Participamos do evento global mais importante de caminhabilidade

Walk21 aconteceu pela primeira vez na América do Sul, em Bogotá; marcamos presença com nossos projetos e contamos por aqui como foi

O Walk21 é um evento global fundado por britânicos em 2000 para chamar atenção e refletir sobre a importância do caminhar nas cidades. Desde então já foram 19 edições da conferência sobre caminhabilidade e cidades caminháveis, em diversas cidades do mundo. Neste ano, impulsionado pela prefeitura de Bogotá, a cidade colombiana foi sede da primeira edição sul-americana.

Divisão modal de Bogotá

Em Bogotá, assim como em São Paulo, 31% das viagens diárias são feitas a pé. E das viagens a pé, 60% são realizadas por mulheres — refletindo as desigualdades de gênero que prevalecem nos países latino-americanos.

Leticia na abertura do Walk21 em Bogotá

Leticia Sabino, presidente fundadora do SampaPé!, esteve lá apresentando e representando nossos projetos. Ela já participou do evento em 2015 em Viena, onde teve a oportunidade de apresentar o SampaPé! como organização que aproxima e traduz conceitos técnicos sobre caminhar nas cidades de forma lúdica e propositiva para os cidadãos e cidadãs e também para quem toma decisões na cidade. Desta vez, em Bogotá, com a organização mais atuante e consolidada, apresentou três projetos de diferentes linhas de atuação e ainda facilitou um walkshop.

E claro, também visitou as ruas abertas em Bogotá e gravou uma live mostrando como funciona e comparando com o nosso programa em São Paulo.

Resumimos nossa participação nos 5 dias de evento e também destacamos 5 ideias que conhecemos lá por lá. Você também pode conferir algumas neste vídeo resumo.

Nossa participação nos 5 dias do Walk 21 Bogotá:

DIA 1

Abertura em grande estilo com cortejo pelas ruas abertas de Bogotá (ciclovias recreativas) com os fundadores do Walk 21 e muitos amigos de caminhada. Confira um pouco dessa animação no vídeo ao vivo.

Brownen Thornton e Jim Walker do Walk21 em cima, e Veronica do México e Diego da Colombia com a Leticia.

No mesmo dia também aconteceu uma reunião para a consolidação da Rede Latino-americana por Cidades Caminháveis, uma rede que estamos cocriando com organizações que atuam no tema em diversos países da América Latina desde 2015. Em breve traremos novidades, para que mais organizações possam ingressar e trocar experiências conosco.

México, Colombia, Perú, Venezuela e Brasil presentes.

DIA 2

Reunião da Federação Internacional de Pedestres (IFP — International Federation of Pedestrians), rede global da qual fazemos parte desde 2017 e que junta organizações de todos os continentes para trocar e fazer incidência em agendas e eventos globais. Do Brasil também é integrante a Corrida Amiga.

Representantes de organizações de mobilidade a pé do mundo todo na reunião do IFP

DIA 3

Apresentação, em painel sobre e Cidades caminháveis, do projeto de inclusão da mobilidade a pé no PlanMob de São Paulo, realizado em parceira com a Comissão Técnica de Mobilidade a Pé e Acessibilidade em 2015. Abordamos, assim, formas de colaboração entre sociedade civil e poder público por cidades mais caminháveis.

Leticia apresentando o projeto de participação cidadã no PlanMob de São Paulo para inserir a mobilidade a pé.

DIA 4

Apresentação, em painel de Participação Cidadã, do Sentindo nos Pés, projeto de advocacy empático em que levamos quem toma decisão a experimentar e avaliar a cidade desde a perspectiva a pé. O projeto teve uma recepção muito positiva e suscitou muitas perguntas sobre como fazer (já lançamos uma cartilha que conta o passo a passo!). Compartilhamos este painel com a Ariadne, do WRI Brasil, que apresentou o projeto de Ruas Completas.

Apresentação do Setindo nos Pés no Walk21 — em espanhol

Apresentação, em um painel sobre Equidade, do projeto Mulheres Caminhantes, que realizamos com a Rede MAS e com apoio do WRI e do Fundo Casa no entorno do Terminal Santana. O projeto promove auditorias de gênero e caminhabilidade com cidadãs, para colocar a perspectiva das mulheres que moram e frequentam no planejamento dos espaços e nas políticas públicas.

Leticia apresentando o Mulheres Caminhantes.

DIA 5

Realização do walkshop do Índice Cidadão de Caminhabilidade. Compartilhamos nossa metodologia de inclusão cidadã para medir e criar cidades mais caminháveis com especialistas de vários países — Colômbia, Costa Rica, Argentina, Austrália, Bélgica e Reino Unido. Para isso, contamos com o precioso auxílio da parceira caminhante do México, Yazmin — diretora da organização Camina.

Especialistas de vários países na oficina do Índice Cidadão de Caminhabilidade avaliando as ruas de Bogotá

Walk21 em Bogotá em 5 ideias:

1) As calçadas e praças públicas das nossas cidades são o único espaço onde temos livre acesso e circulação, no mundo.

Peñalosa apresentando

Enrique Peñalosa, atual prefeito de Bogotá, começou o evento com uma reflexão impactante sobre espaço: Do mundo todo, só temos direito a circular nos limites do país em que nascemos, dentro destes limites a maior parte das terras são privadas e não de livre acesso. Então, resta a nós o espaço público das cidades onde moramos. Deste espaço a maior parte está tomado por circulação de veículos motorizados. Logo, no mundo todo, o único lugar que realmente temos para circular, nos encontrar e estar são as calçadas e praças públicas. Por isso é mais do que essencial cuidarmos e valorizarmos estes espaços.

2) Quando ruas são transformadas em espaços públicos diversos de qualidade, elas preservam uso social da rua e a cultura do caminhar prevalece sobre a cultura do automóvel.

Joiselen e Adriana contando sobre projeto em Cuba

Em uma apresentação sobre Havana, em Cuba, as pesquisadoras Joiselen y Adriana contaram sobre a importância de transformar os desenhos das ruas de Cuba de acordo com o uso atual, para que em uma eventual motorização e chegada de carros e motos ao país a característica dos uso do espaço público fosse preservada. As ruas em Havana atualmente são tomadas pela socialização e brincadeira mesmo sem infraestrutura para isso, mas é preciso trazer a infraestrutura antes da dominância por outros transportes.

3 ) Legislação que inclui perspectiva de gênero no planejamento urbano impulsiona processos de participação cidadã de mulheres.

Dafne do Equal Saree, que faz projetos de urbanismo feminista

No painel específico de gênero, três das quatro convidadas eram da Espanha, sendo duas de Barcelona (Sara Ortiz do Collectiu Punt 6- live- e Dafne Saldaña do Equal Saree). Não é à toa que o tema está mais desenvolvido por lá: em 2007, a Espanha incluiu em sua legislação de igualdade que os projetos de planejamento e desenvolvimento urbano deveriam incorporar a perspectiva de gênero com participação cidadã. Isso impulsionou muitas auditorias de gênero e projetos que são uma grande referência para nós que trabalhamos com gênero e mobilidade.

4 ) Macrodados de caminhabilidade ajudam a ter um panorama, mas não visibilizam os problemas na escala humana.

Com o acontecimento do Walk21 em Bogotá, a Prefeitura agilizou e criou um índice técnico de caminhabilidade de toda a cidade, usando mapas de calor e cruzando com os movimentos a pé. O mapa ajuda principalmente técnicos das secretarias de transporte e urbanismo a entenderem o caminhar também como um transporte de massa e um sistema. Mas obviamente o levantamento de dados em uma escala marco não resolve o problema por si só, pois mais uma vez a cidade é vista “de cima”, enquanto o caminhar é impactado por detalhes visíveis apenas aos cidadãos e cidadãs quando caminham. Por isso manter processos participativos de análise da qualidade da cidade para o caminhar continua sendo muito importante.

5 ) Tecnologia pode ajudar a entender movimentos a pé e gerar dados para cidades mais caminháveis.

O termo e o que se difunde em “Smart Cities” é quase contrário ao não tecnológico ato de caminhar. Porém alguns bons exemplos de como “smart” coisas podem colaborar com cidades mais caminháveis foram apresentados no evento. Além dos mapas de calor do índice de caminhabilidade técnico de Bogotá, a empresa Eco-counter mostrou possibilidades de tecnologia de contadores para ajudar no planejamento e entendimento das cidades.