Pela primeira vez, sinalização para pedestres chega a bairro da periferia de São Paulo

SampaPé
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Dec 19, 2018 · 5 min read

Projeto proposto pelas organizações SampaPé! e COURB implementa sistema de placas que contam histórias do Jardim Nakamura e trazem informações sobre os deslocamentos a pé a moradores e moradoras

Entrada do bairro com sinalização indicativa e graffiti de boas vindas ao fundo. (Foto: Leticia Sabino)

O projeto “Passeia, Jardim Nakamura”, organizado pelas ONGs SampaPé! e COURB no bairro localizado no distrito do Jardim Ângela, tornou a região ainda mais interessante para quem se desloca a pé. Nos dias 07 e 08 de dezembro, vários coletivos, cidadãs e cidadãos do bairro se juntaram em um mutirão para instalar placas que ajudam as pessoas a se localizar pela região e conhecer melhor as histórias do seu território e população. Além da nova sinalização, ruas do bairro ganharam mais cores com novos grafites.

Foram espalhadas pelo bairro placas de três tipos: de indicação ou direcionais, que apontam em que direção e a que distâncias os locais de interesse estão; de localização ou navegação, que apontam onde a pessoa está no bairro com apoio de um mapa; e de informação, que contam a história dos lugares mais importantes para quem vive ali. Para Raphael Poesia, integrante do Instituto Favela da Paz, mais do que adicionar elementos de orientação pelas ruas do território, as placas ajudam a valorizar as potências do Jardim Nakamura: “é interessante porque as pessoas começam a saber mais a história do próprio bairro — que vem recebendo cada vez mais pessoas com o objetivo de conhecer tudo o que vem sendo realizado aqui.”

Raphael Poesia, do Favela da Paz, ajuda na instalação das placas. (Foto: Leticia Sabino)

Junto com o mutirão de instalação da sinalização, crianças participaram de uma atividade lúdica com o intuito de aproximá-las da história do lugar onde vivem. Foi realizada uma gincana de “Caça ao Tesouro”, na qual “urbanistas mirins” recebiam pistas dos locais que foram sinalizados, localizavam os pontos no mapa e iam até eles para fazer pinturas com estêncil, deixando suas marcas nas ruas do bairro. Para Mariana do Instituto COURB, que conduziu a brincadeira com Bárbara, também do COURB, “envolver crianças é uma forma de despertar o olhar delas para reconhecer o território em que vivem e o sentimento de apropriação pelo bairro”. “A gente acredita que a partir dessa fase já conseguimos ir plantando sementinhas para o engajamento cívico e participação social nas decisões dos rumos da cidade”, completa ela.

Crianças participam do Caça ao Tesouro, fazendo pinturas em estêncil para ajudar na comunicação e legibilidade do bairro. (Foto: Fluxo Imagens)

O que é o projeto

O projeto “Passeia, Jardim Nakamura” é apoiado pelo Fundo Casa Cidades e tem por objetivo garantir maior conforto e segurança nos deslocamentos a pé, que são maioria no bairro, e valorizar o território e a comunidade local. A iniciativa é um projeto piloto de “legibilidade cidadã”, ou seja, implantar, no espaço público , elementos de comunicação que promovem a possibilidade de cidadãs e cidadãos conhecerem melhor seus próprios territórios, entenderem seus caminhos e se apropriarem das histórias contadas pela paisagem.

No Brasil, iniciativas assim ainda são incipientes, e quando existem são focadas na sinalização de sítios históricos em zonas centrais das cidades. É o que explica Leticia Sabino, da ONG SampaPé: “dessa forma, outros bairros ficam à margem, como se não tivessem histórias a ser contadas ou não precisassem de um sistema de informações às pessoas que caminham”. “Ao convidar a própria população local a co-construir o sistema de sinalização do território, o projeto se propõe a mostrar que a periferia também deve ser “legível” para moradores e visitantes, e isso colabora com a valorização do caminhar como uma maneira de conectar afetivamente a população local ao seu próprio bairro”, complementa ela.

Moradores conferem o mapa instalado, que indica a localização dos principais locais do bairro. (Foto: Mariana Morais)

Iniciativa construída a muitas mãos

Todo o processo de desenvolvimento e implantação da sinalização foi desenvolvido em parceria com organizações do bairro. Em outubro, o Instituto Favela da Paz, que atua no território nas temáticas de cultura, meio ambiente e cidadania, sediou a oficina de co-criação da sinalização no bairro. Além disso, o projeto conta com o apoio do articulador local Roger Beats, da Associação Família Nakamura, das escolas do bairro e o registro da Fluxo Imagens. No dia do mutirão, o café da manhã reforçado ficou por conta da Vegearte, enquanto o almoço foi fornecido por Nana’s BK. A identidade visual da sinalização foi idealizada pelo Estúdio Daó. A Subprefeitura de M’Boi Mirim, por sua vez, autorizou o evento e apoiou na sua divulgação.

Já os coletivos de arte urbana do bairro, Ciclo Social Arte e Manifestintação Crew, deram novas caras aos muros da região, usando sua criatividade para tornar o ambiente mais agradável e conectado aos caminhantes. As intervenções visuais fazem referência à identidade do bairro e às formas mais ativas e saudáveis de se locomover, como a bicicleta e o caminhar. “Em cada local exploramos um foco da mobilidade urbana”, explica Michel Onguer, um dos artistas envolvidos na renovação dos grafites. “Pra gente foi bem bacana se juntar ao projeto, porque ajuda a registrar nossa história, que normalmente é difundida apenas de forma oral e podem ficar perdidas até mesmo para pessoas do bairro.”

Muitos dos colaboradores do mutirão posam na entrada do bairro na avenida M’boi Mirim. (Foto: Fluxo Imagens).

Próximos passos

Já com as placas instaladas, a segunda etapa do projeto, que será realizada nos primeiros meses de 2019, vai criar um roteiro de passeio a pé no bairro com conceitos de cidades educadoras. Nesta etapa, moradores, moradoras, professores e professoras do Jardim Nakamura vão passar por um treinamento de elaboração de roteiro e de realização de passeios a pé, ministrado pelo SampaPé. Por fim, será realizado um passeio inaugural pelo bairro.

O projeto pretende ser um piloto que consolide a prática de comunicar as potências de bairros periféricos em sistemas de sinalização e turismo comunitário. Por isso, ao final do projeto será lançado um relatório para compartilhar as diferentes etapas do desenvolvimento de um projeto de legibilidade cidadã com a população, visando a replicação da iniciativa por outros territórios brasileiros.

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ONG que tem como fim melhorar a experiência de caminhar nas cidades.