A melhor resolução de ano novo que já fiz*

Há 10 minutos para a virada do ano, me peguei refletindo sobre o que estava fazendo de errado para não atingir todas as metas que coloquei em minha vida. Pensei e, sem chegar a uma conclusão, terminei minha taça de champagne. Já faltava 5 minutos para a meia-noite.

No devaneio mais óbvio que alguém poderia ter em dia de virada, me aterrorizei pensando que o novo ano estava batendo na porta e que minha chance de fazer 2015 um ano melhor estava indo embora. A esta altura, não havia possibilidades de consertar os erros, desfazer palavras ditas da boca para fora ou de fazer a diferença na vida de um completo desconhecido. Uma de minhas resoluções para 2015 era viver com mais leveza e lutar para ter uma vida sem dificuldades. Pensei nisso também.

Repus minha taça de champagne e, ainda na melancolia pré fim de ano, percebi que estava há 3 minutos de dar adeus ao ano velho.

Senti, junto com o gole da bebida, o amargo gosto do arrependimento e da saudade de algo que jamais irei recuperar: o tempo.

Pensei nos dias em que senti vontade de parar o que estava fazendo e sair pelo mundo como mochileira ou quando pensei em tentar a vida como criadora de tags do Netflix (sim, é um emprego que existe, que algum felizardo ou felizarda já conseguiu). Olhei para o relógio novamente, enquanto bebia mais um gole de champagne, que desceu em seco junto com os arrependimentos. Faltava 1 minuto e 30 segundos para a virada. Me desesperei e pensei “em qual parte das minhas resoluções eu errei? Por que será que sinto este vazio de que as coisas não avançaram tanto quanto poderiam?”. Olhei a hora novamente e faltavam 59 segundos. “Ahá. É isso! Errei porque pedi pra Deus, pra Força ou pra sei lá para o que, para que não tivesse dificuldades.” Constatei que ao invés de desejar uma vida sem dificuldades, eu deveria ter desejado mais resiliência para vencer as adversidades que eu enfrentaria no novo ano. Pensei que a resposta era tão evidente e estava ali, na minha cara, mas eu não havia percebido.

Até as pessoas mais bem sucedidas e ocupadas enfrentam seus próprios demônios. Pode não ser no âmbito financeiro, mas em outras áreas da vida. Por que será que a vida delas parecem ser mais fáceis? A questão é como a gente olha para nossos problemas e a atitude que temos para com eles. Entendi então que eu deveria ter prometido a mim mesma (e me comprometido) a aceitar as dificuldades da vida e abraçá-las. Com mais resiliência a gente é capaz de dar um passo para trás e enxergar a questão por outro ângulo. É aquele passo para trás necessário para que possamos avançar outros dois.

O relógio me informava que faltavam 30 segundos.

De olhos fechados pensei rápido: “minha nova e única resolução é aceitar as dificuldades e buscar ter mais resiliência”. Ao mesmo tempo em que pensei que isso bastaria, veio meu lado pessimista que me fez pensar “ah é Laura? Como você vai fazer isso querida? Vamos lá. Você é bem mais sistemática do que isso. Vai começar 2016 com uma resolução barata que você mesma sabe que não vai cumprir?”. Último gole do champagne, que desceu ainda mais amargo.

É verdade, pensei. Eu posso colocar uma meta mais factível. Fechei os olhos novamente e falei em voz baixa:

— Vou buscar na minha família, em meus amigos e nas coisas que me fazem bem, a força que preciso diariamente para enfrentar a adversidade que estiver por vir.

10… 9… 8…

Repeti em pensamento que eu tentaria olhar mais para tudo o que me faz bem para recarregar minhas energias e, assim, enfrentar meus problemas. Se dali uns meses eu fosse viajar o mundo tudo bem, desde que eu não fizesse isso tentando escapar dos problemas. A partir daquele instante eu havia decido a encarar de frente as dificuldades.

Meus familiares faziam a contagem regressiva junto com a jornalista na televisão.

3… 2… 1. “Feliz ano novo!”, diziam todos animados.

Passadas as primeiras 24 horas desta etapa de minha vida que chegou novinha em folha para eu aproveitar, recomeçar, me recuperar e tentar de novo, escrevo este texto em reflexão sobre a melhor resolução de ano novo que já fiz.

Hoje não foi um dia tão pra cima quanto estava o clima dos familiares na virada, porém foi um dia mais sábio em que dei um passo para trás, analisei as coisas que estão me incomodando e achei uma resposta para cada uma delas. Podem não ser as respostas certas, mas irei tentar ainda assim. Já sentindo um desânimo lembrando das coisas que eu preciso resolver, olho para meu copo de café quentinho, releio as mensagens de feliz ano novo dos amigos e familiares e, sentindo na alma o clima de recomeço, compreendo que essas são as forças disponíveis hoje — e somente as que preciso — para enfrentar as dificuldades. Amanhã é outra história.

Seja bem-vindo 2016. Entre em minha vida com tudo e se reparar a bagunça, não tem problema. Estou viva e tenho certeza de que irei colocar cada coisa em seu devido lugar.

*Texto de ano novo para cumprir uma resolução que não é da personagem desta história: escrever mais. :)