Medo

I

Eu gostava de observar o Wilson passar pelas trilhas em Piracanga.

Seus gestos rápidos, seu olhar fixo e intenso para algum lado, a cor da sua pele que brilhava no sol, seu cuidado com a mulher e os filhos, e, principalmente quando estava em pé na areia olhando para o mar. Wilson tinha o tempo dele e que depois de algumas das conversas que tivemos eu fiquei em dúvida se o tempo era realmente dele ou era o tempo das águas do mar.

Ele também era o professor de surf de Piracanga e as crianças o chamavam assim quando ele passava.

Quando eu era criança, eu ficava pensando como as pessoas podiam ficar em pé no meio do mar ao ponto da água chegar quase no nível do pescoço.

II

Era mais um dia de sol, naquele meu último mês em Piracanga, só que naquele dia eu ia ter a minha primeira aula de surf na vida e era com o Wilson.

Para começar a aula, ele desenhou na areia um vaso. Ele me pediu para olhar o vaso e disse:

— Você agora é esse vaso e eu vou te fazer 3 perguntas.

— Você está comendo como gostaria?

— Você está se relacionando como gostaria?

— Você está fazendo o que gostaria?

III

No caminho para o mar, muitas coisas aconteceram, dentro de mim e fora de mim, essas coisas que a cada um pode passar a sua maneira. Fizemos algumas respirações, Wilson me explicou algumas coisas e me disse que eu tinha que colocar meu corpo deitado na prancha e deixá-lo ir.

Meu corpo tremia.

Aos poucos, eu me permiti sentir cada remada, a cada onda que passava.

Wilson me avisou que logo em seguida iríamos para uma parte mais funda. Era aquele tal meio do mar. Continuei remando, sozinha. Olhava para frente, para o horizonte, como Wilson me ensinou. As ondas surgiam mais altas e eu continuava.

Senti medo, mas a beleza daquele momento me fazia confiar que eu não ia cair daquela prancha.

Wilson não estava mais ao meu lado, eu estava lá, sozinha, no meio do mar. O horizonte era azul claro e as ondas já estavam mais calmas.

IV

Com algumas passadas, a minha prancha mudou de lugar e eu olhei tudo a minha volta. Wilson estava sentado na sua prancha, um pouco mais perto da beira do mar, e sorria para mim.

Like what you read? Give Samille Sousa a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.