A gata de franjas
Ela organiza os pratos, ajeita sua franja e vai servir café para mais um cliente naquela cafeteria que para ela parece sombria. Por seus móveis tão antigos e objetos pretos espalhados nos mais escondidos lugares.
Um homem com um cachecol vermelho entra e faz um sinal para ela. Logo depois, ele pede o seu café. Alguns minutos depois, ela volta com o café con leche pedido por ele. Não se importa se ela parece cansada e sem muita paciência para servi-lo.
Um novo diálogo começa.
Ela: — Você quer adoçante ou açúcar?
Ele: — Eu quero adoçante. E você? O que prefere?
Dois sorrisos acontecem. Entre pagar a conta e deixar o troco, um papel a mais é deixado na mesa. Esse papel leva a moça de franjas até o parque mais próximo na Avenida Libertador.
Ela chega no parque e lá encontra uma toalha velha no chão, uma flor vermelha grande e uma garrafa de vinho. Eles conversam sobre a toalha velha e sobre as muitas coisas que gostam de fazer. A toalha veio do varal do vizinho dele e uma das coisas que ela mais gosta de fazer é desenhar gatos no seu caderno.
Ele: — Seus desenhos são lindos! Você deve mostrar isso para o dono do café!
Ela: — Será?
Nessa hora, eles olham para frente e observam um gato caminhando pelos fios. Trocam também olhares e sorrisos. De repente, o gato escorrega no fio e olha para os lados. Ele toca o rosto dela, faz um sinal para um dos desenhos no caderno e fala para ela:
— Na vida, você tem todos os lados.
Para cada momento.
Mas, tem uma hora que você escolhe.
Escolhe para qual lado olhar, assim como os gatos.
[Escrito em Buenos Aires, durante uma conversa com a Verena Pessim na cafeteria El Gato Negro, inspirado nas mais diversas expressões de pessoas reais que cruzo pelo caminho nessa cidade.]