidiu ir almoçar cedo. Abriu o congelador e lá estava a mesma e única lasanha! O pelo em seus braços arrepiam ao não entender o que acontecia naquele lugar! Perdeu a fome. Parecia que estava voltando no tempo! 
O resto de seu dia passou batendo na porta, olhando a janela, procurando traços da rachadura até que exatamente às 10 da noite dorme de forma involuntária!

Dia 4
Acorda assustado exatamente as 10 da manhã! 
Aquilo não podia ser real.. queria ter certeza e conferir..! 
Ligou a televisão! O noticiário reportava a mesma vinheta dos últimos dias. Definitivamente idênticas! 
-Não pode estar passando reprise por tanto tempo! - 
Tentou abrir a porta. Não abria!
Olhou no congelador. Uma única lasanha!
Atrás do tanque, sem rachaduras! 
Foi até a janela. A calmaria proporcionada pelo frio era a mesma dos últimos dias!
O medo assombrava seu coração. Nada daquilo era normal e temia ser um pesadelo interminável! 
-Devo estar sonhando! Não deve ser real!-
O interfone ainda mudo o impossibilitava de se comunicar com o mundo exterior. 
Pensou numa única solução. Correu até a porta e passou o resto do dia tentando abri-lá! 
Valia tudo! Batia, tentava a maçaneta, chutes, gritos e berros não foram o suficiente para chamar a atenção de alguém. 
Eram quase 10 da noite, onde sentado no pé da porta, com fome, tentava entender o que acotecia. Um par de sombras estranhas surge por baixo da aresta da porta. Cesar repara no movimento e tenta visualizar por baixo quem estava lá! Batia e gritava na porta! 
-HEiii.. eu estou aqui preso, alguém me ajuda! Chamem o síndico...! - 
O par de sombra se desloca para direita e vão embora!
-Não...! Não vão!!! -
Sentia vontade de chorar e escorado a porta poucas lágrimas descem seu rosto. 
Justamente neste momento o relógio bate 10 horas.

Dia 5
Era 10:01. Recém acordado, espiava a janela. Queria saber se podia fugir por lá!
Não exita e busca a cadeira na cozinha. Com toda força e raiva começa a bater e bater, com muita insanidade contra o vidro! Nem um arranhão surge. 
-Como pode ser tão duro..!- 
Lembrou-se da arma que tinha! Uma pistola pequena, calibre 22, preta. Arruma as balas no pente e o gruda na arma. Se prepara, mira e atira! 
Bang bang bang.....!
O vidro não quebra mas ganha enormes rachos que se abriam aos poucos. Era percetível uma pressão diferente lá fora, como se outro ambiente estivesse por lá! As rachaduras aumentaram a tal ponto que o vidro estoura e uma forte brisa entra junto aos estilhaços! Um forte cheiro de enxofre impregna todo o cômodo. Cesar, sufocando não conseguia ter fortes reações. Estava muito assustado e agora, perto de morrer. 
Suas pálpebras foram fechando. A dor nos pulmões eram incessantes. Sentia o alívio da morte ao menos! Estaria livre daquela loucura!

Dia 6 
Encolhido em sua cama, pensativo, não exibia traços de emoção. Olhar distante igual dos que tentam escapar de suas loucas mentes! Era o que ele achava. Apenas a loucura de sua mente.
Passou o dia assim, com fome, emponderando sozinho contra sua própria sanidade!

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Dia 56
Não suportava mais! Por mais que não comesse sua saúde sempre voltava. Nem fome nem sujeira! 
Não interessa o quanto bagunçava sua casa, ela sempre voltava arrumada. 
"A mesma lasanha, o mesmo programa na tv, a mesma monotonia na janela. O que tudo aquilo representa? Teste de sanidade? Homem nenhum pode com isso!"
Se levanta e pega a arma. 
-Ao fim, espero ter a certeza de não acordar-
Com leves suspiros enfia o cano na boca fecha os olhos, toma coragem, bang!

Dia 57
Nem se matar podia! Estava pronto para aceitar aquela loucura e viver daquela monotonia. 
Hora do almoço. Põe a lasanha para esquentar. Pensava naquela rachadura. Nenhum dos outros dias teve tal marca de diferença! O que havia naquela parede?
Antes que pudesse terminar de esquentar seu almoço ouve o som da porta abrir.
Ninguém entra. Era sua deixa. Queria aquilo mais que tudo, logo, não mede esforços e encabeça para fora do apartamento. 
Um longo e frio corredor. Cheio de outros apartamentos, esse corredor ia de horizonte há horizonte! 
A próxima porta para esquerda tinha o número "58" marcado. Sua porta continha o número "57". 
Trancada, não havia como saber o que havia lá! Decidiu seguir no corredor, pois tinha esperança de encontrar uma saída.
Porém a porta de número "82" estava aberta! Espiando de leve, decide adentrar. 
Apartamento organizado, e familiar. Era idêntico ao seu! 
A lasanha, o programa na tv, a perspectiva na janela que tbm não mudou. Foi ver o quarto. Espantou-se ao entrar. Não podia acreditar. Foi se logo para a cozinha e pegou uma faca! 
Com um grito pula na cama e enfia a faca no peito de alguém. Era no seu próprio peito. Um homem igual a Cesar ali dormia no meio do dia! Esse ao receber os golpes nada expõe. Nenhuma diferença na respiração. Achava estar em coma. Como podia ver ele mesmo ali, sangrando, parecendo morto? 
Com as mãos cheias de sangue dá leves passos para trás, com respiração forte, de medo e cansaço! 
Sua loucura atingiu novos níveis! Não podia se matar, nem aceitar aquela monotonia. Queria era uma explicação e busca voltar para o corredor. 
Mas ali, na sala, estavam criaturas altas, finas e sem face, com pele que parecia cristal! 
Cesar ao se chocar com essas criaturas perde toda aquela astúcia. O medo o paralisou de vez. Agora sabia que não podia entender mais as coisas! Só gostaria de voltar a vida normal. 
Uma das criaturas se aproximou, levantou o braço, deixando a palma rente a face do homem. Instantes depois a escuridão toma a consciência de Cesar. Uma certeza agora tinha! Estava livre daquele longo pesadelo!

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Dia 1 
Era 10 da manhã. Ela se levanta depois de uma ótima noite de sono. ... .. ...