Sabático — Parte 3

Começaram as fotos de carnaval nas redes sociais dos meus amigos e isso está me deixando UM POUCO irritada. :)
Nessa mesma época, no ano passado, eu estava em Buenos Aires (assim como estou agora) e essa cidade era o meu novo lugar depois de Piracanga. Aqui não tem trio elétrico, nem Ivete Sangalo.

Foi meditando e me perguntando muito na beira do rio de Piracanga que eu decidi que queria ir para Buenos Aires. Era novembro de 2015 e eu poderia começar meu 2016 seguindo duas coisas. Uma era procurar esse novo lugar e a outra desenvolver mais a arte de contar histórias. Um dia eu decidi, no outro eu tinha um Skype com a Renata Martins, minha amiga querida que é professora de alemão e morava em Buenos Aires. Durante nosso Skype, ela me contou que estava preocupada pois iria passar uns meses em Berlin (Amor e Amor) e não estava achando alguém para alugar seu apartamento. Eu disse: — oxente, eu alugo!

mais um fim de tarde no bairro norte
A cidade que tem música por todos os lados
O que eu escrevo hoje?

Cheguei em Buenos Aires dia 24 de janeiro de 2016, com a Renata me esperando em sua casa com um lindo almoço e um delicioso vinho branco argentino. Era muito bom encontrá-la e me sentir de novo pulando de braços abertos no desconhecido. Também era minha terceira vez em terras portenhas.

Meu tempo em Buenos Aires começou no calor do verão e terminou no começo do inverno. No meio daquele desconhecido, do ato de criar rotinas e atividades novas todos os dias, o que eu mais tinha certeza era acompanhar a mudança do tempo através da janela do apartamento.

De fato, fazer isso dizia muito sobre esse período, já que eu tinha novas formas de entender a vida, novas formas para me guiar, novas formas de medir as coisas. Entre o verão e o inverno portenho, fiz muitas coisas.

Mas, a maior delas foi abrir mais portas do meu repertório para novas pessoas e suas histórias de vida entrarem.

Eu tenho sede de gente e de beber histórias de vida por me transformarem em uma pessoa melhor cada vez mais.

Conheci pessoas de diferentes países, origens, formas de pensar, estilos de vida e algumas delas que continuam tão próximos de mim. Carlitos, Marisol e Mariana, meus amigos argentinos que conheci num curso de narração oral e são diferentes entre eles e ao mesmo tempo tão parecido por aquilo que nos une. A Mariana e o Eli, casal de brasileiros, que hoje são parte fundamental da minha vida, do meu processo de escuta e respeito pelo que o outro pensa e sobre o amor. Me reconectar com o Tulio (brasileiro que mora aqui há mais de 10 anos e trabalhou comigo em Curitiba) e ainda poder escrever textos para o seu blog sobre a cidade de Córdoba. Gracias, Tulito!
Meus professores incríveis de narração oral, meus amados professores de biodança, os diversos atendentes de cafeterias, ou simplesmente as pessoas que surgiam do nada no meu caminho só para perguntar se eu era brasileira ou colombiana. Os amores intensos e de culturas tão distintas, até mesmo aqueles que me fizeram chorar e me sentir imbecil (pasmem). Entrar no outro lado da cultura argentina, através do olhar das pessoas que passavam pelo meu caminho. Era e ainda é incrível receber visitas como também orientar pessoas nas ruas só para contar algo dessa cidade do céu azul brilhante e que eu ainda posso visualizar tantas estrelas no céu de noite.

Malvón. “Tenés una sonrisa hermosa!”
Villa Urquiza
em alguma parede das ruas de Córdoba.

Depois das pessoas, eu explorava muito os lugares da cidade, viajei para outras cidades no país também e comecei a entender um pouco a razão pela qual eu tinha ido para lá. Não era só ler, escrever, tomar vinho, visitar museus, assistir filmes, ler, escrever, tomar vinho, andar de bicicleta ou ler, escrever, tomar vinho de novo.

Teve um momento que entrei em parafuso e comecei a pensar que eu precisava criar algo, ter uma idéia, era um pouco absurdo ter tanto tempo para mim. Imagina né? No mundo que todos somos ensinados a produzir, a pessoa decidiu ter um tempo para ela.

Dias depois do parafuso, eu comecei a interagir com muitas crianças pelas ruas, isso aumentava a cada semana e um dia tomando banho, pensei: — E se eu contasse histórias para crianças brasileiras que moram em Buenos Aires?

Chegou a hora de pintar e contar uma história.

Saí do banho, entrei no Facebook, achei um grupo chamado Mães Brasileiras na Argentina e comecei a ler todos os posts. Logo depois, fiz um post me apresentando, contando o que eu gostaria de fazer e que precisava saber as idades dos pimpolhos. De repente, recebo uma mensagem da Catarine, baiana como eu, que tinha um projeto parecido, mas que ainda não tinha colocado tão em prática. Dias depois, eu estava com ela tomando um café e falando oxente para lá e para cá.

Esse projeto que eu chamo carinhosamente de Cafuné, precisava sair um pouco do papel, só que antes disso acontecer eu já estava pensando em voar de novo. Eu queria cruzar o oceano, antes de ficar em terras argentinas por um período maior.

Era fim de tarde, a luz refletia nos edifícios, eu voltava para casa e sentia que precisava viver um tempo mais naquela cidade que me transformava tanto por dentro, mas eu queria mergulhar mais no desconhecido.

Daí eu comprei uma passagem São Paulo — Bangkok na promo da Emirates.

Eu ia para Ásia, por 2 meses, só com a passagem de ida e volta.

Até o próximo texto.

E se essa luz na parede falasse, o que ela poderia me contar?