Meu tempo.

Durante as manhãs, sempre observo as pessoas com seus fones ouvindo música ou falando com alguém ao caminharem apressadas pelas ruas. Cada coisa acontece em um piscar de um rápido movimento. Esse movimento vem de uma escolha. A escolha de criar um tempo para andar e chegar ao seu destino, junto com ela poder falar com alguém, enviar uma mensagem ou escutar música ao mesmo tempo.

Observo também os entregadores de materiais retirando e colocando caixas dos caminhões para os estabelecimentos, o manuseio forte dos passeadores de cachorros ao atravessarem as ruas, o ruído da mochila de carrinho dos executivos ao passarem pela rampa da calçada, aquela bicicleta que toca sua buzina na ciclovia para avisar aos carros que ela também precisa atravessar ou até mesmo o grito do boliviano da casa de verduras para a mulher que esqueceu a bolsa lá.

Barrio Norte

Além de sentir o cheiro da gasolina que sai do caminhão quando os entregadores terminam sua tarefa ou o cheiro da estudante que vai para o colégio quando o vento por ali bate e cruza o meu nariz. Nessa hora, eu posso escolher qual cheiro focar, mas hoje escolhi outra coisa. Escolhi escutar a voz frágil que passava ao meu lado de uma idosa que conversava com a sua acompanhante. Encontro isso e mais um pouco todos os dias. Cada coisa no seu tempo, dentro do meu tempo. E é sobre ele que quero compartilhar com você.

Créditos: http://frenys.com/lagenteandadiciendo/

Essa semana entrei em uma mudança de ânimo intensa. Aqui eles chamam de bajón. Adorei essa palavra. Nunca tinha encontrado uma melhor palavra para definir meus dias de quando a casa cai. Quando a fragilidade vem à tona, que eu nunca sei se é tpm ou se a minha relação com o meu poder pessoal está fora do lugar. Ainda mais, quando se tem 24 horas livres todos os dias. Tudo pode passar pela sua cabeça ou tudo pode acontecer. Tudo mesmo, viu?

Todos nós já tivemos aquele dia de enviar uma mensagem sugerindo algo para fazer para um amigo, um certo alguém que você goste, um familiar, um conhecido ou qualquer outra pessoa. Não importa o tipo de relação, muitas desculpas sempre aparecem, descrições de agendas, mensagens lidas e não respondidas, entre outros fatos. E quando você está muito mais sensível do que os dias comuns, nesses momentos, você acessa muitas coisas dentro de você. Acessa suas memórias de rejeição, de abandono, de querer e não poder, e muito mais.

O que quero te dizer com tudo isso? Que eu deixei tudo aparecer, aceitei que também sou frágil, aceitei esse meu lado e que não é preciso ser forte todos os dias. Tudo acontece no seu tempo e na conexão com o tempo do outro.

Só tenho que sentir mais o tom de cada fala, observar mais qual é a verdade que andamos contando sobre o nosso tempo disponível ou não, além de não esquecer de me perguntar o que é sobre mim e o que é sobre o outro. E nessa jornada do “não tenho tempo” para te encontrar, para fazer isso, para fazer qualquer outra coisa essas perguntas sempre chegam até a mim.

Como diz meu querido amigo Gerson: — podemos enviar uma mensagem para alguém até fazendo xixi no banheiro! Daí eu escolho aceitar e respeitar que no meu tempo, o outro ou suas coisas podem ser prioridades, mas que o contrário pode não ser desta forma, em qualquer tempo — agora ou mais tarde.