A indústria do fast-fashion e por que isso também é problema seu

Uma discussão sobre a realidade por trás do comércio da moda

Vitrines fast-fashion: o apelo da moda descartável e seus preços baixíssimos

Você provavelmente já deve ter ouvido falar do termo fast-fashion, que na tradução literal significa moda rápida ou instantânea. A pegada é a mesma dos fast-foods nos quais o que importa mesmo é pagar menos por um produto de consumo imediato. Lojas como C&A, Renner, Marisa, Pernambucanas, Zara, Forever 21, Le Lis Blanc e outras cadeias da indústria da moda são exemplos de locais em que se consome fast-fashion.

Por que fast-fashion é ruim?

Em primeiro lugar, porque baseia-se em vender roupas por preços baratos ou às vezes muito mais caros mas sempre pagando uma quantia mínima para as empresas têxteis que, por sua vez, pagam cada vez menos para seus funcionários de país subdesenvolvidos — a grande maioria oriunda da Ásia.

Para fabricar essas peças, as empresas pagam menos de 3 dólares por dia aos seus funcionários, que vivem em condições cada vez mais precárias. A maioria deles não tem registro em carteira, portanto não possuem direitos trabalhistas garantidos, e vivem em condições sub-humanas. Uma vez que não são registrados, todo e qualquer tipo de acidente ou problema que eles possam enfrentar não são de responsabilidades das grandes marcas como a Zara, Renner, Forever 21 e muito mais. Isso na prática significa que estas pessoas podem (e são) submetidas a jornadas exaustivas de trabalho por um salário cada vez mais absurdo e as marcas que comercializam estas roupas não têm nenhuma obrigação legal sobre estes acontecimentos.

Marcas que comercializam produtos fast-fashion

Para diluir a polêmica e manter a imagem elas investem em campanhas de relações públicas e promovem o chamado greenwashing ou “lavagem verde” que nada mais é do que investir em vídeos e campanhas “sustentáveis” que mostram como a marca é “amigável e se preocupa com o meio ambiente”, e com você, consumidor.

A verdade é que sai muito mais barato investir em campanhas de relações públicas para mostrar imagens comoventes e bonitinhas para distrair todos nós da realidade horrível por trás dessa indústria.

O documentário “The True Cost”, disponível no Netflix, trata justamente dessa questão e do impacto que o consumo exacerbado causa no meio ambiente e na vida das pessoas. O decorrer do documentário é bastante inquietante e deixa aquele gosto amargo na boca enquanto assistimos às cenas em que as condições dos trabalhadores são retratadas. O longa traz relatos de designers de moda, donos das fábricas têxteis, trabalhadores, ativistas, dentre outros que impactam ou são impactados diretamente por essa indústria.

Um ponto bastante interessante trazido no filme é a questão de que associamos a palavra orgânica apenas aos alimentos enquanto o algodão e outras fibras utilizadas em nossas roupas também podem ser orgânicos, porém a maioria delas não são. Diversos pesticidas são utilizados nos campos de algodão e isso também impacta a vida dos trabalhadores que adoecem por conta dos componentes químicos, sem contar a poluição de rios e do solo que estes resíduos causam. A cada 30 minutos um fazendeiro indiano se suicida por conta da desgraça por trás disso tudo. Eles compram sementes de grandes corporações, pagam caro e até produzem mais por certo tempo, até que suas terras começam a ficar pobres e não mais tão férteis. Endividados, eles perdem suas posses para essas empresas e ainda saem com a saúde comprometida sem muito o que fazer para escapar desse ciclo de horror. A atitude tomada então é ingerir pesticidas na tentativa de acabar com os problemas.

Nas comunidades nas quais essas fábricas se instalam, a água é comprometida, assim como o solo e o ar, fazendo com que os moradores adoeçam e as grávidas deem a luz a crianças com problemas de retardo mental e deficiência física.

Quem vai pagar por estes tratamentos?

Além de tudo isso, a segurança dos funcionários não é garantida e os locais de trabalho são precários, sendo constantemente palcos de incêndios ou desabamentos como o de Savar, Bangladesh, em 2013 que deixou mais de 1000 mortos.

Trecho de “The True Cost”, trabalhadora desabafa sobre a realidade da produção de roupas

Nossas roupas são, literalmente, produzidas pelo sangue de trabalhadores de países subdesenvolvidos e essa não é apenas a realidade dos Estados Unidos. Ficou sabendo da polêmica da Zara e Renner com trabalhadores estrangeiros em condições escravas?

As maioria dos funcionários dessas fábricas são mulheres , muitas delas mães que, quando não podem deixar os filhos sob os cuidados de parentes ou vizinhos, levam os filhos para os locais de trabalho.

Cena extraída de “The True Cost”

O que podemos fazer para mudar essa triste realidade?

Você pode estar pensando:

mas meu salário é ruim, não tenho dinheiro para comprar em outras lojas mais caras. Isso é coisa pra ricos.

O ponto aqui, caro leitor, é que não é preciso investir em grifes para escapar da maldição da fast-fashion. Existem diversas marcas, ateliês e designers pequenos que comercializam produtos artesanais e muito mais duráveis do que aquela camiseta, jeans ou sapato que você compra nessas lojas. Algumas alternativas para fugir disso são:

  • Procurar ateliês, lojas familiares, costureiras independentes ou feiras artesanais para comprar roupas, sapatos e acessórios;
  • Comprar roupas em lojas de semi-novos e brechós — estes geralmente têm produtos de qualidade, duráveis e com um preço muito mais honesto do que os oferecidos em grandes lojas;
  • Utilizar suas roupas por mais tempo e evitar comprar peças desnecessárias — é importante se perguntar “preciso mesmo disso?”, “esta roupa realmente ficou legal em mim?”, se for comprar para abandonar no fundo do armário é melhor não gastar seu dinheiro;
  • Criar um armário-cápsula ou guarda-roupa compacto. A ideia é criar algumas combinações com poucas peças por estação. Ao final, você doa, troca ou vende e monta um novo para a estação seguinte. Veja alguns exemplos e dicas de como fazer aqui e aqui (atenção na procedência das roupas que vai comprar);
  • Trocar roupas com amigos e familiares ao invés de comprar tudo e jogar o que não quer mais no lixo;
  • Customizar peças para que elas ganhem uma “nova cara” sem necessariamente gastar muito dinheiro (uma ótima alternativa para manter peças atemporais);
  • Cancelar os cartões desse tipo de lojas, caso você tenha (eu decidi fazer isso também);
  • Se certificar de que a loja na qual você está comprando não compactua com práticas de trabalho escravo e saber se elas são socialmente responsáveis e preocupadas com o meio ambiente. Aqui estão algumas marcas que foram flagradas fazendo uso de trabalho escravo. Fique longe delas!
Trecho de ”The True Cost”. Especialista defende que esta mudança está nas mãos do consumidor

Eu e você somos consumidores e se não dermos nosso dinheiro para estas empresas e mostrarmos a elas que não vamos tolerar essa injustiça, elas terão que rever seus conceitos e adotar práticas mais sustentáveis, que valorizam o capital humano e que respeitam as pessoas que trabalham com a fabricação de roupas.

Não estou dizendo que essa mudança é fácil, mas com um pouquinho de força de vontade e consciência a gente consegue mudar esse cenário, adquirindo produtos duráveis e de procedência justa. Temos que trabalhar nossa mente para entender que a moda não é descartável e que não estamos “fora de moda” só porque adotamos um estilo mais sustentável de vestir e viver. Enquanto temos apenas 4 estações no ano, as vitrines tem quase 15 vezes mais do que isso, lançando a cada duas semanas mais “tendências” que logo serão descartadas.

Se ainda não acha que isso é um problema grave e que merece sua atenção e preocupação, dê uma olhada nos links indicados ao longo deste artigo e nos seguintes artigos:

5 Truths the Fast Fashion Industry Doesn’t Want You to Know

As verdades inconvenientes que a indústria do fast fashion não quer que você saiba

O impacto da Fast Fashion na vida de milhões de pessoas

Não deixe de conferir o documentário “The True Cost”, disponível no Netflix. Tem uma resenha ótima aqui.

E aí, aquela camiseta de 30 reais, regata de 20 ou aquele jeans de 60 valem tanto a pena assim?

Fast-fashion mata

Adendo: Existem marcas sustentávies e que valorizam o trabalho das costureiras como a inglesa People Tree, mas se souber de marcas brasileiras sustentáveis que valham a pena, compartilhe nos comentários! Obrigada. :)

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