A Cena que esperava.

Todos estavam com pressa.

Era dia de gravação de mais uma cena. Naquele lugar de torres altas, cores que variavam entre o marrom claro e o branco, cheiros diferentes por todos os lados, mais parecia um pátio do que um museu.

A luz que refletia na parede de uma das torres, indicava aquele fim de tarde de outono.

Vina vinha caminhando em frente a essa luz, entre as pessoas e na tentativa de vê-lo.

Ela trabalhava na produção da cena daquele dia, estrangeira, de cabelos curtos, cachecol vermelho e um batom cor de boca. Ser estrangeira a deixava um pouco a espera, um pouco sem saber como ir nem como voltar naquele pátio ainda desconhecido para ela. Apesar das tantas viagens, Vina ficaria para aquela gravação por mais tempo.

José acabara de chegar ao pátio.

Entre papéis caídos e conversas rápidas, um espaço encontrava o seu lugar. Era o rosto de Vina que se levantava a cada segundo que seu fôlego a permitia para tentar olhar José em cena.

José era um dos atores da cena, ainda que ele fizesse tantas outras coisas, era em cena que ele brincava de ser ele mesmo. Todos paravam para escutá-lo. Menos Vina. Ela só queria vê-lo. Ela poderia descrevê-lo de olhos fechados e com sorrisos por cada detalhe que sua memória quisesse contar.

As vezes, ela se perguntava o que era real e o que era imaginário por estar no meio de tantos papéis escritos.

Todos estavam com pressa.

A cena do dia precisava acabar.

Quando não se sabe mais o que se quer de uma obra já iniciada, o melhor é transformá-la em uma próxima cena.

Enquanto isso, José que era da mesma altura de Vina, usava um casaco azul marinho e se perdia entre seus próprios cabelos, mãos e cigarros. Ele não tinha pressa ao tocar o seu próprio cabelo e colocar fogo no seu próximo cigarro. Era nessa hora que Vina entrava em uma outra cena com ele.

A cena que a fazia esperar, mesmo que ela por muitas vezes não se sentisse bem com isso.

O pátio começou a mudar, a cena da gravação tinha acabado. Vina sorria para ela mesma, quando chega José para pedir uns papéis para ela.

Eles se olham nos olhos por alguns minutos, e, de repente, se abraçam. Respiram, cada um no seu tempo. Tocam o cabelo um do outro só com o movimento de suas cabeças e rostos.

Era o cheiro de cada um que dava início aquela cena que só foi escrita para eles dois.

[Escrito no Manzana de Las Luces]